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ENFRENTANDO O ATRASO EDUCACIONAL NO MARANHÃO


Jhonatan Almada, historiador.

As ideias demoram a se tornar realidade. Galileu Galilei defendeu as ideias de Copérnico sobre o sistema heliocêntrico em contraposição às verdades baseadas em Aristóteles sobre um sistema onde a Terra era fixa e o restante girava em torno dela. A Igreja Católica obrigou Galileu a negar essa verdade que rapidamente se disseminou e foi aceita na Europa protestante. Somente em 1992 no pontificado de João Paulo II, quatro séculos depois, a Igreja reconheceu seus erros e abusos. Galileu Galilei é famoso no mundo inteiro e respeitado como modelo de cientista que enfrenta o arbítrio autoritário e obscurantista em nome da ciência. Ninguém se lembra dos cardeais que o julgaram ou dos detratores de sua obra.

Os tempos acelerados que vivemos diminuíram essas lacunas entre ideação e ação. Dezesseis anos atrás quando vivia minha adolescência em Caxias, escrevi dois Planos de Desenvolvimento, um para o Maranhão outro para a cidade, registrando em listas, tabelas e mapas o desejo de transformar a realidade por intermédio do planejamento, com a crença firme de que o desenvolvimento pode ser alcançado pela ação norteadora do Estado. Em uma das seções dos Planos estava a criação de Universidades Regionais, uma delas na cidade de Imperatriz. 

É certo que a ideia não era original, muito antes o então deputado estadual Sálvio Dino apresentou projeto de lei defendendo isso para a região. O que me chama atenção hoje é ver essa proposta ser concretizada comoUniversidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão-UEMASUL em espaço de tempo relativamente menor, algo similar se dá com a educação integral.

A educação defendida e experienciada por Anísio Teixeirano Centro Educacional Carneiro Ribeiro (Salvador, Bahia) na década de 1950 implicava em um programa amplo que envolvia leitura, aritmética e escrita, ciências físicas, artes industriais, desenho, música, dança e educação física, saúde e alimento à criança. O programa era desenvolvido em dois espaços: nas Escolas-Classe, as atividades tradicionalmente escolares e as demais na Escola-Parque, durante o contraturno escolar.

Anísio Teixeira foi convidado pelo então Presidente Juscelino Kubitschek para coordenar, juntamente com Darcy Ribeiro, a comissão responsável pelo “Plano Humano” de Brasília. Essa comissão organizou o sistema educacional da capital com vistas a ser modelar para o restante do país. Consta dele a criação da Universidade de Brasília, com forte liderança de Darcy Ribeiro e o Plano para a Educação Básica, influenciado fortemente por Anísio Teixeira com base na experiência de Salvador. Foram construídas quatro Escolas-Classe e uma Escola-Parque em Brasília. As primeiras atendiam ao turno normal e a outras o turno complementar para o desenvolvimento de atividades de natureza física e artístico-cultural.

Os Centros Integrados de Educação Pública-CIEPs foram criados na década de 80 por Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro, ele era Secretário de Educação do Estado, à época do governador Leonel Brizola. O Brasil vivia a redemocratização, sendo que tanto Darcy quanto Leonel foram expoentes da oposição política ao regime militar. A orientação ideológica do governo Leonel Brizola inspirada no socialismo moreno e o projeto dos CIEPs possibilitavauma educação completa e de qualidade aos estudantes oriundos das classes excluídas.

O objetivo dos CIEPs era proporcionar ensino, esportes, assistência médica, alimentação e atividades culturais variadas, em instituições colocadas fora da rede educacional regular, estas escolas obedeciam a um projeto arquitetônico uniforme desenvolvido por Oscar Niemeyer.Para tanto cada CIEP era dividido em três blocos: o principal no térreo abrangia o refeitório, a cozinha, o centro médico e área coberta para recreação; e nos pavimentos superiores as salas de aula, auditório, salas especiais, administração e um terraço para lazer; ainda tínhamos o ginásio de esportes, vestiário e depósito de materiais; por fim, a biblioteca e um alojamento para crianças.

Os governadores que sucederam Brizola acabaram com o projeto dos CIEPs sempre alegando que era muito caro.Darcy os advertia que não construindo escolas seriam obrigados a construir mais presídios. A elite dirigente do Rio de Janeiro não optou pela educação integral e o estado enfrenta a maior crise econômica e política de sua história, agravada pela dominância da corrupção, violência e tráfico das gerações que não tiveram acesso aos CIEPs.

Somente nas duas primeiras década do século XXI, as ideias de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro conseguiram encontrar eco e se tornar realidade, sobretudo quando o Plano Nacional de Educação (PNE) estabeleceu aeducação integral como prioridade. É isso que o Governo do Maranhão está fazendo com os Centros e Núcleos de Tempo Integral e as unidades do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia (IEMA), enfrentando décadas de atraso, descaso e irresponsabilidade política e educacional. 


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