domingo, 23 de setembro de 2012

Neruda no meu coração


NERUDA NO MEU CORAÇÃO

Jhonatan Almada, 
historiador e primeiro secretário do Instituto Jackson Lago

Meu primeiro contato com o poeta Pablo Neruda (1904-1973) foi por meio de um curto trecho dos seus mais conhecidos versos: “Puedo escribir los versos más tristes esta noche”. Encontrei-o perdido nessas revistas de literatura que se compram em bancas. A força desse trecho foi suficiente para instigar-me a conhecê-lo e conhecendo-o, admirá-lo.

Meu outro encontro com o poeta ocorreu quando ganhei de presente um livro de minha madrinha, Marieta. O livro “Estrela da Vida Inteira” compila a produção poética de Manuel Bandeira. Quase no meio do livro, está lá “No vosso e em meu coração”, rememorando o grito do poeta contra o franquismo, a opressão e a traição. Altamente exclamava um poeta pela voz do outro: “A Espanha de Franco, não!”.

A vida inteira, Pablo Neruda manteve sua coerência intelectual e política em defesa das classes excluídas, dos menos favorecidos, dos esquecidos pela história, da paz, da liberdade, da justiça, da igualdade efetiva. Essas palavras não são meras, mas em cada uma, empenhou sua carne, sangue, alma e vida. Perseguido politicamente no Chile, onde nasceu, passou boa parcela de sua existência no exílio, reconhecido, laureado, distinguido e premiado internacionalmente.

Curioso como os vencedores ainda escrevem a história. A premiação sempre referida quando se fala do poeta é o Prêmio Nobel de Literatura (1971). Omite-se o Prêmio Lênin da Paz (1971), prêmio equivalente ao Prêmio Nobel da Paz. Era concedido pela União Soviética, até sua dissolução nos anos de 1990. Ignora-se que foi no antigo bloco socialista que o poeta recebeu maior guarida. O bloco capitalista, sob a liderança dos Estados Unidos, estava ocupado implantando ditaduras em todos os continentes, especialmente na América Latina.

O poeta não privou a fortuna de Gonçalves Dias. Não foi amado por sua terra apenas quando morto. Entretanto, Pablo Neruda tinha consciência das pedras do seu caminho, chegou a antevê-las em meio. No seu livro “Cem Sonetos de Amor e uma canção desesperada”, Neruda nos lembra dos “pobres poetas a quem a vida e a morte perseguiram com a mesma tenacidade sombria e logo são cobertos por impassível pompa, entregues ao rito e ao dente funerário”. Falava de si e de tantos, certamente, não de todos.

Nós somos nominados ao nascer. Nossos pais por influências e gostos diversos nos nomeiam. Porém, só quando nos autoatribuímos um nome é que passamos a existir em vida, só quando isso ocorre, passamos de uma identidade dada para uma identidade construída. Isso é uma tradição antiga na história da humanidade, lembremo-nos de Abrão e Saulo, no novo e velho testamento da Bíblia.

Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto nasceu para o mundo, quando se tornou Pablo Neruda. Tantos foram os temas abordados pelo poeta, mas todos poderiam ser sintetizados em um único: o amor em todas as suas formas. O amor às mulheres, o amor aos companheiros, o amor às coisas, o amor à luta, o amor às causas por que se luta. Esse amor transbordante nos banha em toda sua obra, intensa e imensamente, como seu coração.

Reencontrei Neruda, recentemente, por um presente que ganhei de mon amour. O livro “Los versos del capitán”. Este livro foi publicado de forma anônima quando o poeta estava exilado na Itália. Só depois teve sua autoria admitida. É difícil escolher um trecho, tamanha a intensidade que o perpassa. Talvez “Yo te he nombrado reina. Hay más altas que tú, más altas. Hay más puras que tú, más puras. Hay más bellas que tú, más bellas. Pero tú eres la reina”. Quem sabe ainda: “Quítame el pan si quieres, quítame el aire, pero no me quites tu risa”. Para finalizar “Ámame, tú, sonríeme, ayúdame a ser bueno”, pois “será dura la lucha, la vida será dura, pero vendrás conmigo”. É improvável alguém recusar navegação assim conduzida.

À memória me vem o encontro mais marcante com Neruda. Seu enterro. Fui transportado até aquele dia 25 de setembro de 1973, pelo documentário “Utopia e Barbárie”, de Silvio Tendler. Neruda morreu pouco depois do golpe de Estado que derrubou o presidente chileno Salvador Allende, em 11 de setembro do mesmo ano. Aos gritos de “Camarada Pablo Neruda!”. A multidão respondia: “Presente, ahora y siempre!”. Cercadas pelos cães de guarda do ditador Augusto Pinochet, um verso irrompe do coração do povo: “Habitantes de las tierras desoladas: aqui’teneis como un montón de espadas mi corazón dispuesto a la batalla”.

Cortado de saudade e pensando na minha terra há tantas décadas sob uma ditadura igual, grito, querido Pablo Neruda: “Habitantes das terras desoladas: aqui tens como um montão de espadas meu coração disposto para a batalha”. Estás presente, agora e sempre, no meu coração, no coração de todos nós. Que teu verso seja fecundo no Maranhão, Maranhão que lutamos diuturnamente para que seja nosso. Que seja de todos, não mais, de alguns.

domingo, 9 de setembro de 2012

São Luís à flor da pele


São Luís à flor da pele[1]

São Luís francesa, São Luís holandesa, São Luís africana, São Luís lusitana, São Luís brasileira, São Luís patrimônio da humanidade inteira. São Luís de muitas faces e ao mesmo tempo uma, íntegra, permanente. Caleidoscópio de etnias e culturas que aqui se amalgamaram, se dilaceraram, se entrelaçaram para, finalmente, gerarem um novo ímpar nas suas manifestações de trabalho, de amor e de cultura.

Nossa São Luís chega a 385 anos [400 anos]. Cidade de poetas e de musicalidade à flor da pele, ela enfrenta altaneira as dificuldades que surgem à sua frente. Para isso, alia trabalho, crença e essa qualidade tão nossa que é a de não desesperar, mesmo assomando tantos desafios.

São Luís é assim. Plasmada em tempos heroicos de guerras, conquistas e piratarias, mas amante da paz, da criação artística e cultural. Na cultura, é Atenas e é Jamaica. É Brasil e universo. São Luís de cultura particular, mas cidadã do mundo e patrimônio da humanidade.

Esta cidade que aniversaria neste 8 de setembro luta, por intermédio de seus dirigentes e de seu povo, para alcançar uma melhor qualidade de vida e uma cidadania mais efetiva. E, fiel a si mesma, presenteia seus cidadãos com este trabalho de arte.

São Luís, capital do Terceiro Milênio, eu te saúdo e a todos os que no dia-a-dia ajudam a tua construção. Parabéns, São Luís! Parabéns, amiga e amigo!

Jackson Lago
Prefeito de São Luís



[1] Este título foi atribuído por nós. O texto foi escrito como Apresentação para o Álbum Ilustrado “São Luís através dos tempos 1612/1997”, publicado pela Prefeitura de São Luís como encarte no Jornal O Estado do Maranhão. Se analisarmos os encartes dos jornais O Estado do Maranhão e do Imparcial, publicados no dia 8 de setembro de 2012, perceberemos como a qualidade caiu. Para os 400 anos de São Luís, ambos encartaram revistas com propagandas de empresas e alguns textos perdidos entre elas.

sábado, 8 de setembro de 2012

A Pedagogia da Greve


A PEDAGOGIA DA GREVE
Jhonatan Almada*
A greve é um ato legítimo de todo trabalhador ou trabalhadora. A greve não nasceu de uma regulamentação do Estado capitalista contemporâneo, nasceu da mobilização e organização dos trabalhadores na luta contra as condições precárias de trabalho, remuneração, alimentação, educação, saúde, transporte e moradia, necessidades básicas que mais tarde se tornaram direitos conquistados, ainda que continuem precariamente satisfeitos e permanentemente atacados.
A luta foi contra as condições de trabalho existentes na economia capitalista. A resposta dos donos do capital foi terceirizar a maior parte do problema para o Estado. Este, por sua vez, socializou os custos desses direitos com a maioria que paga os impostos.
No entanto, o Estado não devolve esses impostos em serviços públicos com quantidade-qualidade necessários e suficientes, dado que o fundo público é majoritariamente direcionado para o pagamento dos juros da dívida pública, afora os desvios relacionados à corrupção.
O atual modelo de desenvolvimento capitalista conduzido pelo Governo Dilma é baseado nesse endividamento. Mais à frente, esse modelo cobrará seu preço. Alegarão que o Estado cresceu demais, se endividou demais e por isso, necessita de uma política de austeridade. Dessa forma, esse círculo irracional de endividamento versus austeridade nunca tem fim, por que o sistema econômico continua o mesmo e não há sinais de que mudará no médio prazo. Um adendo, li em uma matéria jornalística local que a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, comemorou o aumento do limite de endividamento do Governo Estadual. Trocando em miúdos, ela comemorou a possibilidade de afundar o Maranhão em dívidas, como já o fez nos seus dois mandatos anteriores.
A mentalidade jurídico-bacharelesca brasileira, analisada argutamente pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, no livro Raízes do Brasil, continua predominante no modo de agir da elite dirigente nacional. Todos os problemas brasileiros são apresentados como falta de legislação adequada, equívocos da legislação existente ou inexistência de legislação.
Por esse raciocínio, bastou inscrever na Constituição Federal de 1988 que são direitos sociais (Art. 6º), a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados. Pronto, todos gozam desses direitos. Claro, mais no sentido humorístico que no sentido da fruição efetiva.
A ideia de regulamentar a greve dos servidores públicos é um dos mais recentes frutos dessa mentalidade e o alvo principal é a greve das Universidades Federais. Se greve fosse uma coisa regulamentada por lei, então para que fazer greve? Imaginemos, seria bem interessante. Escreveriam no artigo 1º - Todos os servidores públicos podem fazer greve, desde que não comprometam o atendimento dos usuários (cidadãos?). Claro, façam greve, desde que continuem trabalhando.
Também na mesma lei, escreveriam no artigo 2º - As greves só podem ocorrer nos meses de janeiro, fevereiro, julho e dezembro. Assim, ninguém se importaria mais com as greves nas Universidades federais, por exemplo. Elas ocorreriam no período de férias. Ninguém precisaria mais discutir financiamento da educação superior, autonomia universitária, plano de carreira, democratização das instâncias decisórias, eleições diretas para reitor. Resolvido o problema.
No artigo 3º dessa lei imaginária, estaria escrito – Todos os servidores que fizerem greve perdem a estabilidade. Agora sim, o mundo ideal para elite dirigente e boa parcela da mídia hegemônica. A solução para as greves é acabar com a estabilidade funcional, “igualando-os” com os trabalhadores da iniciativa privada. Desse modo, na greve seguinte, todos os grevistas reincidentes seriam demitidos. É o fim das greves.
A greve é um ato legítimo do trabalhador e da trabalhadora, entretanto, ainda não se constituiu em um ato pedagógico, em dois sentidos. Ainda não é um ato pedagógico para os próprios trabalhadores, poucos permanecem mobilizados e engajados, a opção de alguns é tratar a greve como férias remuneradas, a de outros, a indiferença. A greve deveria se constituir em um espaço de formação dos próprios trabalhadores, onde os grandes temas de interesse, além da questão essencial, seriam tratados de forma didática. O programa de formação poderia abranger o financiamento da educação superior, a contratualização, o produtivismo, a volta do modelo escolões no Norte/Nordeste versus centros de excelência em pesquisa no Centro Sul, dentre outros assuntos.
A greve ainda não é um ato pedagógico para os estudantes e a sociedade que efetivamente usufrui dos serviços públicos. Os estudantes são despachados para casa, curtindo férias fora de período. As famílias são bombardeadas pela mídia hegemônica e tem sua opinião antigreve formada por esses meios de comunicação. A greve deveria se constituir em grandes aulas públicas abertas às mídias não-hegemônicas, aos estudantes e às famílias, abordando a importância da luta em defesa dos direitos dos trabalhadores, a história dos movimentos sociais, o financiamento da educação, dentre outros temas.
Talvez, com essa pedagogia da greve, ganhássemos aliados importantes, somássemos novas forças sociais em apoio ao movimento de luta, mesmo que não conseguíssemos “sensibilizar” a chamada opinião pública e o próprio Governo.
*Jhonatan Almada é historiador, primeiro secretário do Instituto Jackson Lago e secretário executivo da seção estadual da Associação Nacional de Política e Administração da Educação (Anpae)

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