sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O VIL METAL DA CORRUPÇÃO

Jhonatan Almada, historiador, integra o quadro técnico da Universidade Federal do Maranhão (UFMA)


A política ainda é a forma mais fundamental que a humanidade inventou para a conquista do bem comum e a materialização de ideais e ideias. Contudo, a humanidade é mortal e não temos o controle de nossa existência, alguns se julgam abençoados por viverem muitos anos, outros, morrem antes de nascer. Eis aí um mistério profundo e milenar que a humanidade nunca conseguiu desvendar, entre idas e vindas do sobrenatural ao natural. A despeito disso, de par com a vida está a morte, inescapável.

O desafio que se impõe é tornar o viver significativo, digno do registro de nossos pósteros pela contribuição que se possa dar ao bem comum. A morte, a crer na graphic novel Sandman, de Neil Gaiman, é uma representação feminina jovem, bela e agradável que nos visita quando a existência chega ao fim, conduzindo-nos carinhosamente ao outro lado. Não é um ser esquelético com foice e capuz. Apesar disso, representada ou não dessa forma, Gaiman não discute em profundidade o quanto a passagem dela afeta os que ficam. O ponto invisível da costura de sua história.

Nossa visão da morte ainda é como a indesejada das gentes, de Manoel Bandeira. Sempre temida, jamais querida. É-nos oculto o momento de sua vinda, talvez e improvavelmente, alguns por artes insondáveis vislumbrem no horizonte sua hora. Quando ela leva um de nós, aos que ficam, reafirma a certeza de que virá e nos impõe a continuidade do viver, desafiando um ser mais como dizia Paulo Freire. Esse desafio de ser mais nos faz honrar a memória daqueles que partiram, guardando-os pelo melhor que fizeram e foram em vida. Ajuda-nos a lidar com o vazio que se apresenta imenso tanto quanto mais intensa foi nossa existência naqueles com os quais caminhamos.

Refletindo sobre o cenário político maranhense, emergem alguns pontos visíveis da mudança que se avizinha e da decrepitude do grupo dominante local, cuja morte se anuncia. Entre esses pontos, destaco: a persistência em imputar ao outro aquilo que mais lhes caracteriza; a tentativa de sobreviver pelos seus herdeiros; o esforço permanente por escrever a história e inventar a verdade; a corrupção como marca indelével; a utilização de parte da esquerda como instrumento de ataque do adversário mais forte e a imposição de uma agenda defensiva aos adversários.

O grupo dominante pelo tempo que está no poder repete suas estratégias e ações de combate a qualquer ameaça ao seu poder no Estado do Maranhão, tornando-as previsíveis. Uma delas, sempre acionada, é fazer crer à opinião pública que o adversário é corrupto, incorreu em alguma ilegalidade, não é digno da confiança dos eleitores, mesmo que para isso tenham que fazer dizer o não-dito. Nunca investigados de forma conclusiva ou punidos judicialmente, as décadas de denúncias, desvios e enriquecimento ilícito, claríssimos, fortaleceram sua desfaçatez. O outro é a mesma coisa de mim, parece ser a mensagem proclamada com sanha erínica. Nunca poderão admitir a existência de virtude ou ficha limpa no adversário, coisas impensáveis na chafurda que habitam.

Nada mais lamentável na política do que precisar sustentar-se no sobrenome de família pela ausência de conteúdo próprio, de história pessoal e lastro de vida pública. Eduardo Campos (1965-2014) não precisou usar o sobrenome do avô Miguel Arraes (1916-2005) para se afirmar e firmar na política. Construiu trajetória própria e singular, assim será lembrado e figurará na história política brasileira por bastante tempo. Registro aqui meu respeito, pois Eduardo Campos partiu para se tornar inspiração desta e das próximas gerações, somando-me a homenagem prestada por Flávio Dino.

Não é o caso de Adriano Sarney (filho de Sarney Filho) ou Andréa Murad (filha de Ricardo Murad), farsas trágicas de uma oligarquia moralmente decadente e com quadros envelhecidos sem sabedoria. Sei que a comparação é dura, ainda que verdadeira; não somos obrigados a aceitar essas cargas farsescas em nossas costas, carregada pela frase a pairar impunemente: nossos herdeiros serão eleitos.

José Sarney levou ao pé do ouvido, a lição de Winston Churchill sobre a história da Segunda Guerra Mundial, a de que a história lhe daria razão because I shall write the history, como consta da biografia escrita por Stuart Ball. Sarney realmente pensa em escrever a história de si e do Maranhão, diuturnamente, por anos sem conta, mas com intensidade na última década deste século, se pensa Cloto em seu fiar do destino. Teme não ser retratado como ator principal da novela de si ou ser transformado em vilão, o livro “Maranhão: sonhos e realidade” por sua Fundação em 2010 foi o primeiro ensaio materializador desse objetivo.

Sarney pretende escrever a história e inventar a verdade. Nada o fará recuar disso, para tanto, conta com seu império midiático, orientado e azeitado pessoalmente. Recordo uma das raras matérias de qualidade publicadas pela Revista Veja, a matéria comparava os fatos e as manchetes do jornal O Estado do Maranhão, mostrando que tal como o pudor da fábula esopiana, a verdade saiu e nunca mais compareceu àquele jornal.

A mensagem que pretendem impor é a seguinte: a história, nós escreveremos; a verdade, nós inventamos. O desespero maior é que essa certeza não sobreviverá ao fim dos seus dias, quando Átropos lhe cortar o fio, tocará a música de Waldick Soriano com a pergunta destruidora de todas as ilusões acumuladas: Quem és tu?. Essa será sua condenação. Os intelectuais da minha geração, somados aos que nos precederam, tem o dever de desconstruir a história inventada de José Sarney e reduzir-lhe a estatura merecida de uma verdade outra, jamais silente, apesar das tentativas.

Não se faz aqui o canto da rasgamortaia (rasga-mortalha), nada seria mais injusto que a morte de José Sarney antes de ver, dia após dia, a queda de seu reino e a dispersão dos seus serviçais. É fundamental que permaneça vivo, pois a punição maior pelo seu enriquecimento familiar em face da pobreza dos maranhenses será testemunhar o renascimento do Maranhão sob um governo desvinculado de seu mando e prenhe de invenções e reinvenções.

A corrupção é a marca indelével do domínio do grupo liderado pelo senador José Sarney, corrupção aberta e sôfrega, escondida ou discreta. Todas as formas de corrupção são utilizadas no Maranhão, lembrando um pouco a longa classificação de Padre Antônio Vieira sobre a letra M de Maranhão.

Cito dois exemplos relevantes para dar maior concretude aos argumentos apresentados. O primeiro relativo ao Jaracati Shopping, onde o senador Sarney possui uma cota no valor declarado de R$ 1,05 milhão (em 2006, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral). Ali temos Agência dos Correios, Caixa Econômica Federal e Viva Cidadão, verdadeiras lojas âncoras do Shopping. Também declarou possuir sete lotes de terrenos na Ponta D’Areia em São Luís, coincidentemente ali o Governo do Estado construiu o espigão costeiro que terá impactos positivos na valorização dos imóveis da área. Em qualquer outro país, esses fatos em si evidenciariam conflito de interesses entre a administração pública e a expansão do patrimônio pessoal de um Senador da República e então Presidente do Senado.

O segundo exemplo diz respeito à TV Mirante. A atual governadora Roseana Sarney possui cotas da empresa no valor declarado de R$ 2,711 milhões (em 2010, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral) e os vultosos valores gastos em comunicação governamental, coincidentemente, veiculadas na referida TV, retransmissora da Rede Globo.

Corroborando os exemplos apresentados, a historiadora Lígia Teixeira identificou que a empresa Hytec de propriedade de Luciano Lobão, ter recebido R$ 53,7 milhões do Governo do Estado do Maranhão (dados do Portal da Transparência). Luciano é irmão de Edison Lobão Filho, candidato do grupo Sarney ao Governo do Maranhão, cumpre o mesmo papel que Fernando Sarney desempenha para a família. Em síntese, o cerne disso tudo é que a corrupção será o legado maior desse grupo político, escândalos que se somam ao longo dos anos como monturo infinito a se perder no horizonte da infâmia.

A referida historiadora em análise sobre as eleições de 2014 na capital aponta que os demais candidatos terão um papel de figuração. Penso que sim, contudo, devo ressaltar a utilização desses candidatos como instrumento de ataque a Flávio Dino, o adversário mais forte. Perdidos em análises abstratas, confundindo o “é” com o “quero que seja”, servirão como uma luva ao papel a eles designado. Não possuem propostas concretas para o Maranhão, mas sim reivindicações lastreadas na inexperiência na administração pública e na ausência do exercício de mandatos, bem como, no discurso de crítica ao Estado, fundamentado pela sociedade civil local, cujas soluções são tão abstratas que caberiam em qualquer realidade. Em nenhuma outra ocasião ou por nenhum outro motivo receberiam a atenção da mídia do grupo dominante e os espaços disponibilizados.

Por último, um ponto significativo é que o ataque permanente do grupo político local à oposição, sobretudo ao candidato Flávio Dino, impõe uma agenda defensiva sem fim. É claro que não se trata de culpa, mas do esforço de articular respostas a perguntas de ordem retórica, cujo objetivo é enlamear a reputação e o caráter, bem como, atingir a honra pessoal e familiar do candidato para daí extrair possíveis dividendos eleitorais. Penso que isso desvia a inteligência do candidato e da campanha do foco principal, isto é, apresentar suas ideias ao eleitor maranhense, explicitar o projeto de desenvolvimento e inovar nas propostas para solucionar os principais problemas do estado.

Convencer, acima de tudo, convencer e conquistar o eleitor para a causa da mudança, essa é a questão. A agenda positiva de campanha precisa se impor sobre a agenda defensiva, outros poderiam assumir essa tarefa de responder aos ataques, poupando o candidato e contribuindo para que este se concentre no enorme desafio de vencer uma eleição no Estado do Maranhão de forma limpa e honesta, sem o vil metal da corrupção.

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