quarta-feira, 10 de março de 2010

O PNE ignorado - entrevista de Dermeval Saviani

“Plano Nacional de Educação foi solenemente ignorado”, diz especialista

Estudo divulgado recentemente mostra que boa parte das metas não foram atingidas

Amanda Polato, do R7

Este ano, o Brasil deve elaborar um novo PNE (Plano Nacional de Educação), que valerá de 2011 a 2020. Entre os dias 28 de março e 1º de abril, durante a Conae (Conferência Nacional da Educação), serão discutidas as prioridades que o Brasil vai estabelecer para a educação nos próximos dez anos.

Mas é grande o questionamento em torno do plano que foi criado em 2001 e está atualmente em vigor. Poucas metas foram atingidas – exatas 33%, segundo dados preliminares divulgados recentemente.

O PNE é um documento que estabelece tudo aquilo que o país precisa fazer para que a educação atinja níveis desejáveis de investimentos, qualidade, quantidade de vagas nas escolas e universidades, entre outros.

O atual plano estabelece, por exemplo, que 30% dos jovens estejam matriculados no ensino superior. Mas o país só tinha 13% deles nesse nível em 2008. Alguns avanços também foram registrados, como o aumento do número de matrículas de crianças na pré-escola, que deve chegar a quase 80%.

Independentemente dos resultados, o que muitos especialistas constatam é que o plano foi desconsiderado no país.

Dermeval Saviani, professor emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e especialista em política educacional e história da educação brasileira, é categórico: o plano foi “solenemente ignorado”.

Em entrevista ao R7, o professor conta o histórico do PNE, faz críticas a ele e comenta avanços da educação no país, além de traçar recomendações para o próximo documento. Confira a seguir:

R7 – Como foi criado o atual PNE (Plano Nacional de Educação)?

Dermeval Saviani – Após a aprovação da LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996] já se iniciou a discussão sobre o plano. O artigo 87 da LDB previa que, até um ano após a publicação dessa lei, o governo deveria encaminhar uma proposta de Plano Nacional de Educação. Em 1997, no segundo Coned (Congresso Nacional de Educação), realizado entre 6 e 9 de novembro em Belo Horizonte (MG), foi aprovado o documento Plano Nacional de Educação: Proposta da Sociedade Brasileira em contraposição à proposta de plano do governo.

O projeto do PNE deveria ter entrado para votação no Congresso até 23 de dezembro de 1997, mas o prazo venceu. Então, no dia 10 de fevereiro de 1998, o deputado Ivan Valente, que estava no PT, deu entrada na Câmara dos Deputados com esse projeto, feito pelo movimento dos educadores.

Mas, no dia 12 de fevereiro do mesmo ano, o MEC [Ministério da Educação] entrou com seu próprio projeto. O Congresso nomeou um relator, do PSDB, que elaborou um plano substitutivo, baseado no programa do governo, invertendo assim a ordem de prioridade dos planos apresentados. Houve discussões, emendas, inclusão de alguns aspectos do Plano Nacional da Sociedade Brasileira e o projeto final foi aprovado em 2001.

R7 – Qual a sua avaliação sobre o plano em vigor?

Saviani – A proposta do governo deixava a desejar em vários aspectos, especialmente na parte do financiamento. O governo não se dispunha a ampliar os investimentos. A LBD estabelece prioridades para Estados, municípios e União. Os Estados cuidariam do ensino fundamental e, principalmente, do médio. Aos municípios caberia, em especial, a educação infantil e o fundamental. A LDB não diz que a prioridade da União era o ensino superior. E o poder público não assumia investimentos nesse nível.

A meta era triplicar as vagas nas universidades, para atingir 36% da população de 18 a 24 anos. Esse aumento deveria ser em proporções iguais, tanto nas particulares quanto nas públicas. As públicas contavam com os esforços dos Estados e de parcerias com instituições filantrópicas, além de cursos do nível pós-médio. Mas a ampliação de vagas nas federais não era assumida.

R7 – Que outros problemas o senhor identifica?

Saviani – O governo não admitia que o percentual do PIB (Produto Interno Bruto) a ser investido na educação passasse de 6%. O projeto da sociedade previa “aumentar, em dez anos, os gastos públicos com educação até cerca de 10% do PIB”. Depois de acordos, o texto final do PNE fixou o percentual de 7%. Só que esse dispositivo foi vetado. Então, todo o conjunto de metas do PNE, que dependia de investimentos, ficou comprometido. O plano ficou manco, com jeito de carta de intenções.

R7 – O senhor concorda com a análise de que o atual PNE possui muitas metas e não indicadores para verificar se elas foram atingidas?

Saviani – Concordo. O plano sofre de um problema estratégico de elaboração. Ele parte de um diagnóstico adequado, mostrando as limitações e as ações que devem ser feitas, e estabelece metas. Mas há uma profusão de metas, quase 300, o que o torna muito fragmentado. É preciso estabelecer metas básicas, para serem cumpridas num prazo relativamente curto, para que a sociedade possa acompanhar e cobrar.

Outra crítica é a questão da gradatividade, de se aumentar o investimento, por exemplo, poucas porcentagens por ano, para chegar ao índice desejável ao longo de uma década. Isso dilui os investimentos, dificulta o acompanhamento e a fiscalização e facilita o descumprimento das metas fixadas. Sou a favor de um programa de impacto, de duplicar imediatamente o valor investido, para fazer a diferença.

R7 – Esse plano também trouxe avanços?

Saviani – Há uma dinâmica na sociedade que, com plano ou sem plano, algumas pressões têm que ser atendidas. Houve aumento de recursos e alguns avanços, mas não propriamente por causa desse plano. O plano foi solenemente ignorado. A lei previa que o PNE passasse por uma avaliação no quarto ano, mas isso não foi feito. Cheguei a alertar parlamentares na Câmara dos Deputados sobre isso, mas nenhuma medida foi tomada.

Em 2007, o MEC lançou o PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação). A ideia de que ele iria substituir o PNE não procedia, porque o novo plano era um programa de metas e reunia ações do ministério. A impressão que eu tive era que o PNE era ignorado por todos, como se não existisse.

R7 – Dados preliminares de um estudo realizado a pedido do MEC mostra que só 33% das metas do PNE foram atingidas. Esses avanços não tiveram, então, relação com plano?

Saviani – Esse estudo pegou as metas e foi verificar o que aconteceu. É algo válido porque o plano está em vigor. Então, havia uma meta de colocar 50% das crianças de zero a 3 anos nas creches até 2010. Tudo indica que a meta não foi atingida porque o estudo constatou que, em 2008, chegou-se apenas a 18%. Mas se verificou que houve um aumento no atendimento. A questão é a seguinte: o aumento ocorreu porque o governo estava se guiando pelo PNE? Não. Nem os municípios evocavam o plano para tomar suas decisões, nem o MEC fazia isso quando formulava um programa.

R7 – O senhor poderia dar um exemplo?

Saviani – No caso das creches, a decisão de aumentar a oferta era tomada por causa da pressão da população. Os prefeitos usavam isso com fins eleitorais e faziam aquele discurso de que iriam criar mais creches e de que a educação era prioridade. Por sua vez, o MEC dava os recursos ou inseria o município em algum programa de ampliação das creches.

R7 – Houve diferenças entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso?

Saviani – O que eu observei é o seguinte: o primeiro mandato do governo Lula não se diferenciou do FHC. Havia uma expectativa de que as coisas mudassem, por causa das críticas do PT ao antecessor e pelo envolvimento do partido no Plano Nacional de Educação da Sociedade Brasileira. Mas o governo Lula não derrubou o veto ao compromisso de 7% do PIB para a educação. Era o mínimo a ser feito.

No entanto, no segundo mandato, o governo se diferenciou. Reviu a questão do ensino técnico, abriu mais vagas nas universidades federais, criou o PDE e o Fundeb, o que não ampliou tanto os recursos, mas, sim, a distribuição deles.

Mesmo assim não vejo uma disposição firme para configurar a educação como prioridade máxima. Não houve o reforço do sistema público de ensino superior – hoje 80% das vagas são cobertas pelo ensino privado. Deve haver uma mobilização forte para que a educação receba prioridade que corresponda ao discurso. Senão apela-se para a boa vontade, para a filantropia, como se a educação não fosse compromisso de Estado.

R7 – Para que um plano como esse funcione, o que falta é vontade política?

Saviani – Sim, vontade política, no caso dos governantes, e uma forte mobilização dos setores sociais que consideram a educação como uma prioridade que deve ser levada a sério.

terça-feira, 9 de março de 2010

BARRIGA DO FIM DO MUNDO

BARRIGA DO FIM DO MUNDO

O Maranhão é um estado rico. Possui as melhores terras do Brasil. É farto em recursos naturais. Tem o segundo maior litoral do País; três rios nacionais e água doce em todo canto. O maranhense é uma mistura alegre e guerreira do índio, do negro, de portugueses, franceses e holandeses. Apesar das riquezas naturais, da diversidade cultural e da garra de nossa gente que trabalha de inverno a verão, o Maranhão apresenta os piores indicadores sociais do país e o nosso povo amarga a dor, o sofrimento e a humilhação da pobreza.

São muitas causas, porém a principal reside no domínio absoluto das oligarquias sobre a economia, a mídia e as instituições públicas e privadas, que sufoca a alternância de poder e a democracia. Há mais de quarenta anos o Maranhão é dominado por uma família. Se não fossem as políticas e os investimentos do Governo Federal, em especial nestes anos do governo do Presidente Lula, os maranhenses estariam nas mesmas condições do povo haitiano.

O Maranhão é o único estado do Brasil que não houve alternância de poder com a redemocratização do País. No Piauí, Ceará e Pará, as forças democráticas de oposição conquistaram prefeituras de capitais e governos estaduais porque as oligarquias foram derrotadas no inicio da década de 80.

O Maranhão não teve essa oportunidade. O Senador José Sarney, desde sua eleição para Governador em 1965, se agarra com unhas e dentes em quem senta na cadeira da Presidência da República, mantendo a partir da força que acumula em Brasília, o poder absoluto sobre a vida e a morte dos maranhenses.

Dos políticos que serviram a ditadura, o Senador José Sarney é o único que continua mandando na República. O mesmo nunca teve tanto poder quanto agora no governo popular e democrático do Presidente Lula: de Presidente da Arena e do PDS tornou-se cacique no PMDB; com quatro votos do TSE “elegeu” sua filha governadora do Maranhão; preside o Senado Federal após zombar do Presidente da República e derrotar o petista Tião Viana; manda e desmanda no setor elétrico nacional; controla cargos federais em Brasília e a quase totalidade dos cargos públicos no Maranhão e Amapá; e ainda se articula para suceder temporariamente o Presidente LULA no período eleitoral.

Mas o Senador José Sarney tem a barriga do fim do mundo. A sua pança quer sempre mais: agora ele quer a honra e a história do PT do Maranhão para reeleger a sua filha, usando meios e métodos obscuros em Brasília e no Maranhão para se apropriar do PT.

O Presidente Lula acertadamente defende no pleito de 2010 um plebiscito entre o presente exitoso do nosso governo e os oitos anos passados e desastrosos do governo tucano. No Maranhão, o Senador José Sarney quer ganhar as eleições sem concorrentes, mantendo um passado de mais de quatro décadas, pois ao se apossar do PT no Estado ele deseja desarticular a oposição e garantir a reeleição de Roseana Sarney para reinar por mais 40 anos, sepultando uma geração e perpetuando o atraso, a miséria e a corrupção.

Se o PT do Maranhão se coligar com o PMDB, o Senador Sarney que em 1965 em plena ditadura cortou a perna do líder camponês Manoel da Conceição (terceiro a assinar a lista de fundação do PT) e sufocou a luta pela terra para favorecer o latifúndio, agora em plena democracia, assassinará fundadores e as lideranças mais expressivas política e eleitoralmente, os quais desistirão de candidaturas, com reflexos nefastos sobre os movimentos sociais e segmentos mais empobrecidos.

Que fome canina é esta do Senador Sarney por tanto poder? Será que a barriga deste homem nunca enche? Que dívida eterna é esta que Sarney não pára de cobrar do nosso governo? Será que o nosso governo que pagou até a dívida com o FMI e não consegue pagar a dívida com Sarney?

Não é justo que em plena democracia e no governo do PT, em que muitos deram a vida para conquistar, fundadores e militantes do Partido tenham seus direitos eleitorais e políticos cassados para beneficiar um filho da ditadura, que concentra tanto poder e tem causado tantos males ao País.

Lutaremos pela continuidade das políticas exitosas do nosso governo, elegendo a Ministra Dilma Presidenta do Brasil. Reconhecemos que, no plano federal, para vencer as eleições e governar o Brasil torna-se necessário ampliar as alianças com partidos como o PMDB.

No entanto, em muitos estados a realidade impede a reprodução da aliança nacional, por incompatibilidade ética; pelas diferenças de compromissos históricos; e por existirem alternativas partidárias com antigos aliados como o PSB, PCdoB, PRB, PDT e PCB, também base do governo LULA, possuidores de força eleitoral e política capaz de oferecer à companheira Dilma uma palanque forte e limpo

A família Sarney tem o dever de apoiar a candidatura da Ministra Dilma por tudo o que detêm no Governo Federal. Em vários estados haverá mais de um palanque presidencial. Por que no Maranhão será proibido ter dois palanques?

Este é um apelo público à cidadania brasileira, de um fundador do PT, em nome de milhões de maranhenses para que não deixem o Maranhão e os petistas serem engolidos pela barriga do fim do mundo.

Domingos Dutra, Deputado Federal e fundador do PT.

Duas idéias para a oposição no Maranhão

Duas idéias para a oposição no Maranhão

Duas idéias me parecem importantes à oposição maranhense como basilares nos futuros programas de governo a serem apresentados no pleito deste ano de 2010, nas eleições para governador do Estado do Maranhão.

Uma primeira idéia, já divulgada por Lula ainda que em contornos imprecisos, trata da Consolidação da Legislação Social-CLS que daria um caráter de políticas de Estado aos programas sociais mais relevantes, alguns iniciados no governo FHC (mesmo que de triste memória por um sem fim de motivos), outros criados no atual governo. Ora a idéia é utilizar esses programas de transferência de renda, de habitação popular, de crédito ao empreendedorismo, enfim, como instrumentais permanentes de inclusão não-marginal, que no médio e longo prazo poderão se tornar desnecessários.

Isto no Maranhão significaria primeiro criar tais programas numa perspectiva não assistencialista como tem funcionado os chamados "Vivas" do Governo Roseana, mudar o perfil dos que existem no sentido de extrair seu caráter clientelístico. Feito isso, faz sentido incluir nas plataformas da oposição a idéia de uma CLS no Maranhão.

Outra idéia que já não tem tanto a ver com a tradição política local e brasileira é a criação de uma Consolidação da Legislação Participativa-CLP. Ora algumas políticas públicas realizam conferências a boas décadas, porém no máximo o conteúdo político é absorvido pelas retóricas dos políticos. A CLP não só tornaria obrigatória a realização das Conferências setoriais para as várias políticas, como também tornaria impositivo o direcionamento da política setorial pelo decidido pelos coletivos. Enfrentaria também a garantia de sustentabilidade financeira e consequente autonomia dos Conselhos Estaduais de Políticas Públicas, mais ainda sua desilharização, tornando-os verdadeiramente estaduais.

Numa segunda linha, reforçada até por emenda à Constituição Estadual, as consultas para elaboração do Plano Plurianual se tornariam obrigatórias e determinantes, mais que elas, as revisões do PPA também teriam que passar por esse mecanismo. Acredito que aqui a oposição poderia realmente inovar para além das propostas de momento, das promessas aparentes, realmente empoderamente a sociedade.

Talvez assim os governos do Maranhão deixem de fazer estátuas de murta e passem a erigir estátuas de mármore, contrariando o Padre Antonio Vieira e seu conhecido citador aqui no estado.

O Brasil à francesa de Fernando Braudel

Brasil à francesa

Os anos brasileiros, entre as décadas de 1930 e 1940, marcaram a vida e a obra do historiador francês Fernand Braudel
© divulgação Edusp
O jovem Braudel em foto tirada quando de sua estada no Brasil

“Para quem se via acuado entre a historiografia convencional, a vulgata marxista e o sociologismo, Braudel foi uma autêntica libertação. Ali estava finalmente um historiador que nem tinha o ranço de uma nem o reducionismo da outra nem o doutrinarismo do terceiro; e que, munido dos instrumentos da erudição mais recente, era capaz, como os grandes historiadores do século XIX, de dar corpo, alma e vida a largas fatias do passado”, escreveu o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello. O elogio dá uma noção do encantamento que gerações experimentaram há cinco décadas com a leitura de O Mediterrâneo, obra monumental de Fernand Braudel (1902-1985) e do peso da influência do historiador francês. O que poucos sabem é que o seu pensamento, incluindo-se a criação dessa sua obra máxima, foi gestado durante sua estada no Brasil durante os anos 1930 e 1940. Essa temporada tropical de Braudel é o tema do estudo do historiador Luis Corrêa Lima, paulista, radicado no Rio de Janeiro, da PUC-RJ, autor de Fernand Braudel e o Brasil – Vivência e brasilianismo (1935-1945), recém-lançado pela Edusp, resultado de sua tese de doutorado pela Universidade de Brasília (UnB), em que analisa justamente o impacto que o país teve sobre o intelectual francês e vice-versa.

“Para ele, foi uma mudança de perspectiva. A partir do contato com a sociedade brasileira e sua história, Braudel conseguiu imaginar a Europa do Antigo Regime”, explica o pesquisador. “Além disso, ele foi muito importante para o Brasil e para a USP, pois ajudou a formar toda a segunda geração de professores da universidade.” País adotivo e o jovem se uniram para criar O Mediterrâneo e as raízes de uma nova forma de fazer história. “Se os novos leitores não perceberem com nitidez a novidade que a obra representou em sua época, isso talvez se deva, de certo modo, ao fato de o próprio Braudel ter influenciado sucessivas gerações que aderiram à Escola dos Annales, da qual fez parte. Uma escola que renovou a historiografia, aproximando-a das ciências sociais, e fez surgir novos temas e horizontes. Tratava-se, naquele tempo, de um tipo de narrativa histórica incomum.”

Ao iniciar o doutorado, o período escolhido por Corrêa Lima foi justamente dos anos brasileiros de Braudel, decisivos para toda sua obra. Foi nessa época, por exemplo, que elaborou parte do mesmo O Mediterrâneo. A tese de Corrêa Lima investiga desde a chegada das missões francesas que contribuíram, nos anos 1930, para a fundação da USP até o período imediatamente posterior à volta para a França, em que esteve por cinco anos numa prisão nazista. “A França era considerada a líder da latinidade e a sua cultura, o caminho seguro da modernidade e do progresso verdadeiro. Oferecia simultaneamente tecnologia e humanismo, laicidade e religião. Por isso acreditava-se que a França poderia nos salvar da ‘barbárie’ de uma civilização meramente industrial. Os conflitos ideológicos naquela época eram bastante fortes, e a presença francesa correspondia ao projeto da elite paulista de educar a juventude nos ideais democráticos, longe do fascismo”, explica Corrêa Lima.

Entre as dificuldades da empreitada, houve a própria vastidão da obra de Braudel a ser lida: como exemplo, considere-se que seus dois livros principais somam cinco volumes e mais de 3 mil páginas. A segunda, conforme Corrêa Lima, foi quanto à questão específica que queria pesquisar: Braudel e o Brasil. “Será que haveria material suficiente para se escrever uma tese? Ou o assunto se esgotaria em um capítulo ou pouco mais?”, perguntava-se. Tal dúvida lhe provocou angústia por muito tempo. A terceira dificuldade foi o acesso aos arquivos de Braudel na França. “Foi uma longa espera até que as portas se abrissem”, conta. Entre as felicidades, houve a de encontrar documentos inéditos, conservados pela viúva do historiador, então com 87 anos, em seu apartamento em Paris. Como resultado, a obra de Corrêa Lima se concentra particularmente em anos que são pouco abordados nas duas maiores biografias do autor, escritas por Pierre Daix, na França, e Giuliana Gemelli, na Itália.


Discreto, pesquisador incansável, com fama de excelente professor, Fernand Braudel iniciou sua trajetória como historiador no final dos anos 1920. Nas duas décadas seguintes viveria fora da França. De início, parte para a Argélia, onde o mar lhe provoca a primeira grande inspiração. O acaso o traz ao Brasil: o suicídio de um professor titular que já havia sido nomeado para o cargo. Traz tanto material de pesquisa que, ao se instalar em São Paulo, precisa alugar um outro quarto de hotel.


Dizia Braudel que “se tornou inteligente” quando conheceu o Brasil. Para entender tal afirmação é preciso, antes, conhecer aquilo que caracteriza sua obra: trata-se, como destaca Corrêa Lima, da busca da longa duração, ou seja, das permanências e das realidades duradouras nos processos históricos, tanto nas relações do ser humano com o meio quanto nas formas de vida coletiva e nas civilizações. No Brasil ele encontrou um país novo, de dimensões continentais e natureza tropical, uma sociedade em formação contrastando com o Velho Continente, que, no entanto, o fazia imaginar o passado distante da Europa. “Foi no Brasil que ele ‘vestiu a camisa’ da renovação historiográfica preconizada pelos Annales, com um conjunto de intuições que configuraram o seu Mediterrâneo e fizeram dele um grande historiador, ao mesmo tempo original e herdeiro de Lucien Febvre”, argumenta Corrêa Lima.

Coroas - Quando aqui esteve, entre 1935 e 1937, Braudel elaborava sua tese de doutorado sobre o Mediterrâneo no tempo de Filipe II. A obra o ocupou por aproximadamente 20 anos. Como exigência da universidade francesa, era preciso também preparar uma tese secundária, na qual o material pesquisado na pesquisa principal poderia ser reutilizado. Escolheu, então, estudar o Brasil do século XVI, que chegou a fazer parte do reino de Filipe II quando da união das coroas ibéricas.

Na historiografia de Braudel, como explica Corrêa Lima, certas realidades coletivas ou inanimadas atuam de modo coerente como se fossem um sujeito: tornam-se “personagens”. Isso se dá, por exemplo, com o mar Mediterrâneo, que se transforma em personagem em sua história da Europa, e também com a imensidão do Brasil, seus fatores geográficos, imprescindíveis para compreen-der sua história. “Braudel escolheu uma perspectiva bem definida para focalizar o Brasil: uma Europa americana, ou seja, uma civilização europeia na América. E, de modo especial, a única Europa tropical e subtropical em todo o mundo com certa envergadura”, afirma o historiador brasileiro.

Tal perspectiva fez Braudel lançar outro olhar sobre o passado brasileiro e, desse modo, captar as interações do país com o oceano. Braudel, porém, cedeu em parte a um etnocentrismo inaceitável, diz Corrêa Lima. “De qualquer maneira, ele teve a humildade e a grandeza de reconhecer que a história brasileira, como toda a história, é vida e não se deixa aprisionar em uma fórmula”, acrescenta.

Depois da Segunda Guerra Mundial, ao finalizar sua tese, Fernand Braudel foi autorizado a substituir a tese secundária por dois artigos já publicados sobre os espanhóis na África do Norte. E foi assim que o ensaio sobre o Brasil do século XVI permaneceu inacabado. Pouco a pouco, seus interesses de pesquisa se voltaram para o conjunto da América Latina, e mais tarde para a história mundial da vida material e do capitalismo. Desse modo, ele nunca mais retomou o ensaio. Braudel pensava que, para terminá-lo, precisaria consultar os arquivos de Portugal, que na época não estavam organizados.

Em seu período brasileiro, Braudel conviveu com intelectuais, formou historiadores e até hoje fomenta novas leituras e pesquisas. Com três grandes amigos manteve a correspondência: João Cruz Costa e Eurípedes Simões de Paula, professores da USP, e o jornalista Júlio de Mesquita Filho. Como discípulas, destacam-se Alice Canabrava, Cecília Westphalen e Maria Luíza Marcílio. Durante o regime militar, empenhou--se em libertar da prisão seus amigos e conhecidos. Braudel usou seu prestígio internacional como intelectual francês e escreveu cartas aos presidentes militares brasileiros. Assim, como conta Corrêa Lima, ele conseguiu tirar da cadeia Caio Prado Jr., Milton Santos, João Cruz Costa e Yedda Linhares. Aos alunos, futuros professores, recomendava simplicidade, que resulta de clareza.

De volta à França, Braudel foi um dos responsáveis pela divulgação da obra de Gilberto Freyre. Contribuiu com pesquisadores como a historiadora greco-baiana Katia de Queiros Mattoso, que assumiria pela primeira vez a cátedra de história do Brasil da Sorbonne, e o etnofotógrafo Pierre Verger, que dedicou ao historiador a sua tese Fluxo e refluxo e teve nele seu grande incentivador na volta à academia –Verger havia abandonado o Liceu ainda na juventude. Com seus pares franceses, Braudel formou uma geração de grandes historiadores: Jacques Le Goff, Le Roy Ladurie, Marc Ferro e Georges Dubys. Até os anos 1950, foi responsável por cursos e conferências sobre a América Latina. Quando a USP completou 50 anos, em 1984, teve o convite para vir para participar das comemorações. Como seus principais amigos brasileiros já haviam falecido, disse que seria um desgosto muito grande vir ao Brasil e não poder reencontrá-los.

Nos últimos anos, têm-se multiplicado estudos sobre intelectuais franceses que viveram no Brasil no mesmo período. Estudam-se não somente sua influência no Brasil, como também a influência do Brasil em suas obras. Autores como Lévi-Strauss, Roger Bastide e Pierre Verger têm sido objeto de pesquisa acadêmica, de reedições e, muitas vezes, de primeiras edições. “Quanto a Braudel, creio que a tendência é a de crescimento de estudos críticos sobre o autor, na medida em que os campos da história da historiografia e da teoria da história estão se consolidando no Brasil, campos esses que não eram nada fortes nos anos 1990, quando fiz minha graduação. Vale dizer: há uma retomada mais reflexiva, um pouco diferente da antiga fonte de inspiração para novos ‘métodos’ e ‘abordagens’”, explica Henrique Estrada Rodrigues, professor da Universidade Federal de Ouro Preto, autor de artigo recente sobre o diálogo entre Braudel e Lévi-Strauss.

Autor de uma tese de doutorado sobre Sérgio Buarque de Holanda, Estrada Rodrigues diz que a visão que se tem, hoje, da influência francesa no Brasil tem mudado. “Cada vez mais existem outras importantes referências intelectuais, como a alemã ou a inglesa, que relativizam um pouco a importância francesa, sem, claro, desmerecê-la. Isso se deve também a uma especialização cada vez mais acentuada dos programas de pós- -graduação, que começam a desencavar coisas muito específicas. Por exemplo: a associação entre Sérgio Buarque e a nova história francesa, muito difundida nos anos 1990, começa a conviver com estudos que apontam outras fontes de inspiração bastante diferentes ou mesmo antípodas, como a sociologia alemã, as leituras italianas do historiador ou as referências vindas da história literária”, exemplifica.

Diversidade - Corrêa Lima diz que, ante a abrangência da obra de Braudel – o mundo mediterrânico, a cultura material, os primeiros séculos do capitalismo, a França –, há muito ainda a ser estudado. E hoje, em que se interessa por outros temas como história da Igreja e diversidade sexual, a contribuição de Braudel continua bastante valiosa. “Ele ensina a identificar permanências e mudanças na vida coletiva e nas civilizações e a buscar um ‘concubinato’ entre diversos saberes. A perspectiva histórica é muito útil para enfrentar posturas intransigentes e para enxergar o novo que se avizinha”, afirma.

Em uma resenha sobre o livro de Corrêa Lima, publicada na revista Carta Capital, o historiador Elias Thomé Saliba, professor da USP, elogiou as histórias saborosas reunidas, a pesquisa meticulosa e a felicidade em documentar como o “distanciamento” experimentado aqui no Brasil se tornou um rito de passagem para a formação de Braudel. “Distanciamento” que resultaria do contato com outra realidade, diferente da sua. Absorvido pela pesquisa, localizada em outra época, Corrêa Lima afirma que também experimentou algo parecido. Certo dia, após passar várias horas conversando com a viúva de Braudel, teve um estranhamento ao sair à rua, num dia normal de primavera, com jovens, crianças e idosos circulando pelas calçadas. “Nada havia de especial. Entretanto tive a sensação de estar vindo de outro planeta, de um mundo que não tinha nada a ver com o que os meus olhos viam. Nunca havia tido esta sensação antes. O que me aconteceu foi estar tão absorvido em um passado distante no tempo e no espaço que o presente me causou um enorme estranhamento. Era como se eu retornasse de um arrebatamento”, recorda. “É claro que tudo isso é recriação do historiador a partir dos vestígios de que dispõe. Mas pode acreditar: a história tem uma força e um poder envolvente de nos transportar para mundos distantes, ainda que apenas através da imaginação.”

domingo, 7 de março de 2010

A volta da educação que nunca foi (do governo Roseana)

A volta da educação que nunca foi (do governo Roseana)


A principal característica da política educacional do governo estadual do Maranhão desde a primeira gestão de Roseana Sarney é o cabal desconhecimento dos secretários da pasta sobre o assunto e a imitação pura e simples da política estabelecida pelo governo federal.

Consequência disso, a política educacional sempre foi traduzida em: (1) construção de escolas, (2) contratação de professores, (3) capacitações de professores e diretores, (4) ampliação das matrículas; não necessariamente nesta ordem. Nunca enfrentaram o problema mais dramático que é o da qualidade do ensino oferecido pela rede estadual, não por que não quisessem, mas por que não só não sabem como enfrentar isso, como também os governantes e a elite política tradicional não se interessam por essa política em outro sentido que não o daquela quadra já aludida.

Qualidade da educação não é algo que volta, por que nunca esteve presente na história recente da política educacional do Maranhão, mas algo mais complexo, envolvendo dimensões extra e intra-escolares, cuja a quadra dos neófitos que sempre estiveram a frente da Secretaria abarca apenas a parcela mais visível eleitoralmente. Mesmo aqui é preciso fazer ressalvas, pois das vagas publicadas no edital apenas alguns foram convocadas: bem abaixo do número estabelecido.

O novo slogan do governo Roseana Sarney é a consagração mais forte do clientelismo: governar é cuidar das pessoas. As pessoas não precisam ser cuidadas como se o governo fosse uma mãe, mas querem ter acesso aos serviços públicos por que é direito seu, não presente de governantes modernos apenas na mídia.

Em outra oportunidade dissemos que educação é muito mais que tijolos e cimento, completamos: é muito mais que professores, capacitações e matrículas. Não vislumbramos mudança nessa visão pelo governo presente, que acha que governar não é abrir estradas, como dizia certo presidente no início do século XX, mas sobretudo divulgar que elas foram feitas.

É no mínimo irônico que quem construiu amplo patrimônio econômico com base na acumulação primitiva propiciada pelo exercício do poder no Maranhão, acuse a oposição de tais práticas. Nossa oposição, por mais importante que seja para a alternância do poder político tão cansadamente reivindicada, ainda reproduz um discurso que prima por não se diferenciar. Para além disso, reproduz um ritmo e uma intensidade muito aquém do que a conjuntura histórica demanda.

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