Pular para o conteúdo principal

A ALTERNÂNCIA DO PODER NO MARANHÃO E O PROGRAMA DE GOVERNO

Jhonatan Almada, historiador, integra o quadro técnico da Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

O intenso processo de consulta que precede a elaboração do Programa de Governo de Flávio Dino, pré-candidato a governador nas eleições deste ano, inaugura uma prática democrática que mobiliza as lideranças e a sociedade civil organizada na análise das propostas e apresentação de sugestões, questionamentos e inquietações. Não recordo processo similar na história política recente do Maranhão, não antes das eleições e com tanta capilaridade nos municípios. Percebo um interesse e engajamento reais da população pela mudança.

As discussões são setoriais. Mesmo na elaboração de um Programa de Governo temos dificuldades em objetivar a integração das políticas públicas. A setorialidade é a regra. A integração é a exceção. A experiência do debate temático expõe um raciocínio usual ou comum: preciso escrever algo do meu setor dentro dessa temática de modo a evidenciar sua especificidade e garantir o destaque que ela merece frente a uma miríade de justificativas – conquista histórica, luta histórica, demanda popular, urgência social, dentre outras.

Analisando alguns programas de governo dos últimos 25 anos, observo pontos comuns, não por que os políticos que os propuseram não foram sinceros ou não pretendiam cumprir o prometido, mas pela dificuldade de desenvolver um pensamento mais criativo ou inovador. É claro que isso facilita o estelionato eleitoral também. Quem leu um programa de governo, por vezes, sente que as propostas são iguais, não se diferenciam entre candidatos de partidos  ou concepções de mundo diametralmente opostas. Parece uma obra de óbvio: é preciso mais educação, mais saúde, mais segurança, mais obras; enfim, pelos acréscimos, resolvidos estão os problemas que a realidade impõe.

O desafio de elaborar um Programa de Governo criativo, diferenciado e inovador é não vestir a camisa de força das ideias cristalizadas ou das contrapropostas que pretendem solucionar tudo por intermédio de mais debate, mais discussões, mais aprofundamento. Para vencer no debate, talvez a saída mais conhecida dessa perspectiva, seja dizer que o assunto deve ser mais debatido, desvalorizando o próprio debate em curso. O apego às ideias cristalizadas e aos temas pautados de fora para dentro (do âmbito nacional e internacional para o local) são sintomas de uma miopia analítica que supervaloriza o externo em detrimento do interno ou superestima o interno em detrimento do externo. Dialética na análise é fundamental.

Pensar por acréscimo é o pensar burocrático e aritmético que nos desobriga de um pensar mais complexo voltado para resolver os enigmas do Maranhão, seus desafios e urgências. Exemplos desse pensar podem ser encontrados na área de educação, área estratégica para se consolidar a alternância do poder no longo prazo. As soluções vão sempre ao sentido de construir mais escolas, fazer mais concursos públicos, ampliar o investimento, criar setores, contemplar essa ou aquela temática. Essas frases não respondem aos problemas mais profundos da educação maranhense, entretanto, por serem pautadas pela lógica do simplismo, satisfazem sem informar nada, sem explicitar o como e o porquê.

É compreensível que um Programa de Governo seja visto mais como algo político, que técnico. Velha separação teimosamente presente, a mesma que lima razão e emoção. Isso nos faz esquecer de três elementos fundamentais: a gestão política, a gestão econômica e a gestão dos problemas. Pesar a mão em qualquer dessas áreas em detrimento da outra, perder o necessário equilíbrio, pode levar ao prometer tudo, gastar mal e não ter prioridades. Existe um horizonte temporal e um orçamento público a manejar. Ao lado disso, uma ausência de democratização do poder político e um acúmulo histórico de problemas nunca enfrentados.

O Programa de Governo não é um documento que abrange todas as áreas e problemas. Mas, entre as áreas e problemas, prioriza o que efetivamente se buscará com afinco cumprir no horizonte de um mandato, deixando claro aquilo que será enfrentado depois. Planejar é discriminar o que vai ser contemplado agora e aquilo que será contemplado depois, discriminar positivamente o curto, o médio e o longo prazo. Em síntese, planejar é respeitar a inteligência alheia, evitando as frustrações de expectativas pelo permanente esclarecimento do plano de voo traçado.

Penso que a equipe de coordenação do Programa de Governo tem essas questões como importantes e as leva em conta. A dimensão política do Programa não se pode reduzir à dimensão técnica, bem como, a dimensão técnica não pode desiludir a política. Os sentimentos de esperança, confiança e mudança, a chamada subjetividade da mudança, também precisam ser constituídos, sobretudo pelo líder do movimento. Flávio Dino tem pautado sua fala no chamamento e sensibilização das lideranças para o processo de mudança que está em curso.

Em tempo, a economista Maria da Conceição Tavares, afirmou que o brasileiro não come PIB. Eis aí nosso desafio: traduzir politicamente, sem perder a consistência técnica.

Comentários

  1. O desafio explicitado no final pode se constituir em um falso dilema.Na ciência da pedagogia o nosso Paulo Freire nos ajuda a compreender melhor, da Pedagogia do Oprimido à Autonomia. Um abraço

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Postagens mais visitadas deste blog

MIL DIAS DO GOVERNO FLÁVIO DINO

O Governo Flávio Dino completou mil dias de efetivo exercício nesta semana. Quem está imerso no enfrentamento dos grandes problemas do Maranhão sabe do significado deste número. O semióforo dos mil dias oportuniza fecunda reflexão sobre o que tem sido feito pelo Governo do Maranhão em conjuntura adversa e drástica do Brasil.

Quando assumiu o governo, Flávio Dino decidiu imprimir ritmo de campanha na ação do Poder Executivo acostumado a formas tradicionais de agir ou paralisado pelos tecnicalismos vazios. Podemos resumir isso em uma frase: o governador que trabalha mais de 12 horas por dia e atravessa madrugadas no encalço de suas metas e dos responsáveis por elas. Nunca teci elogios sem fundamento. Não se pode perder tempo e este espírito se apoderou dos que se imbuíram do exemplo e procuraram imitá-lo no limite de suas capacidades individuais e condições disponíveis.

Não foi um passeio chegar aos mil dias com o conjunto de obras e serviços entregues pelo Governo. A brutal escasse…

O DESAFIO DO ENSINO DE INGLÊS NA REDE PÚBLICA

Fazendo as contas completei 10 anos como articulista de jornais, escrevendo artigos de opinião. Destaco o Jornal Pequeno como espaço privilegiado para compartilhar minhas reflexões sobre temas de interesse e questões contemporâneas que merecem ser debatidas. Os artigos acumulados já resultaram em quatro livros: “Planejamento que marca caminhos”, “A alternância do poder político no Maranhão”, “Crítica à indiferença: política, ciência e educação” e “Ciência e educação como agentes de desenvolvimento”.
Dando continuidade a essas reflexões abordo hoje o problema do ensino de inglês na rede pública. O British Council publicou a pesquisa “O ensino de inglês na educação pública brasileira” apresentando os aspectos institucionais, o contexto escolar, o perfil dos professores e os desafios para o ensino desse idioma.
Uma primeira conclusão importante é que o ensino de inglês não é uma diretriz obrigatória nos documentos que regulam a educação, seja na esfera federal, seja nas esferas estaduai…

OBAMA NO BRASIL II

Acredito que qualquer político em início de carreira deve ser alvo de muitas depreciações, seja porque não lhe reconhecem como tal, seja porque sempre minimizam o trabalho realizado como algo banal ou simplório. Assim imagino a reação ao Obama dos primeiros anos, começando seu agir político nas comunidades, atuando em prol da organização das pessoas para resolverem os problemas mais agudos que lhes afetam.

A incapacidade de reconhecer tem raiz no apagamento do outro, enxergar no outro não um parceiro e igual, mas um mero semovente útil para determinadas tarefas e circunstâncias. Os tempos de mentiras aceleradas pela velocidade dos fluxos de informação constroem biografias precoces e também desumanizam abruptamente. Agradecer é reconhecer, pois não se constrói nada duradouro sem a participação de muitos outros, anônimos ou cavaleiros marginais, à margem, mas cavaleiros. Cada um traz seu tijolo para o edifício da história.

A comparação é um recurso comum para nos posicionarmos sobre q…