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AS SOLUÇÕES DOIDAS DEMAIS

A grande contribuição de Carlos Matus para a arte do governo é evidenciar que a gestão política, a gestão macroeconômica e a gestão dos problemas têm crivos de eficácia formal/técnica e eficácia material/política. Ignorar a política é barbárie tecnocrática. Ignorar a economia é a barbárie política. Ignorar os problemas é a barbárie gerencial. O desafio é encontrar um balanço global que seja positivo e equilibrado, evidenciando a qualidade da gestão do governo.

Somos limitados, como todo ser humano. Nosso mundo é do tamanho dos conceitos que conhecemos. O que é certo? Não existe solução de problema que seja exclusivamente técnica, também não existe solução exclusivamente política. É um desrespeito à inteligência alheia construir explicações parciais sobre problemas complexos, os argumentos de base não se sustentam e para funcionar precisam excluir os atores-chave.

Quando a população brasileira teve expressivo crescimento demográfico em meados do século XX, a solução de gênio foi abrir escolas de tempo parcial, arremedo que não viceja na maioria dos países avançados. A elite quando se vê enredada em um problema cria soluções doidas demais para o povo, não para si. A massificação do tempo parcial em escolas públicas precárias é prova disso e prevalece até hoje. A ignorância rotunda daqueles que nunca estudaram em tais escolas, as conhecendo de passagem, presidiu as decisões de política educacional.

Anísio Teixeira aos 46 anos criou a Escola Parque como uma das mais importantes experiências de turno integral da história da educação, tal projeto mereceu reconhecimento internacional e projetou este intelectual como um dos melhores quadros de sua geração. Os Governos seguintes tentaram matar o projeto, mas ele sobrevive e devido a sua relevância, o Ano Letivo da Bahia é aberto no auditório do Centro.

Darcy Ribeiro aos 61 anos, inspirado no projeto de Anísio, criou os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) no Rio de Janeiro durante o Governo Brizola. Investimento sério e projeto ousado que levantou fortíssima oposição, sempre se naturalizou educação pobre para os pobres. Se você deseja transformar a vida dos excluídos lhes dê a educação mais avançada existente, assim pensava Anísio e Darcy, no que estou de pleno acordo.

Os CIEPs não tiveram o mesmo destino da Escola Parque, os governos seguintes ao de Brizola alegaram os altos custos como o centro do argumento para sua gradual desativação. Darcy questionava: “fazer economia com crianças? Um dos grandes fracassos do Brasil, como povo e como civilização, tem sido nossa incapacidade de criarmos uma escola pública honesta e eficiente”. Tais políticos só são lembrados como os carrascos dos CIEPs, mancha em suas biografias que alvejante nenhum retira.

Paulo Freire aos 39 anos inventou um método de alfabetização extremamente eficaz, em vez de “Eva viu a uva”, onde nem uva havia, era necessário identificar quem era Eva, qual sua posição social, quem trabalha para produzir a uva, a serviço de quem. A ditadura interrompeu o projeto, prenderam e depois exilaram Paulo Freire. Conta-se que em uma das prisões, o diretor pediu a ele que alfabetizasse os presos, ao que respondeu – Mas justamente por isso me colocaram aqui. Paulo é referência internacional em educação, ninguém conhece quem o prendeu, ninguém sério respeita os que o atacam.

Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire foram combatidos por suas ideias, desrespeitados enquanto profissionais e ignorados na tomada de decisões, os projetos que criaram foram interrompidos, boicotados ou desvirtuados. A história às vezes nos consola. Aqueles que os combateram receberam o esquecimento como prêmio.

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