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PROGRAMA CREDCIÊNCIA/VALE LIVRO: livros contra a barbárie

Jhonatan Almada, historiador

O deputado Marco Aurélio (PCdoB) alocou emenda parlamentar no valor de R$ 200 mil para o Programa CredCiência/Vale Livro da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI). Essa atitude sublinha a relevância da educação para o parlamentar e o significativo investimento do Governo Flávio Dino nessa área.
O Programa CredCiência tem objetivo democratizar o acesso ao livro por intermédio da concessão de voucher a professores e estudantes. Em 2015 na primeira edição do programa conseguimos o apoio da empresa Vale que financiou totalmente a concessão dos vouchers durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, os professores da rede pública de ensino estadual e municipal foram contemplados. Este ano, a segunda edição do programa atenderá estudantes da rede pública estadual e municipal durante o Salão de Livros de Imperatriz.
Contribuir para a melhoria da qualidade do ensino e da pesquisa demanda investir no acesso ao livro. Entendemos que isso estimula a leitura e a prática de aquisição e formação de saber, construção do conhecimento, incentiva o mercado livreiro maranhense e fortalece os eventos acadêmico-científicos maranhenses. Portanto, duas dimensões-chave estão presentes no programa, a educacional e a econômica.
Existem programas similares no Pará, Bahia, Rio Grande do Norte, Pernambuco e alguns municípios como Rio de Janeiro e Maceió. O Programa do Rio Grande do Norte foi criado este ano. A aquisição de livros é fundamental para o desenvolvimento das atividades de pesquisa e ensino, entretanto, os preços dificultam o acesso e a compra. O mercado editorial impresso vivencia o fechamento de livrarias, aumentos nos custos de produção, queda na venda, virtualização do setor e consequente diminuição no acervo disponível para compra.
Dados da pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial 2015” da Câmara Brasileira do Livro, apontam um decréscimo do setor editorial brasileiro, em 2014/2015, com queda de 10,87% em exemplares produzidos e 10,65% em exemplares vendidos, implicando em recuo no faturamento da ordem de R$ 170 milhões. O setor editorial perdeu mercado e está encolhendo.  
Algo novo começa a se firmar. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil 2016” do Instituto Pró-Livro evidencia que a falta de tempo como a principal justifica apresentada pelos estudantes para não ler (33%), superando de longe as outras justificativas como, porque prefere outras atividades (13%), porque não tem paciência de ter (10%), porque não há bibliotecas por perto (12%) e porque acha o preço do livro caro (7%).
Não basta disponibilizar o livro, fundamental que a escola tenha a leitura como fundante da construção do conhecimento, transversal a todos os componentes curriculares. Irracional deixar por conta exclusiva da matéria Língua Portuguesa. Se o estudante alega falta de tempo é por que nas atividades da escola a leitura não é prática transversal permanente, a biblioteca não funciona como formadora de leitores e os livros servem como enfeites de estante.
A difícil situação econômica por que passa o país, agravada por um infindável conjuntura político-jurídica espetaculosa e linchadora, nos impediu de institucionalizar tal programa como política de Estado. A despeito disso, penso que os futuros prefeitos podem incorporar esse programa nas suas plataformas de governo e assim, em rede, gerar efeito multiplicador que beneficiará a maioria dos estudantes da escola pública.
Nossa Fundação de Apoio à Pesquisa do Maranhão-FAPEMA possui editais específicos com esse objetivo, entre eles destaco o Edital LITERATURA está disponibilizando R$ 400 mil para a publicação de obras literárias. Primeiro edital que tem por foco o mérito da obra, não o vínculo do proponente, isso democratiza a concorrência e possibilita a identificação e estímulo aos talentos literários maranhenses.
Iremos brevemente iniciar a Biblioteca Básica Maranhense-BBM com o objetivo de publicar obras relevantes para a interpretação da realidade do Maranhão, sobretudo as que gerem novas formas de entender e explicar nosso estado. Não nos interessa republicar os cânones consagrados, mas sim propor nova memória da nossa formação.

O livro é a conquista de afirmação do conhecimento, da civilização e da humanidade por sobre a barbárie. Publicar significa crer que pelo conhecimento podemos alcançar o “ser mais” potencial e presente em cada um e cada uma de nós. Nesse sentido, programas, projetos e ações que possam fortalecer a publicação de livros são bem-vindos e devem ser louvadas.

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