domingo, 13 de julho de 2014

REI MAL COROADO


Jhonatan Almada, historiador, integra o quadro técnico da Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

Refletir sobre a alternância do poder, nos obriga a pensar sobre as consequências de quem nele permanece por mais tempo que o recomendável, se apequenando ante a História contemporânea, insaciável e desejoso de encarnar messianismos políticos. Quando me tornei pai, preocupava-me que meu filho crescesse em um Estado tal como eu, subjugado ao domínio de grupo político dirigido por uma família potente, a envergonhar nossa origem. Ninguém lembra que somos o Estado de Maria Aragão, Neiva Moreira, Jackson Lago, Manoel da Conceição, lembram apenas do Maranhão de Sarney, nisso não há orgulho possível. 

Em Repúblicas mais antigas ou democraticamente avançadas, os ex-presidentes exercem um papel de referência política e moral na sociedade, cuidam de suas fundações ou institutos, dão palestras, se envolvem com organizações internacionais e adotam essa ou aquela bandeira relevante para a comunidade internacional ou para seus países de origem. Desconheço ex-presidentes que tenham persistido na arena política exercendo mandato como José Sarney. Casos equivalentes nos Estados Unidos, França, África do Sul ou mesmo na história recente do Brasil são raríssimos ou até inexistentes. A saída do mandato permite que a influência se mantenha pelo trabalho desenvolvido, pois os anos tendem a realçar o legado positivo do governo e o respeito à experiência também se consolida. 

A persistência, por outro lado, transforma a influência em apadrinhamento e tentativas de acobertar corrupção, os anos se tornam velhice decrépita e delirante, o legado negativo do governo aparece como marca indelével e referência permanente. O descrédito e os ataques crescem exponencialmente ao ponto de tornar o político uma figura andrajosa e repugnante a ser evitada. Ao se alcançar a mais alta magistratura pública (no sentido romano do termo), por coincidência, sorte ou voto popular, o foco não é mais permanecer indefinidamente no poder (escorregando para a ditadura), mas legar algo positivo que possa de fato ter contribuído para o enfrentamento e solução dos problemas do país. Após o mandato, o ex-presidente volta-se para o trabalho de preservar a memória do feito, influir no debate público e representar a reserva moral do Estado-nação. A política com mandato não pode ser mais opção, há que se dar lugar para as novas gerações e assumir atuação mais livre das amarras dos partidos, das lealdades, paixões e jogos do poder.

Aqueles quadros de José Sarney e família que os pintam em trajes monásticos ou sacerdotais não são mero capricho, como as veleidades artísticas de George Bush filho. Eles representam a visão particular do poder de seu titular, o poder como sacerdócio. Não o sacerdócio que religa as coisas terrestres às coisas celestes pelas chaves bíblicas, mas sim o sacerdócio egípcio, ou seja, aquele da mediação decisiva que escolhe os que exercerão ou não exercerão o poder naquela quadra histórica. A metáfora da política como casa de única porta, por onde se entra sem jamais vislumbrar saída se encaixa perfeitamente nessa concepção. 

Essa patologia do poder se explica pelo fato de José Sarney não ter sido eleito para a Presidência da República. Caiu ali por encarnar naquele momento a raposa maquiavélica como ninguém. Não ter sido eleito pesou para sempre em sua subjetividade, o que se materializou em luta infindável e infatigável por autoafirmação, reconhecimento e imortalidade, a qual o consumou em vida. Ignorou as consequências dessa busca como tão bem caracterizou Jorge Luís Borges no livro de contos “O Aleph”.

José Sarney poderia ter sido registrado nos anais da História do Brasil como o homem da transição democrática, somente. Isso se aceitando a tradição de reconhecer o político por sua contribuição mais relevante no mais alto cargo exercido. Sua persistência patológica no poder, o fez “um rei mal coroado”, como na música de Geraldo Vandré e Geraldo Azevedo. Aquele rei cúpido prescinde do povo, o qual em última instância é quem decide delegar sua representação e poder original a outrem. Não é outra imagem, senão a daquele rei de Saint-Exupéry no livro “O pequeno príncipe”. Aquele que reina solitariamente sobre ninguém, mas se acredita governante universal. Alguém poderá arguir: apesar disso, rei.

Roseana Sarney foi uma tentativa abortada e frustrada de sucessora. Sua frustração está no fato de que jamais obteve algo por mérito próprio, mas graças à intervenção paterna. Aquela resistência de Gilberto Gil a cantar Cálice pela opressão da figura paterna, nunca constrangeu Roseana. O caminho à Presidência da República virou picolé, essa abortagem a fez descarregar sua patologia pelo poder no Palácio dos Leões, quatro mandatos arrancados a fogo dos maranhenses, dos adversários e das providências de nossa justiça eleitoral à la manière de Gregório de Matos. Essa patologia se exerceu sob as vistas impassíveis dos casebres no mangue em frente ao Palácio dos Leões, do outro lado do braço de mar. Foi o momento de maior delírio de José Sarney, se imaginou George Bush pai elegendo George Bush filho. 

Muitos estudos e pesquisas ainda necessitam ser produzidos para compreender a verdadeira consequência desse delírio para o Estado do Maranhão, sobretudo pelo tempo que durou, práticas incorporadas, despotismos instituídos e trajetórias ceifadas. Deixará saudades aos seus, especialmente aos que inventaram a anedota do visitante, compartilhada por amigo fraterno. O visitante chegado pela primeira vez a São Luís, olhando elevados e avenidas, dentre outras obras, pergunta ao seu anfitrião quem os fez. O anfitrião passeia por toda a cidade (Aeroporto ao Calhau) e a tudo responde: “Roseana que fez!”. O visitante pergunta se ela foi prefeita da cidade. O anfitrião mais orgulhoso ainda diz que não: “Foi Governadora do Estado!”. Essa realidade inventada e fantasiosa que fecha os olhos ao enriquecimento ilícito e ao localismo elitista do feito será seu legado desejado.

O legado real deixa alguns rastros materiais e imateriais que são emblemáticos. Entre os materiais, a frase no Plenário da Assembleia Legislativa, a Fundação da Memória Republicana e a Fundação Nice Lobão. Entre os imateriais, a certeza da impunidade, a miséria dos intelectuais maranhenses e a história ensinada nas escolas. 

A frase pertence a José Sarney ou a ele é atribuída: “Não há democracia sem Parlamento livre”. Fico pensando qual mente subserviente teve essa ideia. Gravar a frase de alguém que ainda vive, cujo poder se sustentou e se sustenta justamente nos jogos de bastidores, nas decisões de cúpula e no voto de cabresto. A frase é um acinte a própria Assembleia, sua permanência ali é testemunha muda, porém eloquente, do quanto à maioria de deputados estaduais bancada pelo grupo dominante local é obediente. São verdadeiros discípulos de Janjão que certamente não decepcionarão o pai, como no conto de Machado de Assis.  

A Fundação da Memória Republicana representou a transferência do patrimônio privado acumulado por José Sarney no exercício da Presidência e da vida pública (ninguém realmente sabe a natureza desse acervo) para o Governo do Estado. É como se Fernando Henrique Cardoso ou Lula da Silva transferissem seus Institutos ou Fundações aos Governos de São Paulo ou Pernambuco, se contassem com filhos governadores. A vergonhosa estatização significa que os Sarney não pensam em dispor de nenhum centavo de sua riqueza familiar acumulada ao longo de décadas ou depender do apoio de empresários. Essas opções foram descartadas ao passarem a conta para o povo maranhense pagar, a retirada do nome do Patrono da Fundação sequer os constrangeu.

A Fundação Nice Lobão nasceu de um ato de inveja da então primeira dama do Governador Edson Lobão. Inveja da Fundação José Sarney e pequenez da busca por equiparação de uma sócia minoritária no jogo do poder. Em nome disso, criaram uma Escola sui generis no âmbito da rede estadual, cujo trabalho não pode ser acompanhado ou fiscalizado por ninguém, nem mesmo a Secretaria de Educação. A escola em si, o CINTRA, não representa qualquer inovação pedagógica ou curricular. É apenas um feudo a serviço de outra família potente, existe somente a dúvida de quem é o professor Raimundo da história e se o salário continua o ó. 

Nenhum dos Sarney, pai, filha e demais membros serão punidos. A impunidade é certa. Alguns questionarão a própria suposição de crime ou ilícito, afinal não existem provas, tão-só o fogo do ódio de seus adversários a alimentar calúnias. Os eventuais processos abertos ou arquivados não chegarão a termo. Vislumbro para José Sarney ou qualquer um dos seus, o mesmo fim do coronel Ramiro Bastos, de Jorge Amado. Numa doce manhã de luz azulada não descerá para tomar a xícara de café. No dia seguinte, seu jornal e demais meios de comunicação convidarão para “o enterro do inesquecível homem público, adversário leal e cidadão exemplar”. Morrerá mandando, sem dúvida, sua voz ainda ecoa no Tribunal de Contas da União (TCU), no Supremo Tribunal Federal (STF), no Senado Federal e nas urbes e campos do Maranhão e do Amapá, em uns de forma tênue e tremida, noutros com o mesmo tônus daquele jovem Governador que em 1965 prometeu libertar o Maranhão, escorando o medo em Alexandre Costa ou sendo justificado por Bandeira Tribuzi. 

Os intelectuais maranhenses estão imersos na miséria da oligarquia como categoria e única prática política local possível ou identificável. Se antes tudo se explicava por José Sarney, depois pela oligarquia e por último, pelas práticas oligárquicas, agora não há alternativa de organização política no Maranhão que não seja oligárquica ou tentativa de criar nova oligarquia. Os artigos publicados colocam isso em evidência, ruminam oligarquia e enxergam a história como repetição farsesca e infinita. O pensamento único só o é quando dos outros. Parece que a “A lei de ferro da oligarquia” de Robert Michels assumiu caráter talmúdico para nossos intelectuais. Demorarão décadas para se recuperar da forçada saída de cena de José Sarney. 

Gerações de crianças maranhenses da rede pública foram ensinadas com o livro “Terra das Palmeiras”, ainda hoje em circulação. Nesse livro, só existem dois governadores: José Sarney e Roseana Sarney. Todas as décadas que separam 1965 e 1994 se resumem a poucas folhas sem atores políticos. Não há como reaver essas gerações ensinadas ou deseducadas, menos ainda, voltar atrás no tempo. Esse fato inoculou na alma maranhense a crença na superioridade, inteligência e prestígio dessa família, bem como, dos acertos de suas decisões com o consequente progresso que a elas seguiu-se. Mesmo sabendo que a baixíssima qualidade de nosso ensino público atrapalhou a eficácia desse livro, o ocorrido é inescapável. Reverter esse quadro levará no mínimo 12 anos, considerando-se o tempo da escolarização básica. 

Um governo eleito na perspectiva da mudança precisa catalogar e desconstruir de forma cuidadosa esse legado, não será tarefa fácil. Existem ações que para serem implementadas não necessitam estar inscritas no programa de governo, mas são verdadeiros imperativos éticos a se cumprir. Os herdeiros do grupo dominante tentarão impedir. Muitos deles estão concorrendo nas eleições, nenhuma gota de constrangimento do peso desse legado evitará suas tentativas de conseguir um mandato e atrapalhar o máximo que puderem a governabilidade estadual.

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