sexta-feira, 29 de julho de 2016

FAZ SENTIDO FALAR DE PLANO?



Jhonatan Almada, historiador

 
Um grande tema de preocupação no campo da ciência, tecnologia e inovação é a inexistência de estratégia articuladora de longo prazo. Ao contrário de políticas com a da educação, não dispomos de plano de longo prazo enquanto uma determinação legal. Existem documentos com recorte regional ou temporalidade quadrienal, essa ausência se manifesta também no âmbito dos estados e municípios.

Faz sentido falar de Plano em um mundo onde tudo se acelera e a confiança no Estado e seus agentes é cada vez menor? Essa pergunta surge rapidamente em sociedades do Ocidente. Entretanto, não faz nenhum sentido em países como a China ou Índia cujos planos quinquenais sobreviveram às críticas neoliberais. Boa parte dos avanços obtidos em termos de produção científica, tecnologia, formação técnica e superior nesses países vieram dessa capacidade de planejamento e execução. 

Milhares de anos e duro aprendizado permitiram que superassem também o julgo colonial do Ocidente, cuja opressão sofreram até meados do século XXI. 

O Brasil comparativamente não consegue encetar por longo tempo planos articuladores da ação do Estado. Em determinados momentos de nossa história falamos sobre projetos, planos ou estratégias. Muitos nomes para a dificuldade de estabelecer rumo. É difícil alcançar certo consenso entre as elites que governam e impõem suas vontades como se do povo fossem. 

Só isso pode explicar, por exemplo, o fato de não conseguirmos em 40 anos, concluir a Usina Nuclear de Angra 3 ou dominar o ciclo de lançamento de satélites via Programa Espacial Brasileiro. Reiteradamente permanecemos os grandes exportadores de commoddities desde que éramos colônia e nos orgulhamos de duas solitárias conquistas tecnológicas, a produção de aviões pela Embraer e a exploração de petróleo em águas profundas pela Petrobrás. 

Nosso problema não é só a capacidade de planejar, mas sobretudo, a capacidade de cumprir o planejado com inteligência e eficiência. Muitas ideias completam décadas sem sair do papel, sem materialização. 

O Maranhão não é diferente. Produzimos planos desde meados dos anos 1940. Todos os planos mencionam nossa vantagem geográfica, o diferencial do nosso Porto e os abundantes recursos naturais potenciais como o Babaçu. Como sair desse lugar comum repetido e ineficaz?

Pensar um Plano Decenal de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Maranhão implica em propor soluções, encaminhamentos, estratégias e objetivos que possam responder a essa pergunta de forma crível e viável. Eis o nosso grande desafio político ao lutar contra déficits sociais históricos que gritam pelo agora – não perder a visão de futuro.

TRÊS DESAFIOS E SETE LIÇÕES DA IMPLANTAÇÃO DO IEMA

Jhonatan Almada, historiador

Neste 1 ano e meio do processo de implantação do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA) aprendemos lições importantes a partir das experiências realizadas em outros estados como Ceará, Bahia, Pernambuco e São Paulo que avançaram no âmbito da educação profissional e tecnológica.

Antes de abordar as lições, vamos aos desafios que nos movem. Toda instituição nova precisa enfrentar desafios significativos para nascer. Nascer para o mundo e crescer no mundo demandam cada vez mais coragem e inteligência para não se perder nos atalhos, poças e cascas de banana do caminho.

O primeiro desafio relevante é que liderança de processos institucionais não se constrói por decreto ou portaria. Liderar é ato complexo que envolve competência técnica, vocação política e capacidade realizadora. Não é uma combinação simplória que se produz artificialmente por planilhas e reuniões. Não é líder quem se diz líder, mas quem é reconhecido pela coletividade como tal. Conversando com os professores Raimundo Palhano, João Batista Ericeira, Rossini Corrêa analisamos diversos perfis de liderança ao longo da história recente, concluindo que o melhor líder se reconhece pelas lideranças que dele surgiram.

O segundo desafio relevante é vencer as pretensões do saber pronto e enlatado. Aprender com a experiência não é copiar a experiência. O fundamental é refletir e avaliar permanentemente ao longo do processo no que precisamos adaptar, modificar, reinventar ou criar pelo contato com a realidade. Não é como rosquear uma peça acreditando que irá encaixar por força do óbvio, existe todo um precedente histórico arraigado cujo enfrentamento e desconstrução é inarredável.

O terceiro desafio relevante é não cair na tentação da tecnocracia, lição importante do professor Durmerval Trigueiro Mendes. Não há processo institucional que seja puramente racional ou eminentemente emocional, sequer a mescla disso. É necessário um tipo diferenciado de inteligência técnica e política que dose de forma dinâmica conhecimento e sensibilidade. Ainda não inventaram bula para isso e leva-se tempo e acúmulo para se aproximar desse ideal.

Abordemos as lições da experiência que estamos pondo em prática frente a condições não ideais e por vezes avessas à mudança. Precisamos retirar o jabuti de cima da árvore e para isso se fazem necessárias novas mãos de gente. Não tenho dúvida que estamos plenamente convictos do caminho, mas ele é feito no caminhar como diz o poeta Antônio Miranda.

1. A oferta de educação profissional e tecnológica deve estar alinhada aos arranjos produtivos locais, entretanto, não pode se limitar aos mesmos. É necessário ofertar cursos que despertem novas vocações econômicas e gerem novos setores produtivos;

2. A integração entre o curso e o estágio para inserção no mundo do trabalho devem ser bem resolvidas e articuladas às empresas. A realização de um bom estágio, com as condições de permanência e o devido acompanhamento, contribui para que o ciclo formativo do curso se complete com maior qualidade;

3. A construção dos currículos dos cursos deve envolver criterioso processo de planejamento articulado tanto interna (pedagogos, professores e gestores) quanto externamente (economia, regulamentações e empresas);

4. A educação profissional integrada ao ensino médio, ofertada em tempo integral, contribui para a melhoria do desempenho das escolas e do aprendizado de seus estudantes;

5. Não basta trabalhar a base comum nacional e a parte específica dos cursos técnicos e tecnológicos. A incorporação de novas mediações e projetos interdisciplinares que propiciem conteúdos e práticas ligadas ao engajamento comunitário, inovação, empreendedorismo e tecnologias é um caminho para que esses cursos tenham diferencial socialmente relevante e formem cidadãos mais transformadores;

6. É desejável a realização de programas complementares à oferta de educação profissional e tecnológica, tais como, programas de iniciação científica júnior, intercâmbio internacional e bolsa-estágio, bem como, estímulo permanente à participação em olimpíadas do conhecimento, feiras e competições nacionais e internacionais;

7. O desenvolvimento de ferramentas para acompanhamento dos egressos é necessário para medir a efetividade dos cursos oferecidos, a empregabilidade alcançada pelos ex-alunos e seu alinhamento às demandas sociais e econômicas.

O Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA) caminhará aproveitando as boas práticas e experiências exitosas, observando trilhas já percorridas, mas, enquanto intrínseca necessidade deverá caminhar abrindo suas próprias sendas e veredas, com seus erros e acertos.

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