terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O IMPEACHMENT DE ROSEANA SARNEY



O IMPEACHMENT DE ROSEANA SARNEY

Jhonatan Almada, historiador
E lá na montanha deitado dormido
Campeia o gigante! — nem pode acordar!
Cruzados os braços de ferro fundido,
A fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!...

Porém se algum dia fortuna inconstante
Puder-nos a crença e a pátria acabar,
Arroja-te às ondas, oh duro gigante,
Inunda estes montes, desloca este mar!
Gonçalves Dias

O Maranhão é o símbolo da contradição republicana brasileira. Em todo nosso processo histórico, a imposição e a conciliação foram marcas constitutivas. O quadro atual tem três marcos originários importantes. O primeiro, a eleição de José Sarney para o Governo do Estado em 1965. O segundo, a eleição de Roseana Sarney para o Governo do Estado em 1994. O terceiro, o golpe judiciário de 2009 que derrubou o Governo Jackson Lago, ferindo de morte o governador e restaurando Sarney no poder.

A imposição de Sarney como senhor do cutelo e baraço do Maranhão pelo pacto de poder entre o PMDB e o PT em meados de 2002 definiu os destinos do Estado. Na verdade, esse pacto apenas confirmou o Maranhão como domínio de uma família. Lula não hesitou um instante sequer para imolar Jackson e seu governo e erguer Roseana no altar do poder que antes perdera. 

Governar o Brasil pelo novo grupo que chegou ao poder com Lula (e sabemos que é um país continental) teve um preço político e territorial relativamente pequeno: manter a imposição do domínio e conciliar-se com o antes adversário político. Não faltam provas concretas e audiovisuais das duas posições de Lula em relação ao Sarney, facilmente acessíveis no youtube.

A ética republicana do bem comum e os compromissos de solidariedade com a oposição histórica no Maranhão foram degolados no presídio da governabilidade e enterrados nas quintas da Ilha de Curupu. Nenhum dos fatos que ocorreram nos últimos meses, nenhuma das notícias das últimas semanas, implica ou implicará em uma mudança nesse pacto. 

Até o Tribunal Superior Eleitoral se curvou recentemente e mudou a jurisprudência para impedir a cassação de Roseana, remetendo o processo ao Tribunal Regional Eleitoral. É mais fácil o Governo do Estado construir 10 presídios novos em 60 dias (ou 72 hospitais prometidos para o final de 2010!) do que esse Tribunal cassar o mandato de Roseana. 

O déficit de inteligência e habilidade, uma característica de Roseana Sarney só agora conhecida pelo Brasil, não nos pode iludir quanto à luta ferrenha que esse grupo político irá imprimir para preservar o poder no Maranhão.

Identifico algumas estratégias que já estão em andamento. A primeira estratégia utilizada é negar a realidade inventando estradas alumiadas e bairros seguros. A segunda estratégia é desmerecer o outro, não respondem às evidências concretas, questionam a veracidade delas. A terceira estratégia é culpar o outro, tudo não passa de uma grande conspiração dos opositores. A quarta estratégia é tomar a si como o Maranhão, pasmem, não é um problema de segurança, mas uma campanha sulista contra o Estado. A quinta estratégia é dizer que está fazendo, sem nada fazer, recebem visitas de autoridades, posam em reuniões, divulgam que estão recebendo auxílio de experts e copiando experiências de sucesso. A sexta estratégia é repetir à exaustão que nós temos motivos para nos orgulhar do novo Maranhão, onde qualquer obra é tratada como substituta absoluta das políticas públicas. Tijolo e cimento não resolverão os problemas maranhenses. A sétima estratégia é o recrutamento de fiéis pregadores para atuarem em sua defesa nas redes sociais, sobretudo culpando a oposição.

Em toda a cobertura de mídia das últimas semanas, a qual nunca foi tão oportuna como agora, dois questionamentos silenciosos pairavam sobre os cadáveres de Pedrinhas e os camarões do Palácio dos Leões: 1) por que os maranhenses, eleição após eleição, insistem em colocar os membros do grupo político liderado por Sarney como governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais, vereadores e prefeitos? e 2) se o Governo Roseana Sarney é tão ruim por que os maranhenses nunca exigiram o impeachment da governadora às portas da Assembleia Legislativa?

Duas questões difíceis, os maranhenses não são algo homogêneo. Poderia argumentar em relação à primeira, ainda que de forma simples, que o eleitorado se subdivide em eleitorado esclarecido e eleitorado manipulável. O eleitorado esclarecido, isto é, ciente do atraso que a liderança política do grupo de Sarney impõe ao Maranhão é infinitamente pequeno, incapaz de redirecionar o conjunto dos que votam. O eleitorado manipulável, isto é, aqueles para os quais independe qual grupo político governa, desde que possam obter algum benefício imediato na eleição é infinitamente maior e tem premiado esses políticos com inúmeros mandatos.

A saída seria um trabalho de convencimento intensivo, casa em casa, pessoa a pessoa, chamando à razão. Convencer pessoas que vivem na pobreza ou na miséria desconhecendo que esta, em grande parte, é fruto da forma que um determinado grupo político governa o Maranhão. Eis o maior desafio do ano de 2014: educar para a política e pela política. Fazê-los recuperar a crença na sua capacidade de ser mais, como nos ensinou Paulo Freire.

Quanto à segunda questão, poderia argumentar que a oposição é minoria na Assembleia, o que mata no nascedouro muitas iniciativas. Argumento ainda que uma cultura do medo e da subserviência paralisa as pessoas e as instituições locais, as quais agem mais por impulso externo que próprio. Nem mesmo as mobilizações de rua do ano passado transformaram o “Sarney, ladrão, devolve o Maranhão” em um movimento pelo impeachment da governadora.
Não é vergonhoso para todos os maranhenses que outros tenham de se indignar por nós e fazer aquilo nunca tentado pelos que vivem sob uma dominação vitalícia, como afirmado por Zeca Baleiro. É vergonhoso que toda uma geração vendida, venal e desumana, dia e noite defendam esse grupo político.

Nosso dever cívico é apoiar essa iniciativa dos advogados paulistas e ir às portas da Assembleia Legislativa exigir o impeachment da governadora Roseana Sarney. É preciso arrojo de gigante!

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