domingo, 30 de agosto de 2009

Bira pela mudança

Blog do Anselmo Raposo- Porque ser Candidato a Presidente do PT -Maranhão?
O PT é único partido no Brasil que tem eleições diretas para escolha dos seus dirigentes nacionais, estaduais e municipais. São eleições proporcionais, ou seja, cada chapa indica vagas no diretório proporcionalmente à quantidade de votos obtidos. Ser candidato a presidente do PT no Maranhão nesse momento é uma necessidade política. Todos sabem que fui candidato a senador da república e que obtivemos um resultado excepcional. Entretanto, quando fui candidato não tive o apoio do PT nacional. Quando ganhamos a eleição com o Jackson Lago, uma banda do partido me excluiu do Secretariado. Em 2008, quando havia forte cogitação do meu nome para prefeito de São Luís, o PT, por maioria, não me permitiu ser candidato. Como diz o ditado popular, “gato escaldado tem medo de água fria”. Se não há garantias, se não há acordos internos, se não há projetos, o jeito é concorrer e buscar o espaço que assegure nossa presença. E não se trata de uma reflexão individual, mas de uma discussão coletiva que une diferentes setores do partido em torno da idéia de se construir um projeto político para o Maranhão que possa viabilizar o PT como uma alternativa de poder no Estado.


Blog do Anselmo Raposo - Qual o balanço que você faz do PT no Maranhão?
Vamos fazer 30 anos e pouco avançamos. Basta compararmos com outros Estados do norte-nordeste. O PT governa o Estado do Pará, do Piauí, do Sergipe, da Bahia, a capital do Tocantins, de Fortaleza, de Pernambuco, somente para citar os mais próximos. Porque aqui tem que ser diferente. Estamos muito abaixo da média. Sei que podemos ir além. Pra isso temos que pensar grande. Construir uma base programática, manter um sólido leque de alianças, retomar a proximidade com os movimentos sociais, a formação política, reanimar a juventude, avançar nos municípios, inclusive consolidando experiências administrativas positivas. Ou seja, temos que ter projeto político. O que nos falta é, principalmente, isso.


Blog do Anselmo Raposo - Como superar essas dificuldades?
O primeiro passo é fazermos o dever de casa, é unir o partido em torno de um projeto mínimo do qual todos se sintam parte. Quer dizer que vamos encerrar as divergências? Não. Mas precisamos de um ambiente que permita o diálogo, com procedimentos claros e respeito à nossa democracia interna. Queremos também repactuar as relações com a Direção Nacional. O Brasil é continental. Não dá pra achar que o que acontece em Brasília tem que se reproduzir nos Estados e, sobretudo, no Maranhão. Só nós conhecemos a dor e a delícia de se viver nesse lugar. Portanto, queremos respeitar o projeto nacional, mas sem abdicar da nossa coerência local. Creio que assim estaremos ajudando a renovar a política e livrar o país dos coronéis.


Blog do Anselmo Raposo - Como você vê o cenário politico para 2010? Quais as alianças que voce defende?
Ainda muito indefinido. Pelo que já conversamos no meio político, o mais provável até agora é um cenário com uma candidatura do grupo Sarney (PMDB), Roseana ou Lobão, e pelo menos duas das chamadas oposições. Jackson Lago (PDT) continua um nome forte. Flávio Dino (PCdoB) avança cada vez mais. Zé Reinaldo (PSB) ainda reúne muita força política. O PSDB pode vir com Roberto Rocha. E o Dutra (PT) vem defendendo meu nome (PT), o dele próprio e Terezinha Fernandes (PT) na discussão. Não sabemos. Por enquanto há muita especulação. Defendemos uma aliança pela esquerda. Queremos retomar o campo democrático popular. Por isso damos preferência às conversas com o PSB, PDT e o PCdoB.


Blog do Anselmo Raposo - Há poucos dias atrás um determinado Blog publicou que Bira do Pindaré poderá ficar de fora das eleições de 2010 por não saber a que concorrer. Você é candidato a que em 2010?
Quem diz isso certamente não conversou comigo e não tem lido minhas entrevistas. O que serei em 2010 depende do partido, é quem decide. Depende também das negociações e acordo com os possíveis aliados. Mas se depender da minha opinião e do grupo do qual faço parte serei candidato a senador. Sem obsessão e sem imposição. É diálogo. É construção. Com respeito e muita responsabilidade política, buscando o melhor para o povo do Maranhão.


Blog do Anselmo Raposo - A sua candidatura a Presidente do PT não pode atrapalhar os seus planos de ser candidato Majoritário (Senador)?
Nada a ver. Como expliquei acima, sou candidato por absoluta necessidade política. Já ficamos fora dessa disputa interna anteriormente e mesmo assim fomos rifados. Se já houvesse decisão no PT quanto à nossa participação na disputa de 2010 não haveria porque ser candidato a presidente no momento. Mas não há. Não vou ficar “em casa com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”. Vamos à luta.


Blog do Anselmo Raposo -Como você vê a crise política que está passando o Senado e como você seria um Senador diferente se Nacionalmente o PT apóia o Presidente Sarney?
Poderia ser diferente como o Suplicy está sendo. Quem dera se em momentos como este tivesse dezenas de “suplicys” naquele senado. A história poderia ser outra. É isso que temos que fazer. Agir com responsabilidade e altivez. Pensar no povo, na coletividade, na coerência, nos nossos sonhos, nas nossas lutas. Tudo tem limite. Na política não pode ser diferente. Se um servidor público, um barnabé qualquer, comete uma infração no exercício da função ele responde por isso. Tem sindicância, tem processo administrativo e pode ter punição, que vai desde a advertência até a demissão a bem do serviço público. Com os políticos tem que ser diferente? Não faz sentido. É um desserviço à democracia. “Ah, mas isso vai nos prejudicar eleitoralmente”. Não importa! O que não pode é prevalecer a impunidade. Os fins não podem e não devem justificar os meios. Enfim... É uma crise que revela o quanto o senado esta distante do povo. Sempre esteve. Tem sido lugar dos coronéis. Mas pode ser diferente, e será. O povo está cada vez mais sabido e certamente dará sua resposta nas urnas. Quem viver, verá.

sábado, 22 de agosto de 2009

Nuestro hijo de puta - Lula para Sarney

Somoza e Roosevelt em Washington, 1939

Nuestro hijo de puta


Por Jhonatan Almada

Estou impactado pelo artigo de Frei Betto, com sua lucidez ética de sempre. A História de alguns tempos atrás era tida como "Mestra da Vida", concepção profundamente abalada e hoje recusada por contraposição a certa visão crítica do conhecimento.

Num filme já gasto, por nome "O Clube do Imperador", o velho professor de História tentava explicar aos alunos por que se estuda História, ele dizia, em linhas gerais, que era para se mirar no exemplo dos que a fizeram, seja para o mal ou para o bem, para exaltar a virtude e contribuir com a transformação e o aperfeiçoamento da coletividade na nossa curta passagem pelo mundo da vida.

Porém, ao prescrutarmos seus escanhinhos, resgatamos verdadeiros achados da atualidade como o vigoroso discurso de Cícero contra Catilina, que Frei Betto trouxe à lume. Nenhuma alusão seria mais apropriada se o senador Sarney merecesse tal deferência de comparação. Ainda que o comportamento espúrio de Catilina lhe seja afeto, como meia de seda em perna de mulher.

Após essa aparente finalização da crise do Senado, no meu juízo, a comparação que melhor lhe cabe é a feita por Franklin Roosevelt em relação a Somoza, ditador da Nicarágua. Ele disse "es um hijo de puta, pero es nuestro hijo de puta". Creio que seria uma ótima e adequada próxima frase de impacto do presidente Lula ao seu aliado "incomum".

O PT e Lula ao abraçar a aliança com Sarney, sublimando qualquer ética possível fizeram a mesma coisa. Como Lula disse sobre essa aliança - tem que tratar o ativo e o passivo juntos. Não adianta ficar como Valter Pomar dourando maça de árvore envenenada, dessa aliança a direita, chamando os outros de direita. Essa história de que "o inferno são os outros" não se sustenta mais, se desmanha no ar em pouco tempo.

O passivo será insuportável a quem se acostumou ao octênio de poder. O exílio na Etúria está bem próximo aos que não veem, aos que fingem que não veem e aos que pensam que os outros não veem.

Catilina abusa de nossa paciência

Catilina abusa de nossa paciência


Por Frei Betto


“Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, indagou Marco Túlio Cícero ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Flagrado em atitudes criminosas, Catilina se recusa a renunciar ao mandato.

Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, pôs em sua boca a indignação popular: “Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?”

“Ó tempos, ó costumes!”, exclamou Cícero movido por atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. “Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?”

Jurista, Cícero se esforçou para que Catilina admitisse os seus graves erros: “É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia.”

Se Catilina permanecia no Senado, não era apenas a vontade própria que o sustentava, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: “Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?”

Cícero não temia ameaças e expressava o que lhe ditava o decoro: “Já não podes conviver por mais tempo conosco; não o suporto, não o tolero, não o consinto. (…) Que nódoa de escândalos familiares não foi gravada a fogo na tua vida? Que ignomínia de vida particular não anda ligada à tua reputação? (…) Refiro-me a fatos que dizem respeito, não à infâmia pessoal dos teus vícios, não à tua penúria doméstica e à tua má fama, mas sim aos superiores interesses do Estado e à vida e segurança de todos nós.”

Os crimes de Catilina escancaravam-se à nação. Seus próprios pares o evitavam, como assinalou Cícero: “E agora, que vida é esta que levas? Desejo neste momento falar-te de modo que se veja que não sou movido pelo rancor, que eu te deveria ter, mas por uma compaixão que tu em nada mereces.

Entraste há pouco neste Senado. Quem, dentre esta tão vasta assembléia, dentre todos os teus amigos e parentes, te saudou? Se isto, desde que há memória dos homens, a ninguém aconteceu, ainda esperas que te insultem com palavras, quando te encontras esmagado pela pesadíssima condenação do silêncio?”

Catilina fingia não se dar conta da gravidade da situação. Fazia ouvidos moucos, jurava inocência, agarrava-se doentiamente a seu mandato. “Se os meus escravos me temessem da maneira que todos os teus concidadãos te receiam” – bradou Cícero -, “eu, por Hércules, sentir-me-ia compelido a deixar a minha casa; e tu, a esta cidade, não pensas que é teu dever abandoná-la? E se eu me visse, ainda que injustamente, tão gravemente suspeito e detestado pelos meus concidadãos, preferiria ficar privado da sua vista a ser alvo do olhar hostil de toda a gente; e tu, apesar de reconheceres, pela consciência que tens dos teus crimes, que é justo e de há
muito merecido o ódio que todos nutrem por ti, estás a hesitar em fugir da vista e da presença de todos aqueles a quem tu atinges na alma e no coração?”

Cícero não demonstrava esperança de que seu libelo fosse ouvido: “Mas de que servem as minhas palavras? A ti, como pode alguma coisa fazer-te dobrar? Tu, como poderás algum dia corrigir-te?” E não poupou os políticos que, apesar de tudo, apoiavam Catilina: “Há, todavia, nesta Ordem de senadores, alguns que, ou não veem aquilo que nos ameaça, ou fingem ignorar aquilo que veem.”

Acuado, Catilina se refugiou na Etrúria e morreu em 62 a.C. Cícero, afastado do Senado por Júlio César, foi assassinado em 43 a.C. Um século depois, Calígula, desgostoso com o Senado, nomearia senador seu cavalo Incitatus, com direito a 18 assessores, um colar de pedras preciosas, mantas de cor púrpura e uma estátua, em tamanho real, de mármore com pedestal em marfim.

Cadernos de primeira

Cadernos de primeira

“Vivíamos em um momento de entrevistar personalidades que eram assassinadas”. Beatriz Bissio fala sobre os Cadernos do Terceiro Mundo, revista latino-americana criada durante a Guerra Fria.

Por Adriano Belisário - Revista de História da Biblioteca Nacional.

Beirute, 1982. Ainda em destroços por conta dos bombardeios comandados por Ariel Sharon, o estádio Camille Chamoun fora identificado como um paiol de explosivos e munições. Enquanto parte da mídia repetia a justificativa israelense para os ataques, um grupo de jornalistas latino-americanos saía às ruas para checar os escombros do ginásio. Nem sinal de armas. Nele, encontraram apenas alimentos doados pela Cruz Vermelha para os palestinos.

Cofundadora da revista Cadernos do Terceiro Mundo, a jornalista uruguaia Beatriz Bissio protagonizou o episódio. Através dele, é possível entrever um resumo da história de uma publicação que tratou dos países em desenvolvimento a partir de seu próprio ponto de vista. Beatriz cobriu ainda as guerras civis em Angola e Moçambique, além de conflitos em vários outros países da África e Oriente Médio, como a guerra entre Irã e Iraque. Criado em 1974 na Argentina, os Cadernos chegaram a ser publicados em três idiomas e distribuídos em dezenas de países.

Naturalizada brasileira, Beatriz atualmente busca apoio para a digitalização completa do acervo dos Cadernos do Terceiro Mundo. Hoje, é possível ter acesso apenas a uma seleção de reportagens célebres em um CD produzido pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que pode ser solicitado através do Laboratório de Pesquisa e Práticas de Ensino da instituição. Na entrevista abaixo, além de recordar fatos marcantes da história dos Cadernos, a jornalista comenta sobre a volta da publicação, a política na América hoje e a perseguição das ditaduras latino-americanas.

- Você entrevistou diversas vezes líderes importantes, como Yasser Arafat, Saddam Hussein e Fidel Castro. Você se recorda de alguma destas entrevistas especialmente?
A entrevista com Samora Machel, presidente de Moçambique assassinado. Os sulafricanos confundiram os aparelhos do avião presidencial que levava Samora para Moçambique. Atraíram o avião para um território dentro da África do Sul e fizeram-no colidir com uma montanha. É o que dizem, mas ele pode ter sido abatido. Samora Machel era um homem extraordinário. Foi o primeiro presidente de Moçambique independente e tinha uma personalidade muito alegre.

Por que podemos dizer que foram os sulafricanos? Nunca encontraram bem os destroços, não permitiram uma investigação internacional e o governo moçambicano apoiava abertamente a luta do Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela, contra o governo de minoria branca da África do Sul. Também era aliado da União Soviética e a Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique] declarava como linha política a opção de construir uma sociedade socialista. Eram motivos suficientes para um regime como o do apartheid ver em Samora um inimigo a ser descartado.

Arafat e Fidel também eram fascinantes. Com Arafat, a entrevista era sempre uma surpresa, um ataque do coração. Éramos chamados de madrugada com um telefonema e falavam: “Arafat está esperando”. Descíamos do hotel e um grupo nos levava por locais que a gente desconhecia. Era sempre em um lugar diferente. Arafat dormia pouquíssimo, sempre trabalhando. Não dormiu dois dias no mesmo lugar durante anos.

Há suspeitas bem fundadas de que tanto ele quanto o irmão morreram envenenados. Foram as mesmas circunstâncias e a doença não tinha antecedentes, nem nada que a justificasse. No Iémen, entrevistamos também um primeiro ministro que logo depois foi morto. Vivíamos em um momento de entrevistar personalidades que eram assassinadas, de partilhar momentos dramáticos com as populações e também de transmitir isso para uma América Latina tão distante.

- Como se deu a fundação dos Cadernos?
Conheci Neiva Moreira [cofundador dos Cadernos e líder da esquerda brasileira] no Uruguai. Eu fazia Engenharia Química e editava o jornal dos estudantes. Era incendiário, incentivava todas as greves e manifestações. [risos] E isso em 1969, já próximo do Uruguai sucumbir ao golpe de estado. Em 72, um colega me avisou que um jornal da recém formada Frente Ampla estava convocando estagiários. O jornal se chamava Ahora e Neiva era o diretor. Mas ele era exilado e não podia trabalhar em um meio de comunicação. Então, quem assinava a direção era Oscar Bruschera, um historiador uruguaio muito reconhecido.

Larguei Química e me apaixonei pelo jornal. Acabei me apaixonando também pelo diretor do jornal. [risos] Depois do golpe em 73, Neiva não podia mais ficar no Uruguai, pois já tinha sido advertido por vários amigos que o nome dele circulava nos interrogatórios. A inteligência sabia que era ele que dirigia o jornal e de seus vínculos com movimentos de resistência na América Latina. Então, tivemos que sair de lá e aí começou a trajetória dos Cadernos

- Vocês foram para Argentina depois do golpe no Uruguai?
Neiva foi para Argel cobrir a Conferência dos Não-Alinhados. Foi um encontro muito importante que definiu uma estratégia de valorização das matérias-primas e lançou a proposta de uma nova ordem econômica e informativa internacional. Decidiu-se não aceitar uma mídia internacional que fornece informações sobre os países de terceiro mundo através das agências de notícias europeias e norte-americanas. Os Cadernos surgiram dessa exigência de um jornalismo com olhar próprio. Ao voltar de lá, o Neiva iria me encontrar no Chile, onde pretendíamos nos estabelecer. Só que durante a Conferência acontece o golpe contra Allende, então Neiva decide ir para o Peru. E eu fui encontrá-lo.

- E quando foram do Peru para a Argentina?

No Peru, o Neiva fez o livro ‘O Modelo Peruano’. Ele se interessou pela forma como o general Velasco Alvarado estava gerindo um processo socializante no país. Entre outras coisas, ele teve a audácia de expropriar todos os meios de comunicação da direita. Isso que Chavez fez não é nada perto do que Velasco fez no Peru nos anos 70. Ele expropriou todos os jornais e entregou aos sindicados por categoria. O jornal El Comercio, que era como o Estadão, foi entregue aos camponeses, por exemplo.

Fomos para Buenos Aires no final de 1973. Através de amigos, conhecemos Julia Constella, editora da La Linea, que publicou o Modelo Peruano. Também conhecemos Pablo Piacentini, que era da extrema esquerda argentina e se interessou nas crônicas que Neiva trouxe de Argel. Desse convívio, surge a ideia de fazer a revista.

- Como foi o período na Argentina?
A Argentina viva uma clima de confronto permanente. Os Cadernos tiveram um lançamento de grande sucesso. Editamos nove números, mas a revista chamou atenção dos setores conservadores. Pablo passou a constar em listas de condenados a morte. Era uma advertência para que saíssemos do país, caso contrário poderíamos ser sequestrados e assassinados.

Então, botaram uma bomba na La Linea, um aviso mais que claro mostrando que a situação estava se colocando em termos insustentáveis. Neiva também já tinha sido advertido por amigos que falaram para sairmos de nossa casa porque estávamos sendo vigiados. Dormíamos cada noite em um hotel diferente. Certa vez, uns homens mascarados arrombaram o quarto do hotel e entraram com metralhadoras. Falaram que tínhamos 24 horas para sair do país. Entramos na Embaixada do Peru e pegamos o primeiro avião para Lima. A Julia consegue manter a revista por alguns números ainda, mas depois também foi embora da Argentina e durante 1975 os Cadernos não saem.

Em março do ano seguinte, já estamos no México e relançamos a revista. Aí continua sem interrupções até 2005. Lá, conseguimos apoio do chileno Juan Somavía, hoje presidente da Organização Internacional do Trabalho. Ele estava exilado e dirigia um instituto de pesquisas que estudava as multinacionais e alguns dos pesquisadores estavam focados na comunicação. Quando chegamos com a proposta, eles viram que era algo bem próximo do que eles desejavam e nos apoiaram.

- Além da invasão no hotel em Buenos Aires, houve casos de outros ataques aos membros da revista?
Muitos colaboradores da Argentina estão desaparecidos até hoje. Teve um correspondente que foi assassinado no sudeste asiático. Era o Malcolm Caldwell, jornalista e academico britânico, marxista declarado, autor de numerosa obra sobre as lutas de libertação da Ásia, onde morou por longos anos. Foi assassinado em dezembro de 1978 em Phnom Penh, onde tinha sido asíduo visitante desde que, em 1975, integrara o primeiro grupo de jornalistas ocidentais a visitar Cambodja, chamada Kampuchea na altura, depois de sua libertação. Na época se disse que o assassinato ocorrera por ordem de Pol Pot, governante do país, pouco depois de ambos terem tido um encontro, em 1978.

Outro colaborador foi o argentino Luis Guagnini, que foi assassinado em Buenos Aires com 33 anos, depois de ter sido sequestrado com a mulher, liberada dos dias depois, em dezembro de 1977. Aparentemente, ele ficou preso, torturado, até algum tempo depois. Teria sido um dos presos políticos que, drogados, foram jogados no mar pelos militares argentinos, como denunciou um outro colaborador de Cadernos, hoje um dos mais importantes jornalistas no tema das violações aos direitos humanos durante a ditadura argentina, Horacio Verbitsky.

- Isso dentro do contexto da Operação Condor, que também é acusada de ser responsável pela morte de João Goulart, não é?

Isso. O Neiva sempre acreditou que Jango foi assassinado, mesmo quando a viúva dele ainda negava. Ela dizia que estava próxima dele e sabia dos medicamentos, mas para uma operação deste porte, que só hoje estamos vendo a ponta do iceberg, infiltrar alguém entre pessoas da família e trocar um medicamento não era algo fora de cogitação. A lógica faz acreditar na tese do assassinato. É muito suspeito que das pessoas que, das pessoas que pudessem ter tido um papel de peso no retorno à democracia, vários tenham morrido em circunstâncias tão trágicas.

- E quando a revista chegou ao Brasil?

Os Cadernos ficaram no México até 1980, quando a redação central foi para o Rio de Janeiro. A primeira edição portuguesa foi publicada em 1975, um número especial totalmente dedicado à independência de Angola. Em 1978, começou a ser feita uma edição em português em Lisboa, que permaneceu sendo a única até 1980. Era destinada principalmente aos leitores dos países da África lusófona. Em 1980, quando é lançada a edição brasileira, passam a coexistir duas edições em português. Essa situação dura vários anos. Os angolanos e moçambicanos foram unânimes: “Vai dar um curto circuito no leitor se a gente ensinar uma gramática que não é a que usamos”. Fora o fato que a própria ortografia era diferente. Então, era necessário fazer esse esforço.

- Como era a equipe?
Nunca foi muito grande. No auge, tivemos entre redação e centro de documentação cerca de trinta pessoas. Dávamos muito importância à documentação. Chegamos a ter nove pesquisadores. O jornalismo que fazíamos exigia um apoio para checar diferentes fontes. Às vezes, cada matéria de capa era trabalhada com até quatro meses de antecedência. O centro de documentação era um grande diferencial. Muito dos estagiários daquela época estão em lugares chaves da mídia nacional hoje. Além de jornalismo, também fizemos jornalistas.

- Em quais circunstâncias ocorreu o fim dos Cadernos em 2005? É possível uma volta?
Os Cadernos deixaram de circular por absoluta inviabilidade financeira. Entre as várias causas, uma das principais foi a circunstância crítica da indústria editorial a partir da era Collor, quando houve um grande aumento dos custos de produção. Ninguém ajudou com publicidade oficial e também não tivemos sucesso com a procura por publicidade de empresas privadas. A cada número, como bola de neve, as dívidas aumentavam...

Todos os fundadores estão vivos, mas sinto que os Cadernos tiveram seu ciclo. Pessoalmente, não gostaria de voltar com a revista. Há uma espécie de mito e lidar com mitos é diferente de lidar com questões concretas. Se não tivesse parado, teria prazer de continuar. Mas, quando me deparo com o desafio de relançar, sempre acho que não alcançaria o tipo de jornalismo que cobram. Queria lançar uma publicação que pudesse ser um elo com os Cadernos, algo comprometido com as causas sociais e o futuro independente e soberano das nações. Assim, estaria no trilho dos Cadernos, mas sem ser uma continuação.

- Como você vê a América hoje, em especial a dupla Chávez e Obama?
Com relação a Chávez, é possível ter críticas a um certo histrionismo, uma falação imprudente para um chefe de Estado. Mas ele está enfrentando interesses muito poderosos. Já foi seqüestrado, ameaçado de morte e teve um golpe financiado pelos Estados Unidos. Não sei se a solução ideal para conter uma mídia que no caso da Venezuela já estava de fato completamente ligada aos conservadores é o que ele fez, mas um governo cercado por uma imprensa conspirando com militares e serviços de inteligência de países estrangeiros tem o direito de se preservar.

Sobre Obama, evidentemente Bush deixou um ressentimento muito grande fora e dentro dos Estados Unidos. A mídia o coloca num posto de salvação, mas não sabemos se ele vai ter a audácia e o peito de enfrentar o establishment norte-americano. Não é fácil fazer uma política de estado que transcenda partidos. Mudar para inglês ver é uma coisa. Mudar no âmago para construir uma relação de parceria com países implica questões que acho que os Estados Unidos ainda não estão. Talvez, Obama coloque os primeiro tijolos de uma construção que virá depois.

- E Cuba após Fidel?
Estive no ano passado em Cuba. O alto nível de educação talvez o torne o país da América Latina mais perto daquilo que chamamos de construção da cidadania, mas é algo contraditório porque há um regime de partido único e que até pouco tempo tratava questões como a homossexualidade de uma forma que não seria o que a gente esperava. No entanto, Cuba tem uma população altamente politizada e com um bom nível de informação. Ao contrário daqui, os meios de comunicação não apostam no entretenimento. Em Cuba, a maior parte do tempo a mídia trabalha em cima de problemas, como análises da crise global ou da situação da América Latina. Eles podem não estar absolutamente satisfeitos com o regime, mas eu diria que nas questões essenciais eles estão de acordo.

Quando Fidel não estiver mais aqui, virá uma modalidade diferente de governo. Já vimos que o estio de Raul não é o mesmo. Como me disse um taxista, Fidel é um homem que nasce uma vez de dois em dois séculos. Ele é tão maior que Cuba que vive pensando nos problemas da humanidade. Raul não tem essa dimensão. Para bem dos cubanos, ele é mais atento aos pequenos problemas de Cuba. Acho que Cuba não terá grandes viradas, mas uma forma diferente de lidar com as coisas. Até mesmo com os Estados Unidos, que também já mostram uma maneira diferente de lidar com Cuba.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Educação não é tijolos e cimento

Educação não é tijolos e cimento

Por Jhonatan Almada

A Educação aqui no Maranhão é tratada como se bastasse tijolo e cimento para reverter os péssimos indicadores e o desempenho sofrível dos alunos e alunas nos exames nacionais e internacionais.

Recentemente o Governo Roseana Sarney lançou o Programa Viva Educação, longe de ser algum planejamento da educação maranhense, se trata de uma notícia e um discurso. A primeira focada na pirotecnia dos grandes números e no efeito sobre o público leigo no assunto. O segundo desfocado da realidade educacional e preocupado, como de praxe, em transparecer uma ruptura com o passado construído por eles mesmos e aparentar inovação.

O mais espantoso em tudo foi o discurso em afirmado que o Maranhão agora irá enfrentar o problema do analfabetismo, para tanto o governo (ilegítimo) irá contratar consultorias para elaborar um Plano de Combate ao Analfabetismo.

Nenhuma palavra sobre o grande debate nacional em torno do tema - direito de aprender. Ora as crianças, adolescentes, jovens e adultos vão a escola para aprender, pelo menos deveriam. Se isso não é garantido pela educação oferecida, isto é, se a aprendizagem não ocorre, então falida está a política educacional.

O Governo Jackson Lago construiu ampla gama de instrumentos no planejamento público abordando a educação, demonstrando sua importância estratégica para o futuro e presente imediato. Entre eles, o Plano de Alfabetização Educadora de Jovens, Adultos e Idosos do Maranhão-PAEMA, elaborado coletivamente através de um processo participativo em todo o Estado, com a sociedade civil, comunidade educacional, lideranças e interessados, cuja execução estava a pleno vapor, antes do golpe.

Além do PAEMA, a Conferência Estadual preparatória para a Conferência Nacional de Educação em 2010, elaborou em 2009, com a participação de toda a comunidade educacional a "Educação que o Maranhão quer e precisa", dita pelos que fazem-na e a levam nos ombros. Um documento basilar para qualquer política no estado, cujo o cerne inovador está na construção de um Sistema Integrado de Educação no Estado-SIEPE.

Alguém deveria ter informado a "Governadora" e ao Secretário de Educação, "educador de ofício" que é crime utilizar os recursos públicos para mandar fazer algo já feito. Mais ainda, é imoral e antiético ignorar um planejamento construído a mãos juntas pela sociedade e governo por conta do desconhecimento dos atuais gestores sobre o que de fato é política educacional e da sua visão tosca sobre Política.

Assistimos a um verdadeiro retrocesso do planejamento público maranhense, sobretudo o educacional. Retrocesso carregado do autoritarismo e do oligarquismo, pois enquanto nacionalmente envidamos esforços para reverter a principal e histórica característica do planejamento educacional - a falta de participação dos professores, estudantes, pais e comunidade, preteridos no processo pela burocracia e governo de turno, aqui no Maranhão apresenta-se Plano saído da cabeça de dois ou três "iluminados" como a rendença do Estado. Até quando a educação do nosso estado ficará nas mãos de figuras despreparadas e incompetentes?

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

FRASES FEITAS E DESFEITAS...

Por www.alicenopaisdasmaracutaias.blog-se.com.br

Gostaria de tratar o senhor José Sarney com elegância e respeito, mas não posso, porque estou falando com um irresponsável, um omisso, um desastrado, um fraco. Sempre foi um político de segunda classe, nunca teve uma atitude de coragem. (Fernando Collor, na campanha de 1989, sobre o então presidente da República).

“Sei que o presidente Lula e o presidente Sarney apoiaram o meu impeachment, mas mesmo assim não desejo que sofram o mesmo. Não desejo que sejam alcançados por injúrias, calúnias, mentiras”. (Collor, hoje, em discurso no Senado).

“O Brasil é testemunha da brutalidade, da violência, do desatino com que fui agredido por um candidato profundamente transtornado”. (José Sarney sobre Collor, na campanha de 1989).

“Sou profundamente grato ao senador Collor. Ele tem sido bastante leal a mim”. (Sarney, hoje, no Senado).

“O outro candidato defende abertamente a luta armada, a invasão de casas e apartamentos. Lula é um cambalacheiro”. (Collor, 1989).

“Nenhum ataque ao presidente Sarney e ao presidente Lula ficará sem resposta”. (Collor, na semana passada).

“Pena que esse moço seja tão corrupto”. (Lula sobre Collor, 1993).

“O senador Fernando Collor tem tudo para fazer um grande mandato”. (Lula, 2007).

“Não sou eu quem diz que Lula quis forçar o aborto. Quem diz é Miriam Cordeiro, mãe da Lurian”. (Collor, 1989).

“Tive de suportar denúncias terrivelmente levianas. Sofri e muito, arrancaram-me o mandato, levaram-me a mãe, dispersaram minha família“. (Collor, hoje).

“Nós sabemos que antigamente se dizia que o Adhemar de Barros era ladrão, que o Maluf era ladrão. Poderiam ser ladrões, mas eles são trombadinhas perto do grande ladrão que é o governante da Nova República”. (Lula sobre Sarney, em 1987, num discurso em Aracaju).

“O presidente Sarney não pode ser tratado como uma pessoa comum. Ele tem biografia”. (Lula, no mês passado).

“A multidão e a sua vontade nem sempre ou quase nunca tem razão”. (Collor, hoje).

O resgate desse punhado de frases ensina que não se deve comprar uma bicicleta usada de nenhum deles, mesmo por R$ 1,99. Mas comparar o que disseram outro dia ao que dizem agora também ajuda a seguir resistindo. Um país que sobreviveu a uma trinca dessas sobrevive a tudo.

Marina não pinte esse rosto


José Serra quer Marina Silva como vice. O governador tucano de São Paulo, José Serra, articula com o Partido Verde a possibilidade de a senadora Marina Silva (AC) compor sua chapa, como candidata a vice-presidente, caso ela se filie mesmo ao PV. A aliança PSDB-PV chegou a ser discutida há meses, com Fernando Gabeira de vice, mas o sonho de Serra era ter alguém como Marina: mulher, negra, de origem pobre e heroína da causa ambiental.Dilma disse que quanto mais mulher, melhor. O PV e José Serra também acham isso, por isso buscam Marina Silva. (Coluna do Claudio Humberto).


Ao que parece a candidatura de Marina da Silva já preocupa o tucanato. A única pessoa que tem a perder com isso é a própria candidata. O Serra só tem a ganhar injeta algo de vivo, real e brasileiro na proposta europeizante do PSDB.


Se Marina conseguir chegar a 2010 desvinculada da polarização Dilma-Serra tem o grande potencial de atrair o sentimento de esperança, renovação e mudança que está em suspenso, procurando um candidato que o encarne.


A política brasileira vivencia um crescendo de descrédito, cujos autores não encontraram-se como personagens dessa trama. Collor, Renan, Sarney jogam com a ignorância e a passividade. Acreditam que são maiores que a instituição, quando, na verdade, encarnam seu burgo podre.


Precisamos comer muita terra para ter maior clareza do quadro sucessório do próximo ano. Mas uma coisa é certa. A Campanha "NÃO VOTO EM QUEM APÓIA SARNEY" deve vir com fôlego total, e defender também que "NÃO VOTO EM QUEM APOIOU SARNEY". Tomando esse político como boa régua para as nossas próximas escolhas eleitorais, muitos erros poderão ser evitados e muitas arrogâncias empaletozadas serão derrubadas.


O Brasil precisa de mudança e de alguém que vista essa camisa. Marina poder ser essa pessoa. Como uma boa música ela começa a tocar no coração de muitos cidadãos e cidadãs cansados da mesmice e das caras-de-pau dos atuais políticos, incapazes de propor algo inovador para o país.


Marina não pinte esse rosto, pois você já é bonita com o que Deus lhe deu.


Por Jhonatan Almada

BANQUE O DURO, MEU CHEFE


BANQUE O DURO, MEU CHEFE!

Por Raimundo Palhano


Não deixe o seu lugar. Foi o conselho do venerável Bita do Barão de Guaré ao presidente do Senado, José Sarney, que, ao que parece, está sendo levado extremamente a sério.


Quem ousaria desconsiderá-lo? Afinal, não se trata de um simples palpite. Estamos frente à opinião de um sumo sacerdote do Terecô, um mito vivo para o povo de Codó e muitos outros lugares deste imenso Maranhão. Um mago que, além de Ministro de Culto Religioso, foi agraciado pelo próprio Sarney, nos tempos de presidência da República, com o título de Comendador do Brasil, galardão este acessível a um pequenino grupo de brasileiros. Segundo a Época de 18.02.2002, estamos falando do pai de santo mais bem sucedido, respeitado, amado e temido do Maranhão.


Com toda certeza o zelador de santo chegou a essa conclusão consultando seus deuses e guias espirituais. Vale recordar que deles já havia recebido a mensagem de que o Senador tem o “corpo fechado”. Ketu, Olorum, Jeje ou Vodun provavelmente se manifestaram, levando Mestre Bita a emitir tal conselho.Respeito os sacerdotes de todas as religiões e toda e qualquer forma de sincretismo religioso. Aí de nós se assim não agíssemos. O Terecô que o Barão de Codó professa está bem pesquisado e pode ser admirado nos trabalhos de Mundicarmo Ferretti, estudiosa dos cultos afro-brasileiros praticados no Maranhão, que são derivações do Tambor de Mina, semelhante à Umbanda.


E se o Barão não leu corretamente o que disseram seus búzios? Claro que sacerdotes podem errar. Ainda mais em se tratando de política, o mais complexo dentre os "fenômenos religiosos" contemporâneos. A política brasileira, na qual figura a maranhense, ainda tem uma peculiaridade. De tão surreal que é, paira acima de qualquer previsão, mesmo às dos terreiros e das catedrais, escapando assim a qualquer prognóstico, até mesmo o religioso. Bita que nos desculpe, mas desta vez o conselho dado parece que não acertou no alvo. A crise do Senado, pela dura decisão do seu Presidente de não ceder aos clamores da opinião pública, para que se afaste até o julgamento das acusações que lhe são assacadas, está provocando o desmoronamento de uma das instituições basilares do Estado Brasileiro, construído com muita luta ao longo dos anos de nossa formação social.


A hora, Mestre Bita, não é mais de consultar o oráculo, indagando se o Senador deve ficar, “bancar o duro”; o que os cidadãos e cidadãs deste país, na verdade, esperam é que os deuses digam que não é possível adiar por mais tempo a saída. Quem ainda acredita no futuro do Brasil, no fortalecimento de suas instituições e no valor superior da democracia e do regime republicano exige o fim dessa insanidade apavorante que domina o atual Senado Brasileiro.


Precisamos, venerável Mestre, de ar renovado em nossos pulmões, sob pena de um colapso profundo em nossas crenças e sonhos. O próprio Senador, ó Barão, precisa descansar suas mãos trêmulas.


Postado no Blog Raimundo Palhano

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Luz no horizonte e espinho na rosa


Luz no horizonte e espinho na rosa

por Jhonatan Almada

Existe apenas um espinho na rosa de Marina. Chama-se Sarney Filho, "entusiasta da candidatura" como se afirma no jornalão oficial dos Sarney aqui no Maranhão. Ele representa um cancro conservador prejudicial a um projeto de renovação e mudança que encarne as esperanças e expectativas frustradas com a lentidão das transformações realizadas pela gestão Lula da Silva ante a demanda gigantesca da sociedade, especialmente a desigualdade e exclusão social, e mais recentemente, uma demanda por ética na política, ainda inatendida ou mesmo ignorada.

Sob a luz da realidade política local (o Maranhão) a candidatura Dilma está umbilicalmente comprometida com a aliança mais a direita (extrapolada na figura dos senadores redivivos Sarney, Renan e Collor), a candidatura de Serra ainda que interessante guarda o ranço do elitismo paulista e juntamente com a candidatura do Aécio cheiram a velha e requentada "política do café-com-leite", cujo projeto social-democrata está esgotado no mundo todo.

Qual a justificativa para se defender que as melhores candidaturas são as dos governadores de Minas e São Paulo? Alguns dirão, é por força dos estados serem os maiores colégios eleitorais e economias estaduais do país. Os políticos desses estados dominam a vida republicana nacional e exercem a liderança presidencial, com as exceções do período getulista, da ditadura militar e do esquizofrênico Collor, desde sempre. Creio que seja a hora de mudar.

Mudança foi o tom da campanha presidencial de Obama nos Estados Unidos. Mudança que lá, mesmo lá, país referência dos democratas e dessa elite rasa daqui, é lenta e opera em navegação de cabotagem.

A candidatura de Marina poderá significar uma lufada de ventos novos na putrefa política nacional e no manjado quadro sucessório presidencial. Enfim é uma luz no horizonte essa notícia. Suas origens humildes e o fato de ter lutado na vida para chegar onde está, poderão restabelecer e religar a credibilidade dos brasileiros em relação a política, a democracia e a cidadania, tão desacreditada entre população pela turma do Sarney e choldra.

Na mesma proporção a nova geração de políticos maranhenses, com Bira, Franklin, Bembem, poderá encarnar essa necessária renovação ao desgastado cardápio de alternativas políticas viáveis, mudancistas e progressistas de que o Maranhão necessita, especialmente minha geração. Velhos arranjos, velhas alianças não convencerão por muito tempo, uma sociedade cada vez mais informada e crítica quanto ao comportamento ético dos políticos e administradores públicos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Paradoxos da democracia

JOSÉ MURILO de Carvalho: "A democracia no Brasil ainda é muito precária" (Foto: Chico Silva).


PARADOXOS DA DEMOCRACIA


ENTREVISTA - JOSÉ MURILO DE CARVALHO, HISTORIADOR



O historiador José Murilo de Carvalho é um incansável pesquisador sobre a construção da cidadania no Brasil. Nesta entrevista, ele expõe problemas relacionados ao Brasil do oitocentos, os difíceis primeiros anos da República e explica os diversos dilemas da democracia brasileira

A passagem da Monarquia para a República se deu, como sabemos, através de um golpe militar. O jornalista Aristides Lobo, inclusive, cunhou a expressão "bestializados". Ele referia-se ao povo que nada sabia do golpe. O senhor utilizou a expressão de Aristides para o título de um livro sobre o assunto. Quer dizer, o Brasil simplesmente dormiu monarquista e acordou republicano...

Esse é um tema muito complexo. Veja que o Manifesto Republicano é de 1870. Desde então, assistiu-se a uma propaganda aberta a favor da República. Jornais e clubes republicanos, tanto na Corte, quanto em São Paulo e alguns Estados do País - Rio Grande do Sul e Minas Gerais, principalmente - pregavam o fim da Monarquia e o advento do regime republicano. A própria Monarquia, abordei isso no meu livro, estava perdendo rapidamente a legitimidade das camadas letradas do País. Após a Abolição, ela perdeu também a legitimidade entre os proprietários rurais, ex-proprietários de escravos. Além disso, existiram conflitos com a Igreja. Outro problema era relativo à sucessão de Pedro II. As elites intelectuais e econômicas do País não viam com bons olhos um terceiro reinado com a princesa Izabel, uma mulher casada com um francês, o conde D`Eu. Havia um certo caldo de cultura contra o Império. Agora, o que ocorreu em si foi o envolvimento militar. Eles acabaram, por proclamar a República em 15 de novembro de 1889, quando um grupo de militares do Exército brasileiro, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, deu um golpe de Estado e depôs o D. Pedro II. Muitos republicanos não sabiam do movimento militar. Nem um dos maiores republicanos, Silva Jardim.

Por que D. Pedro II não coibiu o movimento republicano?

Ele deixava correr. Em relação a essas coisas era muito "zen", como diríamos hoje. Para ele, era um movimento de jovens, sem grande importância. Por outro lado, desde 1877 ele se encontrava doente. Realmente, não estava controlando a situação. Até o último momento não acreditou no que estava ocorrendo. Por causa do golpe, Aristides Lobo cunhou a expressão "Bestializados". Realmente, as pessoas não sabiam do que se tratava. Agora, não devemos interpretar isso como se a Proclamação da República fosse algo que não tivesse base, nenhuma raiz. Isso seria exagero.
A problemática está numa pergunta: como foi programado o golpe, já que deixou de fora civis e políticos republicanos?

Na verdade, nunca ocorrera algo parecido na história brasileira. Em conseqüência, os primeiros dez anos de República foram de uma permanente perturbação da ordem. Guerras civis, revolta armada no Rio de Janeiro, revolução federalista no Sul, Canudos, na Bahia. Foram anos de grande inconstância. Talvez porque o processo tenha sido feito de uma maneira um tanto estranha, quer dizer, alheia à própria movimentação dos republicanos civis. Muitos deles só queriam a República após a morte de D. Pedro II. Aí, sim, fariam a transformação do regime monárquico para o republicano de uma maneira pacífica, menos radical. Por isso, tanta polêmica em torno do 15 de novembro. Alguns interpretam o 15 de novembro como algo que tenha caído do céu. É preciso analisar todo o contexto. Tínhamos partidos republicanos já organizados.
Para alguns, o grande paradoxo é que D. Pedro II centralizou muito o poder na Corte...

Eu não diria que ele centralizou o poder. Quando assumiu o poder, o processo de centralização tinha sido realizado pelos grupos da elite política, desde 1837, com o chamado regresso conservador. Pedro II só assume realmente o poder a partir dos anos 50 dos oitocentos. Não que ele desejasse, mas de certo modo foi obrigado. Havia um certo vácuo. Na minha interpretação, conservadores e liberais viviam às turras. Foram muitas revoltas envolvendo os dois partidos. D. Pedro II foi uma espécie de juiz entre essas duas facções. Tinha o Poder Moderador, cujo sentido era muito concreto: permitia que essas duas facções assumissem o poder em turnos e uma não excluísse a outra.

A República herdou muita coisa do Império. O sistema patrimonialista brasileiro, por exemplo...

Vamos por etapas: a abolição da escravidão foi uma revolução social. Com a Proclamação da República, não tivemos revolução nenhuma. Foi apenas uma mudança política. Tirou-se do poder um monarca, hereditário, e se colocou um presidente com período marcado para exercer o poder. Os presidentes ficavam apenas quatro anos no poder. Mesmo assim, muita coisa não mudou. Exceto a distribuição do poder entre os Estados. Quer dizer, a grande transformação foi a implantação do federalismo. Criou-se, a partir de Campos Sales, a famosa aliança política entre os Estados e o que muitos chamam da política café com leite. Os principais Estados, como Minas e São Paulo, comandavam o processo político.
E nos demais Estados?

O Sérgio Buarque de Holanda tem uma frase curiosa: o Império dos senhores de terra no Brasil adquiriu maior poder com o fim do Império. Nesta quadra se formaram as oligarquias regionais. Muitas delas condicionavam o comportamento do presidente da República.

Vivenciamos duas fortes ditaduras - a de Vargas (Estado Novo) e a militar a partir de 64. O Brasil começou a desenvolver um processo democrático nos meados dos anos 80 do século passado...

Democracia é algo que nunca se completa. É um caminho que vamos trilhando com idas e vindas, progressos e retrocessos. Se entendermos democracia como um sistema comandado pela lei, com ampla participação popular, mesmo fora dos períodos eleitorais, liberdade de imprensa, é uma coisa... Se analisarmos a democracia de um ponto de vista mais amplo, é outra. Significa não apenas a participação política das pessoas, mas o que chamaria de cidadania e igualdade civil, passando por uma melhor distribuição de renda e acesso à Justiça. Ora, isso não temos no Brasil. Pessoas com recursos escapam facilmente das malhas da justiça. Assistimos a milhões de escândalos nos últimos anos. Pergunto: quem está na cadeia? Ninguém. A desigualdade econômica é terrível. Temos distâncias quilométricas entre o topo e a base da pirâmide. Então, a democracia no Brasil ainda é algo muito precário. Nossas câmaras legislativas estão envolvidas há muito em um rosário de escândalos. Ainda temos que avançar muito no nosso processo democrático.

Numa análise mais macro tudo indica que esse processo tem raízes no passado.

Fomos submetidos a golpes militares. Depois de 1945, vivenciamos uma expansão democrática. Assistimos ao golpe de 64. Foram 21 anos. Depois, a democracia foi restabelecida. O impeachement de Collor foi absolutamente dentro da lei. Até hoje, felizmente, não passamos por novo golpes.

O senhor escreveu uma biografia sobre Pedro II que, logo, transformou-se num best-seller. Por que os historiadores têm tanto medo das biografias?

A biografia é de modo geral algo que interessa muito às pessoas. Os historiadores brasileiros não se aventuram muito a escrever biografias. Olham de uma maneira meio atravessada. Como se o gênero não estivesse à altura deles. Sempre foram os jornalistas que exploraram o gênero biográfico. E com muito sucesso. As pessoas, afinal, gostam de saber da vida dos outros. A Companhia das Letras me encomendou a biografia sobre D. Pedro II. Fiquei com receio, pois não tinha experiência nesse campo. Agora, os jornalistas escrevem bem, com clareza, elegância, atributos que faltam aos historiadores. Parte dos historiadores são muito rigorosos na pesquisa, mais do que os jornalistas. Principalmente, com relação às fontes. Aliás, muitos deles chegam a interpretar e criticar suas fontes de pesquisa. Não colocamos nada em nossos livros sem uma ampla pesquisa e uma documentação precisa. Quando se trabalha assim, o historiador termina por colocar uma multidão de notas de rodapés na páginas. A leitura é muitas vezes cansativa. Atualmente, existe uma maior preocupação dos historiadores com relação à escrita, ao estilo. Isso é que atrai o leitor. Na França e na Inglaterra muitos escritores escrevem biografias com grande êxito. Conscientemente, faço um esforço nessa direção. Discuto muito esse problema com meus alunos e colegas. A história é algo que afeta todo o mundo. E existe também uma grande demanda pela História. Não só no Brasil, mas em todo o mundo. Quando você escreve para uma revista especializada pode até utilizar uma linguagem mais acadêmica. Mas, no suporte livro, você deve escrever de maneira clara e objetiva. Só assim atingirá o grande público.

Fonte:
Diário do Nordeste, Caderno 3, 10/08/09,
JOSÉ ANDERSON SANDES - EDITOR DO CADERNO 3

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Existe indignação contra o céu


Existe indignação contra o céu


Por Jhonatan Almada



Maria Celina D’Araujo, professora da Fundação Getúlio Vargas, ensinou para uma perplexa platéia de alunos e alunas, que o significado da cúpula do Senado no prédio do Congresso Nacional, voltada para baixo, expressava a idéia da nação fechada sobre si mesma, onde cada Estado da federação era igual ao outro, independentemente do peso econômico ou populacional no conjunto do país. Avançando na explicação, aclarou que a cidadania nasce junto com a emergência do Estado moderno, numa relação imbricada entre nação e Estado, Estado-nação, sentimento de pertencimento de um indivíduo à nação e acesso as garantias propiciadas pelo Estado.


Extrai as linhas supracitadas das anotações de aula que fiz, ao relê-las fico perplexo com o último (e segundo) discurso do senador José Sarney, presidente do Senado, em defesa do indefensável e justificação do injustificável, mais perplexo (nem tanto) ainda fiquei com a postura do senador Paulo Duque, presidente do Conselho de Ética do Senado, e choldra, ao arquivar por “inconsistência” as acusações contra àquele.


Um dos temas essenciais inerentes ao debate sobre a cidadania é o binômio – inclusão e exclusão, pressuposto comum as mais diferentes tendências teóricas.


Como nos sentir identificados com aqueles senadores? Como imaginar que aquela é nossa “nação fechada sobre si mesmo”?


A meu ver, tanto os discursos quanto as atitudes dos senadores nas últimas semanas, em defesa do senador Sarney são provas inequívocas que aquele sentimento de pertença foi dissolvido, mais ainda, a própria legitimidade do Senado Federal em representar a nação, pois se não estamos incluídos em nossa vontade de cidadão, traduzida e exacerbada numa onda coletiva nacional em prol da renúncia ou cassação daquele senhor, não há que falarmos em representatividade e legitimidade, essa está rompida, frustrada.


De uma hora para outra, os culpados viram acusadores, e os acusadores viram culpados, mas como disseram os alentados analistas, isso é só um ensaio para 2010 e o objetivo dessas acusações é desestabilizar o governo e a aliança com o PMDB. Ah! Mas ninguém se lembrou de perguntar o que nós cidadãos achamos dessa desexplicação semioficial. A questão não é eleitoral ou governamental, é ética, esgarçou-se a confiança nos líderes institucionais do Senado e no governo em influir positivamente para a solução do conflito.


A Revista Carta Capital traz alentada matéria sobre os árabes, da revista The Economist, onde os títulos sobre “O amanhecer no Oriente” se sucedem: “O mundo dos árabes: o que eles tem em comum?”, “Impondo a liberdade: bem, não funcionou”, “Como se manter no comando: não apenas coerção, democracia de mentira também”, “A agitação sob a superfície: uma revolução social silenciosa” e “Para onde eles irão? Uma grande luta por idéias está acontecendo no Oriente Médio”. Muitos desses temas poderiam servir para nossa realidade, bastaria mudar de “os árabes” para “os brasileiros” e “Oriente Médio” para “Brasil”.


O argumento central da aludida matéria chama atenção para o fato inexorável de que o mundo mudou, as demandas são outras, as expectativas são outras, e os governos e governantes árabes não estão sabendo lidar com elas, há décadas em descompasso com as mesmas, utilizaram ou utilizam mecanismos cosméticos de participação política, sem real compartilhamento do poder, ao lado da mais pura repressão em todas as suas formas: física, financeira, espiritual ou virtual.


A internet, essa ferramenta que desperta o ódio dos coronéis incontidos e pretéritos da política brasileira, atua de forma avassaladora na exacerbação das reivindicações populares, na mobilização e articulação social, sobretudo na democratização da informação e do conhecimento.


Por outro lado, vemos a televisão perder espaço. A cobertura do segundo discurso do senador Sarney foi lamentável. Os repórteres e jornalistas disseram – Foi um discurso forte. Alguém que assistiu ou conhece o que a figura aprontou nas últimas décadas, só agora descoberto pelo Centro-Sul (e ainda falam que os nortistas são atrasados), poderia utilizar qualquer adjetivo, menos forte, talvez: hipócrita, desavergonhado, desonroso, odioso, alienado, despudorado, vil, imoral ou simplesmente, arrogante.


A arrogância, muitas vezes subliminar e disfarçada, outras despudorada, é característica dos homens de poder, especialmente daquele homem. Lembro a frase de Chu En-Lai, primeiro-ministro da China, para Kissinger, nos idos de 1971 – “Existe tumulto abaixo do céu e temos oportunidade de acabar com isso” (Sem comentários quanto ao contexto e resultados).


Existe indignação aqui mesmo, na superfície, nós cidadãos e cidadãs temos e teremos oportunidade de saciá-la. Acredito piamente que esse Senado fechado sobre si mesmo, seus senadores, não ficará impune, eles que não pensem estar nos céus, acima de nossa cidadania, dissimulados e mascarados para as próximas eleições, na certeza da impunidade. O fim pode tardar, mas chega.

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