sábado, 24 de maio de 2014

CASTELO DE AREIA


Jhonatan Almada, historiador, integra o quadro técnico da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Mudar em política implica, ao mesmo tempo, em novas práticas e na ascensão de uma nova geração ao poder. Renovar a elite política maranhense na segunda década do século XXI tem sido tarefa difícil por estar entremeada em uma transição negociada entre os setores sobreviventes do antigo regime e as novas gerações que buscam afirmar-se em espaço próprio. Nesse aspecto, a velhice se apresenta lamentável e tola como a do senhor feudal Hidetora no filme Ran (lit. Caos, 1985), de Akira Kurosawa. Ali, o senhor que tudo conquistou com a força e desamor tentava transmitir aos seus filhos um ensinamento contrário às suas práticas e história, caindo na tolice e na loucura.

Os delírios do poder no Maranhão impedem que os velhos da política alcancem a sabedoria, esta chega com a experiência banhada do conhecimento de si e dos outros. O horror ao novo explica por que os representantes maranhenses no Senado fazem jus à palavra latina senex (homem velho), ligada à origem romana dessa instituição. Esses homens estão longe de ser “velhos moços” de que nos falava o Padre João Mohana, cuja biografia o jornalista Manoel dos Santos Neto está a nos dever.

O Maranhão se ressente de quadros novos na política e o eleitor necessita intervir, colocando ponto final naqueles que não sabem a hora de sair com honra, preferem agonizar pelo poder, enxergando Delgadinas na política ou mesmo trocando uma por outra. Delgadina é a personagem do romance “Memórias de minhas putas tristes” de Gabriel García Márquez, no qual um ancião encontra nela um bálsamo para sua avançada idade.

Estados como o Amapá e o Mato Grosso apostaram em jovens parlamentares para o Senado da República, tais como Randolfe Rodrigues e Pedro Taques, os dois tem se destacado de forma excepcional nos mandatos, a ponto de fazer sombra e tornar desconhecidos os titulares das outras duas vagas na representação de seus respectivos estados, com a exceção que se sabe. Países como a Itália e a França têm oportunizado espaços concretos à frente das chefias de governo aos seus jovens políticos.

A geração que esteve no poder durante a Ditadura Civil-Militar de 1964 e deve a ela suas carreiras, nunca se recuperou do despudor violento daqueles tempos e ainda se apresenta por debaixo de plásticas, tintura capilar e fotos devidamente tratadas no Photoshop como se fossem a verdadeira mudança. Essa fórmula premiou José Sarney com um Estado Novo para si que já tem, de duração, 29 anos no Brasil e 50 anos no Maranhão.

Recordo Jackson Lago, tão bem lembrado depois de morto, o qual soube combinar em seus governos, velhos e novos, com toda a contradição que isso gerou. No entanto, quantos secretários adjuntos e assessores seus estão hoje no cenário político contribuindo com a mudança no Maranhão? Bira do Pindaré, Márcio Jardim e Franklin Douglas são alguns nomes que me vem à lembrança. Lamentavelmente, essa prática levou Dr. Jackson a uma decisão de apoio que se revelou fatal nas eleições de 2010 para a Prefeitura de São Luís, o governo eleito lhe foi impiedoso e contribuiu sobremaneira para impedir que ele concluísse sua obra interrompida.

Renovação na política se faz com a sabedoria de dosar bem as gerações na transição, sempre recordando o quão passageiros somos neste mundo, mesmo que alguns se vejam como algo mais que um castelo de areia na beira do mar, ecoando a bela interpretação da cantora paraguaio-brasileira Perla.

domingo, 11 de maio de 2014

UM MARANHÃO SEM PALÁCIOS

Jhonatan Almada, historiador, integra o quadro técnico da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

A destruição do complexo de Pedrinhas como proposta de solução dos problemas da segurança pública maranhense é uma demonstração inequívoca do quanto o grupo dominante local se descolou da realidade, vive em um limbo impenetrável, onde discutem e se preocupam com a preservação do seu poder, projeção em carreiras e aboletamento dos cargos públicos. Isolaram-se do cotidiano do povo, como afirma Roberto da Matta.

É como se para os problemas de educação pública existentes, bastasse derrubar as escolas ou para os problemas de saúde pública, botar abaixo os grandes hospitais da capital e assim por diante.

Intelectuais como Benedito Buzar, na linha da atual estratégia do grupo dominante, qual seja, igualar e ao mesmo tempo contrastar seu pré-candidato ao da oposição, chega a colocar palavras na boca de Flávio Dino, afirmando que este prometeu destruir a Casa de Veraneio de São Marcos. Na verdade, a promessa não é destruir, mas vendê-la e retomar o patrimônio público apropriado de forma pessoal pelos governadores do Maranhão ao longo do tempo.

A grande virada de um governo da mudança é cortar radicalmente o conjunto de luxos e privilégios que beneficiam não só o alto escalão do Poder Executivo do Maranhão, mas os níveis intermediários também. Não recordo qualquer candidato ao posto de Governador do Estado que sequer tenha tocado nesse assunto.

Alguns dos luxos e privilégios ficaram mais patentes com a divulgação das listas de compras das cozinhas do Palácio dos Leões, sem esquecer que o Vice-governador também tem uma residência oficial; o uso de helicóptero da Polícia Militar pelo senador José Sarney; os carros oficiais a disposição dos Governadores, Assessores, Secretários de Estado e outros servidores com cargos de confiança ou comissão; o número inacreditável de privilegiados que sem concurso público trabalham por anos a fio em cargos de comissão, do auxiliar de serviços gerais aos secretários adjuntos; policiais servindo como seguranças particulares; os intermináveis aluguéis de prédios para órgãos públicos, sobretudo em áreas altamente valorizadas pelo mercado mobiliário; as festas e banquetes, dentre outros.

Superar esse quadro demanda um trabalho de envergadura e a proposta para a Casa de São Marcos sinaliza um caminho positivo em um estado empobrecido, focar a atuação do Estado nas políticas de proteção e promoção social, retirando-o das políticas de apartheid social que criam verdadeiras cortes principescas a gastar os recursos públicos com o luxo pessoal.


Os governadores, assim como todos os demais cidadãos, devem morar em suas casas, não em Palácios, símbolo mais cristalino da distância entre governantes e governados, governo e povo. Talvez a prédica e o exemplo do Papa Francisco deva ser mais praticada que ouvida aqui no Maranhão. Assim como a Cúria Romana resiste ao novo modelo de governar a Igreja, esperemos comportamento similar por parte das elites maranhenses e seus apaniguados.

sábado, 10 de maio de 2014

OS JOGOS DO PODER NO MARANHÃO

Jhonatan Almada, historiador, integra o quadro técnico da Universidade Federal do Maranhão (UFMA)

Tenho minhas reservas quanto ao jogo do poder, sobretudo quando ignora o bem comum ou a construção de si com o outro. Contudo, sou consciente de que ele existe, sobejando ideologias e partidos, pessoas e grupos, real e imaginário, valores e práticas. Os recursos e os acúmulos para entrar na disputa e conquistar uma vitória, implicam em tempo, valores, alianças e muito trabalho aplicado, sobretudo para os little fishes.

O Conselho Nacional de Educação (CNE) se reuniu entre os dias 5 e 8 de maio de 2014 na cidade de São Luís. Fui indicado para fazer uma palestra sobre a política e a gestão de ensino superior da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) na reunião do CNE. Horas antes do evento, desconvidaram-me com uma lisonja costumeira, incapaz de encobrir a deseducação do ato e expor sua motivação profunda. O fato me fez recordar que também estou sujeito às intricadas redes de poder e pequenez de espírito, mesmo nas instituições acadêmicas as quais pensava serem verdadeiros abrigos do saber desinteressado.

OS ANIMAIS E O PODER. Na série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo”, George R. R. Martin expõe o jogo cru do poder e da política que transcorre em época semelhante a idade medieval europeia. As famílias potentes escolhem símbolos nos seus brasões para lhes representar, os animais são os preferidos. Em um dos volumes, o autor ridiculariza essa prática ao afirmar pela voz de um de seus personagens que os homens escolhem um leão, um dragão ou um lobo, acreditando de fato que são leões, dragões ou lobos, esquecendo-se de sua mortalidade e de quão temporais as pretensões humanas são neste mundo.

Rememoro os estudos do historiador Marco Morel sobre a zoologia política na época do Império brasileiro. Ali frequentavam cabras, bodes, urubus, cães, dentre outros. Aliados e adversários se atacavam nominando-se de animais para ressaltar o caráter irracional do outro e desqualificá-lo na arena política.

Ainda que ninguém saiba ser tão desumano como nós, não somos os animais imaginados, nem mesmo os dos signos do zodíaco ou os do horóscopo chinês. Os animais, portanto, servem para exaltar características que buscamos apresentar como nossas, bem como, irracionalizar o outro. Entretanto, o lobo parece gozar de certo consenso quanto a sua reputação, sobretudo nas fábulas de Esopo.

A fábula sobre o lobo e o cabrito é emblemática a esse respeito. A cabra ao sair de casa recomendou ao cabrito não abrir a porta aos estranhos. No rastro de sua saída, o lobo chega carinhosamente imitando a voz da cabra, não fosse a fresta da porta o cabrito teria sua vida abreviada. No jogo do poder, a lisonja pode esconder a peçonha e o desejo de destruir ou impor pela força, esta é o último recurso dos covardes, quando todos os métodos anteriores falham.

Esopo talvez tenha escrito um dos primeiros espelhos de príncipe, gênero estudado pelo professor de filosofia política, Michell Senellart no seu livro “As Artes de Governar” (Editora 34, 2006). Talvez ainda não se tenha feito uma apreciação de suas fábulas nesta perspectiva, entretanto, considerando os objetivos morais ou moralizantes ali contidos, fundamental lê-las com cuidado. Dito isto, não se pode ignorar o quanto os valores no âmbito da política se quararam nos varais das denúncias, da corrupção e da impunidade.

O PODER EM JOGO. Os jogos pelo poder estão em campo no Maranhão. De um lado, os que estão interessados em continuar, os lobos e os cangurus (José Sarney apelidado por Vitorino Freire) buscam a preservação de sua espécie, guardando as terras do Maranhão para si e seus descendentes. O vale-tudo impera neste lado do campo, nada está ou será descartado, tudo será feito em nome do poder pelo poder.

O outro lado busca a alternância do poder, iniciar uma mudança concreta no Maranhão. Dispensa os comparativos animalescos e tem no ser humano a medida de si e daquilo que busca conquistar para todos. O caráter plebiscitário das eleições fortalece cada vez mais esse lado, neste momento, as opções são claras: mudança progressista ou continuísmo conservador.

O pré-candidato Flávio Dino robusteceu suas alianças em prol da mudança progressista com as adesões de lideranças importantes como a deputada Eliziane Gama e o prefeito Sebastião Madeira, esta última adesão foi antecipada por Frederico Luiz Maciel (Blog Aldeia Global). Soma-se ainda o apoio declarado de dois presidenciáveis, Eduardo Campos e Aécio Neves. A defesa da transparência, o combate à corrupção e a superação das desigualdades é a pauta de sua pré-candidatura. Ainda temos muitos meses até às eleições de outubro de 2014, a busca pelo convencimento do eleitorado não pode parar, sobretudo junto às faixas indecisas, nos municípios do interior e áreas periféricas de São Luís.

As estratégias dos capitães hereditários do Maranhão continuam as mesmas: utilização de pesquisas manipuladas ou baseadas em universos que cabem em um ou dois bairros da capital; invenção de denúncias e irregularidades por parte dos adversários enquanto as praticam largamente; busca constante de novos Reis Pacheco; tentativas de apagamento do passado pessoal e omissão dos sobrenomes; apresentação de mais um de seus filhos na disputa eleitoral como algo legítimo e imposto pelo destino genético; ausência de projeto e contra-argumentos consistentes substituindo-os por abstrações, falas vazias e falsas medidas de impacto; aparentar empolgação e apoio vindos não se sabe de onde; apresentação da quantidade de siglas partidárias como sinônimo de respaldo eleitoral; escamoteamento da realidade conjuntural de modo a torcê-la e torná-la favorável por mais improvável ou inacreditável que pareça; por fim, o desprezo em relação aos intelectuais de uma geração diferente daquela que até hoje lima os couros dos seus calcanhares, moços velhos ou velhos moços servis.

Destaco dois casos que parecem corroborar com algumas dessas estratégias: o rompimento de contrato entre a TV Difusora e a retransmissora do município de Presidente Vargas, devido ao fato do empresário Herialdo Pelúcio apoiar Flávio Dino e a censura às postagens do blog de Luís Pablo divulgando as ligações perigosas do novo pré-candidato da oligarquia. Ainda estamos em maio e as coisas tendem a deteriorar-se ainda mais nos próximos meses, como bem prevê o jornalista JM Cunha Santos. 

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