sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO PARA TODOS NÓS


Bira do Pindaré, deputado estadual e futuro Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação do governo Flávio Dino

Jhonatan Almada, técnico em assuntos educacionais na Universidade Federal do Maranhão 


            Para compor o quadro em que se encontra a Ciência e a Tecnologia no Maranhão é fundamental recorrermos aos principais indicadores produzidos sobre o assunto, em especial os do IBGE/PNAD, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), CNPQ, Finep, Inep, bem como, os indicadores produzidos pelo próprio Governo do Estado, cuja gestão ora termina. É indispensável analisarmos a situação da área de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), da área de ensino superior e da área de educação profissional e tecnológica no Maranhão.

            Em relação ao IBGE/PNAD (2011, 2013), o Governo Flávio Dino herdará um estado onde somente 15,8% dos lares maranhenses possuem microcomputador e acesso a internet, tornando-nos a unidade da federação com o menor índice de utilização da Internet pela população, 24%.

            O MCTI (2012) aponta que temos o menor orçamento em Ciência e Tecnologia do Nordeste, e ficamos em 24º lugar no ranking nacional. A FAPEMA é a principal agência de fomento e aplica a quase totalidade dos recursos disponíveis, pouquíssimo é investido pela AGERP em pesquisa agropecuária ou pelo IMESC em pesquisa socioeconômica. A UEMA investe somente 4,05% em Pesquisa & Desenvolvimento, a maior parte do orçamento é consumida com folha de pessoal, sobretudo contratados.

            Apesar de existir uma tendência de crescimento na produção científica maranhense, fruto, sobretudo, da expansão da rede de Institutos Federais e dos novos campi da UFMA com a consequente ampliação do número de docentes com doutorado, a apresentação de pedidos de patentes é decrescente. Isso significa que além de pesquisarmos pouco, quase nada disso se transforma em alguma inovação, técnica ou produto aplicado ao desenvolvimento econômico estadual.

            A cultura das instituições de ensino superior locais ainda é fortemente de ensino de graduação e fracamente voltada para a pesquisa, apesar dos avanços dos últimos anos. Isso se materializa, entre outras coisas, no pequeno número de projetos de pesquisa elaborados e na dificuldade de obter financiamento por parte das agências nacionais de fomento, como CNPq e FINEP. É sintomático que o maior número de bolsas concedidas pelo CNPq se concentra na Iniciação Científica e que somente 6 projetos foram aprovados junto ao FINEP nos últimos quatro anos.

            O quadro atual da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia (SECTEC) não é dos mais animadores, de fato ocorreu uma despriorização que colocou a razão de ser da Secretaria em segundo plano. Nos últimos 6 anos (2009-2014), a SECTEC atuou como agência de capacitação de trabalhadores fornecendo cursos de curta duração, relegando a área da ciência, tecnologia e inovação. Para citarmos apenas um exemplo emblemático, em 2014, das 27 Unidades Federativas, somente 4 ainda não possuíam Lei de Inovação, entre essas, está o Maranhão.

Não há Política Estadual de C, T & I formulada, o que implica na ausência de foco, sem linhas prioritárias de investimento dos recursos e clareza quanto à política de fomento à pesquisa. Há problemas de transparência em relação às bolsas institucionais de desenvolvimento tecnológico da FAPEMA e de contratos vultosos da UEMA com Fundações de apoio.

Criado pela Lei Nº 7.854, de 31 de janeiro de 2003, o Sistema Estadual de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e o respectivo Conselho Estadual de C, T & I não funcionam. Dessa forma, a comunidade científica maranhense não influencia e sequer participa da formulação da agenda governamental de CT&I. Isso se soma ao fato de não haver Fundo específico de financiamento da CT&I e da Secretaria pautar-se na realização de tão somente 2 grandes eventos anuais.

No que diz respeito ao ensino superior, o Governo do Estado possui uma única Universidade Estadual multicampi, presente em 22 municípios com 160 cursos regulares de graduação, sem contar os cursos na modalidade à distância. O último Censo da Educação Superior do Inep (2013) aponta que de 1.086 funções docentes da UEMA, somente 294 atuam em tempo integral, a instituição é sustentada majoritariamente por docentes temporários. Desse total, somente 259 possuem Doutorado. Tal quadro aponta que a instituição atua muito no ensino de graduação (foco das Faculdades) e pouco na pesquisa (foco das Universidades), pois não possuí docentes com tempo suficiente e titulação necessária para desenvolver as duas atividades. O problema recente de 420 contratos cancelados e 5 meses de atraso no pagamento não é ponto fora da curva, mas prática recorrente. Inobstante, reconhecer-se a interiorização da UEMA e os esforços dos últimos anos para o crescimento da pós-graduação, a instituição continua com produção científica pequena e de baixo impacto.

            O painel Lattes/CNPq (2014) aponta que no ensino superior público o Maranhão possui 1.135 doutores cadastrados na plataforma Lattes, número reduzidíssimo em comparação aos 21.465 da Região Nordeste e 102.071 do Brasil. Isso nos coloca em antepenúltimo lugar em número de doutores atuando na área de pesquisa e ensino na Região Nordeste, a frente de Piauí e Alagoas.

A educação profissional e tecnológica tem sido mantida pela Rede Federal. Se por um lado, a tendência nacional e regional é a predominância da REDE ESTADUAL na oferta de Ensino Médio Integrado à Educação Profissional, no caso do Maranhão, observa-se que a REDE FEDERAL assumiu o protagonismo da oferta ante uma atuação extremamente tímida da REDE ESTADUAL. Isso confere ao Maranhão, o 6º lugar no ranking do Nordeste e o 16º lugar no ranking do Brasil. Frise-se que a diferença quantitativa de matrículas entre o Maranhão e os demais Estados em posição superior no ranking é enorme. Além disso, o Maranhão não oferece educação profissional diretamente, esse papel é praticamente da REDE FEDERAL e da REDE PRIVADA, a tal ponto que ocupa o último lugar no ranking do Nordeste e do Brasil.

Diante desse cenário, deixado pelo Governo Roseana Sarney como herança negativa, a nova gestão da SECTEC em consonância com as diretrizes do programa do governador eleito Flávio Dino, buscará em forte articulação estadual, nacional e internacional a ampliação e descentralização da oferta de educação superior e profissional por intermédio da criação do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA) e das Universidades Regionais; a promoção de um ambiente de inovação e empreendedorismo articulado com a produção científica e tecnológica, bem como, com a inclusão social e digital; a ampliação da produção científica e tecnológica, retirando o Estado dos últimos lugares no ranking nacional; duplicação do número de pesquisadores e bolsistas atendidos pela FAPEMA; duplicação do número de programas de mestrados e triplicar o número de programas de doutorado no Maranhão; consolidação e ampliação dos novos programas, contribuindo para uma produção de ciência, tecnologia e inovação sintonizadas com as prioridades do estado em termos de inclusão social, sustentabilidade ambiental e competitividade; apoio e valorização das Olimpíadas Estaduais (Matemática, Português, Física, Química, Biologia, etc); bem como, a disponibilização do incremento tecnológico necessário para o desenvolvimento das atividades econômicas peculiares ao Maranhão (babaçu, bacuri, juçara, buriti, caranguejo, etc).

Necessitaremos do apoio da sociedade e comunidade acadêmica maranhense no esforço coletivo de implantarmos efetiva Política Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação materializada em Plano Estadual de longo prazo, Fundo setorial e instrumentos legais de fomento à pesquisa e inovação para mudarmos esse quadro em bases sólidas. Não se trata somente de uma Política de Governo, mas da convicção de que o Maranhão precisa de uma Política de Estado para a área de Ciência, Tecnologia e Inovação. Eis nosso desafio para contribuir com a construção de um Maranhão desenvolvido e justo!

sábado, 20 de dezembro de 2014

O ENCONTRO DE FLÁVIO DINO

Jhonatan Almada, historiador e quadro técnico da Universidade Federal do Maranhão (UFMA)



Os historiadores continuam gostando de datas. O dia 19 de dezembro de 2014 ingressa no Calendário histórico de um Maranhão mais justo e desenvolvido com a diplomação do governador eleito Flávio Dino. É emblemático, pois simboliza a esperança da mudança, sentimento verdadeiro e genuíno naqueles e naquelas que ainda acreditam na política como instrumento de transformação social e de luta pelo bem comum do povo.

Eduardo Galeano, no livro Os Filhos dos Dias, reserva para o dia 20 de dezembro, o texto “O encontro”:
A porta estava fechada:
- Quem é?
- Sou eu.
- Não conheço você.

E a porta continuou fechada.
No dia seguinte:
- Quem é?
- Sou eu.
- Não sei quem você é.

E a porta continuou fechada.
E no outro dia:
- Quem é?
- Sou você.
E a porta se abriu.
(Do poeta persa Farid al-din Attar, nascido em 1119, na cidade de Nishapur)

Esse texto remete ao encontro do Maranhão consigo mesmo, com as maiorias heterogêneas que somente agora, após décadas de hegemonia do mesmo grupo político e frustrados movimentos de ruptura, conseguiram expressar-se com a vitoriosa eleição de Flávio Dino para o mandato de Governador do Estado.

A porta que se abre é uma oportunidade ímpar para essa geração. Convidada a assumir cargos dirigentes pelo governador, tem, com ele, a enorme responsabilidade de ser mais e fazer mais. Em tempos de crise ética infindável, possuir abnegação no exercício do cargo e compromisso com o trabalho pelo bem comum do povo torna-se indispensável para retirar o Maranhão do extravio. Não é uma premiação, mas uma honra, convite para entrar e diuturnamente justificar a confiança da designação com trabalho aplicado e dedicação. Servir, nunca servir-se.

Para além do desafio individual está o desafio de agir coletivamente guiados por um projeto comum, em boa parte presente no programa de governo de Flávio Dino. A partir de 1º de janeiro de 2015, ano do planejamento para 2016-2019, esse programa precisará se tornar plano, momento fundamental de ajustes das propostas e expectativas no encontro com a realidade, como bem diz Manoel da Conceição. O cenário fiscal ruim e as experiências pretéritas não recomendam ações isoladas e setoriais, melhorar os indicadores sociais do Maranhão, demanda ação coordenada e intersetorial mais do que nunca. Não foi mera coincidência o governador eleito Flávio Dino escrever “equipe de governo” ao anunciar secretários e titulares de autarquias e fundações.

Na medida em que as equipes do governo eleito tomam conhecimento da situação deixada pelo Governo Roseana Sarney fica cada vez mais palpável a herança negativa deixada, o que interferirá na construção do plano do novo governo, apesar de não sabermos ainda em que proporção.

Roseana não deixa legado, deixa herança e negativa. Legado é o conjunto de ideias emblemáticas que direcionam ou direcionaram a ação governamental, a qual pode ou não ser materializada em obras, mas jamais o legado se reduz a isso. A herança é mais concreta e objetiva perfaz as obras inconclusas e pagas; convênios liberados e irrealizados; precatórios pagos pelo expediente da propina; endividamento público crescente; terceirização exacerbada; contratação de empreiteiras dos amigos ou parentes; emprego de familiares e agregados; direcionamento dos editais de licitação; ausência de transparência na aplicação dos recursos públicos; usurpação de espaços públicos para fins particulares, dentre outros.

Esses são alguns elementos que permitem uma aproximação com a herança de Roseana, um dos desafios a ser enfrentado pelo governo eleito. O diálogo com a historiadora Lígia Teixeira tem nos encaminhado para o trabalho conjunto de dimensionar essa herança e construir uma narrativa fiel do recebido pelo governo eleito. Entretanto, sem disso esquecer, penso que o momento é de alegria e congraçamento, brindemos ao encontro do Maranhão consigo mesmo!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Agradecimento Prêmio Augusto Mochel para Clay Lago

Jhonatan Almada, primeiro secretário do Instituto Jackson Lago


Gostaria de parabenizar o PCdoB de São Luís na pessoa do seu presidente Márcio Jerry pela 8ª edição do Prêmio Augusto Mochel. Nessa edição, Clay Lago, presidente do Instituto Jackson Lago é homenageada. Clay tem batalhado pela afirmação do Instituto que leva o nome do saudoso Jackson Lago, quase sem recursos e contando com o apoio de meia dúzia de colaboradores, a maioria ex-integrantes do Governo Jackson. Esse pequeno grupo conseguiu realizar eventos com pessoas renomadas (Stédile, Marco Villa e Beatriz Bissio), publicar livros (Governo Jackson: o legado e a Palavra de Jackson) e revista (Revista do Instituto), bem como, organizar na sede provisória do Instituto, parte fundamental do acervo material e imaterial da vida pública de Jackson Lago.

Foi muita coisa em curto espaço de tempo (2012-2014) e é por isso, como primeiro secretário do Instituto Jackson Lago, que parabenizo e agradeço publicamente o PCdoB de São Luís. Essa homenagem é carregada de forte simbolismo e representa o reconhecimento de trabalho abnegado pela preservação do feito e da memória de Jackson. Em 2014, Dr. Jackson completaria 80 anos de nascimento, suas realizações ainda fazem eco na capital e no estado, mesmo após forte trabalho de apagamento e desmoralização patrocinados pelo grupo Sarney.

É com muita felicidade que registro ainda a iniciativa do futuro Secretário de Ciência e Tecnologia do governo eleito, deputado Bira do Pindaré, de retomar o projeto de Oscar Niemeyer, complementando a Praça Maria Aragão com espaço para a ciência, a cultura e as artes. Esse projeto foi pago pelo Governo Jackson e abandonado pelo Governo Roseana Sarney. Tenho convicção que o futuro governador Flávio Dino acolherá essa iniciativa, a qual faz justiça a dois homens públicos da história brasileira.

Parabéns, Clay Lago, pela homenagem e por não deixar cair o ramo da oliveira; abraço-a afetivamente pela conquista, sua e do Instituto Jackson Lago.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

POSFÁCIO – A ALTERNÂNCIA DO PODER NO MARANHÃO: temas de um projeto político pós-Sarney

Egberto Magno*


Sob a primeira Constituição republicana brasileira (1891) se formou um modus operandi no sistema político brasileiro baseado no predomínio do governo central em relação aos governos estaduais. Por sua vez, cabia aos governos dos estados referendarem o poder central em suas decisões político-administrativas. A presidência da República significava o grande prêmio da política do país e a viabilização deste ou daquele nome em seu comando dependia, fundamentalmente, dos acordos entre as lideranças políticas situacionistas, cujo regente era o presidente no exercício do cargo.
Desse modo, a cada quatro anos vivia-se intensa agitação política no Brasil, já que a eleição presidencial se dava nesse quadriênio. Feitos os acordos entre as elites políticas regionais, praticamente já estava selado o destino político da Nação, haja vista que os governos dos estados detinham força e poder para comandar as eleições, manipulando os resultados, para emoldurá-los aos planos traçados na fase pré-eleitoral. A contrapartida aos chefes políticos estaduais se dava com a legitimação de sua política, vale dizer, de sua relativa autonomia em relação às contendas entre as elites políticas em cada estado. 
Foi assim que se conformou a chamada Política dos Governadores.
O Brasil desse período é caracterizado, assim, pela força política dos latifundiários, ou seja, os chefes políticos nos estados. Essa dinâmica vai, ao longo das três primeiras décadas do século XX, conformando uma massa crítica no próprio seio das elites latifundiárias, pois se cristalizou o revezamento de presidentes originários de São Paulo e Minas Gerais, fase republicana conhecida como política do “Café com leite”.
Mas essa insatisfação, se por um lado significava o esgotamento de um modelo que colocava as elites políticas do nordeste como subalternas à dobradinha São Paulo-Minas Gerais, por outro, garantia a essas elites a confortável situação de, estando com o controle da máquina política estadual, manejar, ao seu sabor, as forças políticas locais, principalmente os coronéis, líderes políticos dos municípios e vilas do interior do nordeste brasileiro. Portanto, a Política dos Governadores funcionava com base na triangulação poder central-poder estadual-poder local, lógica assentada numa dinâmica econômica cuja natureza era essencialmente conservadora, já que o país manteve inalterado, por todos esses anos, o modelo agroexportador, com domínio de grandes terras sob o manto dos latifundiários, travando o liberalismo econômico, exigência das classes produtoras mais desenvolvidas do ponto de vista produtivo, vale dizer, principalmente, da já relativamente avançada indústria paulista.
É nesse contexto que aflora a necessidade de abertura burguesa na perspectiva de superação do modelo agroexportador, sendo, assim, uma exigência objetiva para o desenvolvimento das forças produtivas nacionais em contraposição a um país atrasado sob o prisma econômico, já que o latifúndio era o elemento fundamental do motor econômico e social naquela quadra.
Em boa monta, o Maranhão parou no tempo: as suas elites políticas não perceberam o quão importante era fazer com que o estado acompanhasse as mutações econômicas pós-30; a esperança de que isto viesse a ocorrer, com a eleição de José Sarney em 1965 se revelou uma furada: houve tão somente a substituição de oligarquias, mantendo-se a mesma dinâmica conservadora, patrimonialista, coronelista.
Sem cair no determinismo que impede que enxerguemos as demais nuances dos processos sociais, é incontornável dizer que o componente econômico dessa discussão aflora como (o) aspecto central, pois, “uma das urgências a ser enfrentada por esse projeto é a consolidação de outra economia para além dos grandes enclaves econômicos”.
Em grande sentido, o debate empreendido por Jhonatan Almada em “A alternância do poder no Maranhão: temas de um projeto político pós-Sarney” resgata essa trajetória da oligarquia em nosso estado. Refere-se ao grupo oligárquico como “vazio dele mesmo”, para constatar que “Nada mais contraditório do que dizer que esse projeto é pautado no planejamento, posto que a inexistência ou a efemeridade de planejamento mais lhes caracterize”.  Por outro lado, Almada lança luzes à compreensão do atual momento histórico, sobretudo em relação ao que surge das urnas com a eleição de Flavio Dino governador na eleição de 2014, instante no qual coloca a conformação de aliança das forças oposicionistas heterogêneas como fator determinante à vitória anti-oligárquica.
Como se pode perceber, Almada consegue transpor algo não muito comum no seio acadêmico, trazendo para o contexto da realidade o debate teórico: “As estratégias dos capitães hereditários do Maranhão continuam as mesmas: utilização de pesquisas manipuladas (...); busca constante de novos Reis Pacheco (...); apresentação de mais um de seus filhos na disputa eleitoral como algo legítimo e imposto pelo destino genético (...)”. Por isso a necessidade da renovação da “elite política” com novos quadros, não para manter as coisas como estão, mas para subvertê-las.
Não é exagero dizer que Michel Foucault compareceu ao texto, e o mais inusitado, ao lado de Victor Nunes Leal: depois de realçar o papel do Município como o elo central na constituição da cadeia de dominação oligárquica que impede o seu desenvolvimento social e econômico, Almada acentua que o poder da oligarquia tem no município o núcleo central a se articular com células de dominação (Aqui está Foucault e sua Microfísica do Poder). “Essa articulação institui uma prática de relação indireta com a população local baseada no vil metal (olha o Nunes Leal com o Coronelismo, enxada e voto)”.
Transpor as barreiras a um novo padrão relacional entre os entes federativos, particularmente entre o Estado e os Municípios, e o deslocamento do olhar governamental para o adensamento das cadeias produtivas fora do eixo dos “grandes projetos” na perspectiva de superação do modelo de dominação implica no envolvimento dos “agentes sociais” e no empoderamento de “novos atores”. Esse envolvimento não pode de circunscrever à retórica, pura e simples, dos movimentos sociais. É necessário, antes de tudo, que haja o desencadeamento de um processo de educação política da população: eis aqui importante postulado do autor.
No esforço por compreender a essência e o significado mais profundo que o Maranhão vive com a chegada das forças políticas anti-oligárquicas ao governo do estado, Jhonatan Almada critica certas visões que não percebem que vivemos, de fato, um agudizado momento de superação da política oligárquica e seu patrimonialismo, interpretações “que só veem mudanças intraoligárquicas ou mudanças com práticas oligárquicas”.  
Que semelhança há entre os brioches que a francesa rainha Maria Antonieta queria oferecer aos famintos que protestavam em frente ao palácio, o Baile oferecido pela Monarquia na Ilha Fiscal no Rio de Janeiro pouco antes da proclamação da República e as festas suntuosas na Casa de Veraneio e comidas requintadas do Palácio dos Leões? Revelam a insensibilidade de uma elite que, aferrada ao poder por tanto tempo, não consegue enxergar a realidade em sua volta: “A grande virada de um governo da mudança é cortar radicalmente o conjunto de luxos e privilégios (...)”.
Dois episódios recentes ilustram bem duas situações/perspectivas diferentes: depois de ter jurado fidelidade canina à presidenta Dilma Rousseff, o senador José Sarney foi pego votando em Aécio Neves. Dias depois, em entrevista ao jornalista e blogueiro da Uol, Fernando Rodrigues, o governador eleito, Flávio Dino, disse pretender fazer a revolução burguesa no Maranhão. O ato vingativo do ex-presidente expressa o esgarçamento do tipo de relação que permitiu que a família Sarney dominasse a seara política maranhense por tanto tempo, ou seja, o real entrosamento entre o poder central e os coronéis estaduais. A Revolução de 1930 iniciou a superação desse padrão de relação, mas isso não chegou ao Maranhão, daí o caráter republicano do momento atual. A entrevista de Flávio Dino deixa claro que ele pretende superar o modelo econômico de nosso estado através do desenvolvimento das forças produtivas. Está ai a chave para que entendamos melhor o alcance do que Almada diz em “A alternância do poder no Maranhão: temas de um projeto político pós-Sarney”, ao se reportar às benesses de que a oligarquia desfruta do poder público: “É mais fácil do que empreender o próprio negócio na selva capitalista ou passar em concurso público, pois sempre fica a esperança de empregarem os seus filhos no Estado ou elegerem-nos para algum mandato”. Até nisso Almada imerge em profundidade: a ética sobre a qual nos falava Max Weber, sobre o espírito do capitalismo.



* Bacharel em Direito e em História, foi da Coordenação do Programa de Governo de Flávio Dino e é dirigente do PCdoB/MA.


Posfácio do livro "A alternância do poder no Maranhão: temas de um projeto político pós-Sarney". Este livro pode ser adquirido nas seguintes livrarias virtuais:

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UMA INTRODUÇÃO ESTADO FORTE, SOCIEDADE DEPENDENTE - LIVRO "A ALTERNÂNCIA DE PODER NO MARANHÃO" DE JHONATAN ALMADA

Jhonatan Almada

O ano de 2014 foi eleitoral. Diferentes projetos foram confrontados na disputa pelo Governo do Estado no Maranhão. Somente um deles foi vitorioso, sendo que uma das urgências a ser enfrentada por esse projeto, a nosso ver, é a consolidação de outra economia para além dos grandes enclaves econômicos.
 O Maranhão já experimentou dezenas de projetos inconsistentes sob a égide da oligarquia, nenhum o desenvolveu, apenas aumentou o patrimônio dos donos do poder e usurpou o sonho de uma vida próspera e digna de muitas gerações. É importante conjugar o fazer imediato com o erigir para as novas gerações, antecipar os problemas, não resolvê-los no afogadilho. A expansão da economia dos municípios, a dinamização dessa economia, a prevalência do local/regional, dos projetos locais/regionais é que darão o ritmo, sem perder a visão do todo.
Essa perspectiva estava posta durante o Governo Jackson Lago (2007-2009) e, pela primeira vez, reorientou os investimentos públicos e privados para um maior espraiamento pelas diferentes regiões do estado, escapando da tradicional concentração em São Luís. O Fundo Maranhense de Combate à Pobreza (Fumacop) foi o instrumento criado no Governo José Reinaldo e reformulado no Governo Jackson que buscou servir a esse intento.
Claramente, as bases da reformulação realizada estavam corretas: financiar projetos de base tecnológica, produtiva e social apoiado em um conselho de gestão partilhado com a sociedade civil. Tão corretas que o Governo Roseana Sarney as ignorou e passou a utilizar o Fundo sem critérios técnicos ou sociais[1].
A atual conjuntura demanda uma retomada desse instrumento, não mais como Fundo Maranhense de Combate à Pobreza, mas como Fundo Maranhense de Desenvolvimento Econômico e Social (FMDES), exercendo um papel duplo: elaborar e financiar projetos nos municípios com os indicadores sociais mais baixos, com o objetivo de superar o quadro crítico de miséria e pobreza que lhes caracterizam.
É importante notar algo contraditório. Quando defendo o fortalecimento das economias locais sou consciente que isso implica em uma maior presença do Estado, quantitativa e qualitativa. Por outro lado, essa presença deve servir de preparação e estímulo para sua desnecessidade, sobretudo econômica. A administração pública, hoje, é a principal atividade econômica da maioria dos municípios maranhenses, conforme as inúmeras séries estatísticas do Produto Interno Bruto (PIB), publicadas pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC) em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Isso nos leva a compreender o alto grau de dependência das sociedades locais em relação às Prefeituras e ao Governo do Estado. Os dois são os maiores empregadores e consumidores. Daí que a disputa política e a oligarquização estão diretamente relacionadas à prevalência do Estado em sentido amplo como fiel da balança na vida da maioria dos maranhenses. Assim, quem controla o Estado tem enorme possibilidade de enriquecer e se manter no poder.
É justamente pela progressiva redução da força econômica do Estado nos municípios que poderemos enfrentar a problemática da ausência de alternância no poder político de forma mais consistente e permanente. Paralelamente, apoiar de forma intensiva as iniciativas locais de empreendedorismo e autonomização econômica.
Essa redução não significa que o Estado deixará de prover os serviços públicos, significa que estimulando a economia local criará condições para autonomia individual em relação ao seu peso econômico, preservando-se seu papel de provedor das políticas públicas.
O Maranhão exporta milhares de trabalhadores para outras Unidades da Federação ou o exterior próximo (Guianas) em busca de uma vida mais digna ou de dinheiro suficiente para retornar ao torrão natal ao ponto de gastar tudo e necessitar voltar de novo. São muitas as trajetórias possíveis nascidas do ciclo da borracha, da construção de Brasília, da industrialização do eixo Rio-São Paulo, do ouro da Serra Pelada ou dos canaviais de São Paulo.
Ainda não conseguimos oportunizar, mais do que convencer, aos maranhenses das novas gerações, da viabilidade do Maranhão. Não uma viabilidade midiática, mas material. O apelo do poeta Correia de Araújo “Patrícios aqui mesmo se enriquece! Basta querer e ao final de qualquer lide há pedras preciosas...”[2], permanece em busca de comprovação. 
Tendo essa realidade desafiadora como pano de fundo, desenvolvemos neste livro, algumas reflexões sobre a alternância do poder no Maranhão, a partir de temas e questões concretas que foram emergindo ao longo da participação no projeto de mudança do campo oposicionista. Esse projeto foi materializado pela candidatura de Flávio Dino, eleito governador do Maranhão dia 5 de outubro de 2014, após campanha vitoriosa e acirrada, com 63,52% dos votos válidos, totalizando 1.877.064 de votos.
As reflexões foram publicadas originalmente em nosso blog, mas escritas com a intencionalidade de comporem o presente livro, para tanto, foram organizadas em quatro capítulos. No primeiro, discorremos sobre a importância decisiva da unidade das oposições para a alternância do poder, garantindo a renovação da elite política estadual e a criação de quadros para sustentar o projeto de mudança. No segundo, apontamos alguns problemas a serem enfrentados no programa de governo desse projeto, destacando-se a problemática educacional. No terceiro, apontamos que o Estado foi transformado em privilégio de poucos tendo como principal meio de acesso, os vínculos com o grupo dominante local. No quarto, apontamos as perspectivas, expectativa e desafios para os próximos anos com a vitória de Flávio Dino nas eleições de 2014.
O Maranhão iniciará nos próximos anos um processo de transição entre o modelo oligárquico de governar e o vitorioso projeto político pós-Sarney. A transição que separa o dia da noite, esboçada no quadro de Paul Klee, o qual veste a capa deste livro, apresenta duas forças antagônicas. Ainda que não tenhamos realidade tão dual no Maranhão, penso nossa transição com similar posicionamento de forças.
Entendendo que a vitória da oposição nas eleições de 2014 sinaliza para a prevalência do dia republicano sobre a noite oligárquica, sou consciente que muitos anos serão necessários para reverter o quadro atual e consolidar nova situação. Nesse sentido, publico as reflexões deste livro enquanto contribuição ao debate por outro Maranhão.



[1] Cf. POLÍTICAS RELACIONADAS AO FUNDO DE COMBATE E ERRADICAÇÃO DA POBREZA NO BRASIL: resultados de pesquisa avaliativa. Grupo  de Avaliação e Estudo da Pobreza e de Políticas Direcionadas à Pobreza do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Maranhão, Cadernos de Pesquisa, Observatório Social e do Trabalho, n. 1, ano 2, junho 2014.
[2] CAMPOS, Humberto de. Carvalhos e Roseiras: figuras políticas e literárias. São Luís:  Café & Lápis, 2009. p. 161.


Introdução do livro "A alternância do poder no Maranhão: temas de um projeto político pós-Sarney". Este livro pode ser adquirido nas seguintes livrarias virtuais:

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APRESENTAÇÃO DO LIVRO "A ALTERNÂNCIA DO PODER NO MARANHÃO" DE JHONATAN ALMADA

APRESENTAÇÃO DO LIVRO "A ALTERNÂNCIA DO PODER NO MARANHÃO" DE JHONATAN ALMADA

Lígia Teixeira*


O trabalho que o leitor terá acesso neste compêndio é um registro fundamental sem outro congênere produzido até o momento, para compreender o complexo cenário que gestou o longo, penoso e inédito processo de alternância de poder e superação de um regime oligárquico regional tão longevo quanto este que vigora, ainda que formalmente e com os dias contados, no Maranhão.
Os historiadores da minha geração ainda devem à sociedade maranhense uma análise mais apurada das categorias que construíram a realidade política maranhense nos últimos anos. O “roseanismo” vigente há duas décadas e subproduto mais nefasto do modelo “sarneysista” de governar, foi ao mesmo tempo capaz de levar o estado à miséria e à manutenção da barbárie feudal, ao mesmo tempo em que esgotou junto à opinião pública o conceito de “oligarquia”, cujo uso extremo em discursos maniqueístas quase sempre ignorou  o  fato de que lógicas oligárquicas são também frutos de uma cultura política aristocrática das instituições e não apenas vontades unilaterais de atores políticos.
A oligarquia no Maranhão é um fenômeno histórico que se arrasta no Estado há mais de dois séculos. Não se trata, portanto, de um modelo político inventado pelo “sarneysismo”. O que torna José Sarney a face histórica mais cruel desse modelo, é o fato de que ele usurpou há meio século a vontade maranhense de superação da lógica oligárquica. Sarney prometeu ser o agente político a superá-la, mas tornou-se o agente político a aprofundá-la.
O papel das instituições, a mentalidade hermética da aristocracia política, a dependência da máquina pública, as contradições econômicas, o processo de unidade oposicionista, o papel da sociedade civil e das instituições maranhenses, são alguns dos temas tratados neste livro. Creio que a competência dissertativa de Jhonatan Almada para analisar esses processos será profundamente útil para a compreensão do sentido histórico de “oligarquização” da política e por que este momento histórico da eleição de Flávio Dino aponta para sua superação definitiva.
O estilo de Jhonatan Almada dispensa rebuscamentos terminológicos e esquematismos linguísticos tão comuns aos que se debruçam sobre a realidade do Estado na perspectiva intelectual. Nem por isso o autor abre mão do rigor e erudição ao analisar os fatos com elegância e clareza.
Jhonatan Almada produz, enfatizo, um documento cujo conteúdo ainda é raro e por isso mesmo ousado. Neste livro encontraremos subsídios para compreender com nitidez o mais recente capítulo da história política do Maranhão, tão marcado por sutilezas e complexidades nem sempre levadas à conhecimento do grande público. E se é verdade que os historiadores no mais das vezes precisam de distanciamento temporal dos fatos para melhor se debruçarem sobre eles - como é o meu caso - neste trabalho, Jhonatan Almada mostra que os historiadores, mais do que “desengavetadores” de acontecimentos empoeirados e distantes no tempo, são mesmo fascinados pelo desafio de compreender a atualidade.
Biógrafo de Ignácio Rangel, economista maranhense falecido há exatos 20 anos e reconhecido como pensador cuja estatura intelectual em sua área só é comparável no Brasil à de Celso Furtado, Jhonatan Almada é profundamente influenciado por preceitos econômicos e sociais defendidos pelo biografado. Sua vasta experiência no campo da consultoria e planejamento educacional dá a este documento o caráter de consulta preciosa aos que se interessam pelo tema, já que o autor dedica um tópico para analisar a realidade da educação do Estado, oferecendo a decantação de dados estatísticos reveladores.
Como será perceptível ao leitor, a fala autorizada de Jhonatan Almada não é construída apenas pelo acúmulo de conhecimento teórico dos temas que ele narra. Longe de entregar-se ao “silêncio dos intelectuais” refugiados nas muralhas da Academia, Almada é um militante ativo das causas nas quais acredita, colocando seus estudos à disposição dos agentes públicos. Tive o prazer de conviver com ele durante a tarefa de formulação e difusão do Programa de Governo de Flávio Dino. Suas anotações, ponderações e contribuições, sobretudo na área de educação, podem ser encontradas na versão final do Programa que encontra-se à disposição dos cidadãos maranhenses para consulta a qualquer tempo.
Sou testemunha, portanto, do esforço intelectual de Jhonatan, não apenas para elaborar um mapeamento analítico sobre a realidade do Estado, mas, sobretudo na tarefa de colocar em prática o projeto de transformação da realidade maranhense, a que ele tem se dedicado com otimismo, disciplina, fé e a generosidade que lhe são peculiares.
Por fim, a coletânea de análises compreendidas neste livro, narra a construção de um processo de alternância de poder cuja finalidade maior é resgatar dos porões da invisibilidade os sete milhões de maranhenses anônimos, até aqui condenados à pobreza, à humilhação e ao esquecimento. Almada chama a atenção para o fato de que este processo ainda exigirá o cumprimento de algumas etapas. Apesar de terem sido colocados nos estertores do poder, há ainda a permanência (infiltração) de agentes políticos oligárquicos em instituições do Estado, a exemplo do Parlamento Estadual, do Tribunal de Contas, do Tribunal de Justiça, das cadeiras senatoriais do Estado, com 2/3 ainda ocupados por membros do grupo Sarney e de tantas outras instituições maranhenses.




* Historiadora, formada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Escreve regularmente no Jornal Pequeno. 



Apresentação do livro "A alternância do poder no Maranhão: temas de um projeto político pós-Sarney". Este livro pode ser adquirido nas seguintes livrarias virtuais:

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PREFÁCIO - O MARANHÃO, AS MAIORIAS HETEROGÊNEAS E A SUA SAGA PELO DIREITO AO DESENVOLVIMENTO - DO LIVRO "A ALTERNÂNCIA DO PODER NO MARANHÃO" DE JHONATAN ALMADA

Elias Jabbour*


Foi com imensa honra, e uma ponta de orgulho, que recebi o convite de meu amigo Jhonatan Almada para prefaciar este livro. Existem coisas que tocam na alma da gente. Escrever sobre as possibilidades de desenvolvimento de uma unidade da federação como o Maranhão não é uma tarefa simples. Porém, a tendência ao simplismo é imensa. Não se trata do estado com péssimos índices econômicos e sociais, uma parte do Brasil condenada à Idade da Pedra.
Prefiro não enxergar o processo desta forma. Tenho clareza que a primeira tarefa do novo governo é não tocar adiante o Maranhão partindo do que ele contém de atraso. Sim, existe atraso. Muito atraso. Mas. Existe dinamismo. Um dinamismo expressado, também nas urnas. Um povo capaz de eleger um Flavio Dino de Castro e Costa para comandar o seu destino não pode ser um povo qualquer. É um povo especial. Um povo que expressou nas urnas as leis econômicas capazes de transformar atraso em dinamismo. Capaz de construir uma difícil transição do velho ao novo.
O destino de qualquer povo que expressa o exercício do direito ao desenvolvimento e de planificar este mesmo desenvolvimento em lugares com seus dramáticos contornos políticos. Com o Maranhão não será diferente. O velho pode cair de maduro. E sua resistência não será pequena. Neste cenário, o novo governo, ao maturar uma ampla aliança deu seu “passo um” para ter êxito: acertar na política.
Um quadro político numa teia de complexidades encerrada, tanto no Brasil quanto no Maranhão demanda compreender uma lei objetiva da política em formações sociais complexas. A base material deve ter expressão na superestrutura. Uma única força política não consegue levar adiante nem imediatos, nem tampouco estratégicos. Não tenho dúvidas que o Maranhão de Flávio Dino não é exceção do resto do Brasil.
Compreender como as coisas funcionam, de fato, demanda uma visão de processo histórico. É saber que as chamadas maiorias heterogêneas e seu significado expressa a necessidade de nos colocarmos sempre acima de nossa condição de esquerda. Desta forma trocamos o abstrato (visão ideologizada) pela abstração (visão de processo histórico). É pensar grande exercendo em último grau o exercício da inteligência. Ou percebe-se isso ou nos condenaremos à morte política. Não é comum escolher a segunda opção. Inclusive por acreditar que a oligarquia está morta. O novo está condenado a conviver com o velho. A proscrever, na política, o velho que ainda sobreviverá – sobretudo na máquina feudal do estado maranhense. Daí a noção de construção de uma difícil transição. O povo do Maranhão está apenas começando sua saga pelo direito ao desenvolvimento. Não nos iludamos.
Neste sentido, quis o Brasil que o Maranhão produzisse, na esteira do mais completo pensador brasileiro do século XX, o maranhense Ignacio Rangel, uma figura chamada Flavio Dino. Entre trabalhar com uma clara visão de processo histórico e a morte política por insuficiência de cérebro, escolheu o primeiro. Falar dele é uma honra ímpar. Trata-se de um amigo que já passou da esfera do pessoal. O conheci em minha primeira passagem por Brasília, na assessoria econômica da Presidência da Câmara dos Deputados. O que era comum a quem o conhecia há muito tempo, ficou claro a mim logo no primeiro apertar de mãos. O Dino é conhecido em seu meio. Pensamento rápido, uma impressionante capacidade de articular ideias e construir a unidade na heterogeneidade.
Homem de humanismo límpido. Humanismo este expressado na sua habilidade de transformar a dialética em algo simples. Nunca sendo simplista. Sabia, após o nosso primeiro contato, que estava diante de um gigante político e pessoal. Ser-humano de estirpe diferenciada. Longe de ser alguém letal, típico do meio. Flávio Dino, 42 anos de idade. Juiz de direito, deputado federal filho do nobre deputado Sálvio Dino, que teve seu mandato cassado pela ditadura militar. Ditadura esta, em cujos quadros de sustentação esteve o maior inimigo do progresso do Maranhão.
Flávio Dino é um “marxista cristão”, no melhor sentido que o termo pode revelar. Com uma obstinação única, colocou em suas costas o desafio de livrar o Maranhão – de uma vez por todas – das raias da miséria e da degradação política e social. Flávio Dino encarna o mesmo espírito da geração de Ignacio Rangel. Um Brasil que começava a tomar o destino em suas mãos. Como Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre, Rangel era de uma geração fascinada pelo Brasil novo que nascia com a Revolução de 1930, encabeçada pelo patriota e estadista Getúlio Vargas. A única diferença está na historicidade: Flavio Dino é expressão da Revolução Democrática iniciada por Luís Inácio Lula da Silva em 2003.
A Revolução Democrática no Maranhão começou. Li algo sobre a prioridade imediata do novo governo em trabalhar medidas profundas de corte social. Um outro golpe sobre a oligarquia, sem dúvidas. Isso deve ser apenas o começo. O Maranhão, como o próprio Brasil, necessita de um projeto estratégico capaz de ao mesmo tempo reunir toda inteligência humana possível, além de empolgar a todos com uma perspectiva mínima de futuro. E o futuro deverá ter como norte a paz, a paz social. E a paz não floresce na desigualdade e na pilhagem de uns poucos sobre a grande massa de trabalhadores. Não floresce em meio a ignorância generalizada. A paz é um imperativo do desenvolvimento e de nossa capacidade de lutar pelo direito a ter esse desenvolvimento.
Por fim, algumas palavras sobre um projeto estratégico de desenvolvimento ao Maranhão. Em primeiro lugar, devemos perceber a base de poder da oligarquia. Trata-se de uma base de poder incrustrada no seio do aparelho de Estado. A batalha neste campo é mais tortuosa. Não se trata apenas de desalojar da noite para o dia essa gente do aparelho estatal. A oligarquia só é oligarquia por ter perdido completamente o sentido da separação entre o público, o privado e o papel da pessoalidade no trato entre o poder interno. O desenvolvimento deveria ser postergado ao infinito, pois o surgimento de um empresariado local corresponderia a uma grande ameaça ao status quo reinante.
O desafio imediato é de criar condições objetivas à criação de condições ao surgimento de um ambiente propício ao investimento privado no Estado. Além disso, criar condições – também – ao surgimento de um empresário local, maranhense. E esse empresário a surgir nas entranhas da Revolução Democrática deverá ter amplo apoio de agências de fomento locais, um mínimo de crédito para tocar seus pequenos, médios e grandes negócios. O estado ao criar as condições propícias a isso, estará – na ponta do processo – dando o “beijo da mulher aranha” na oligarquia. É, na prática, um poderoso exercício de GRANDE POLÍTICA, colocar no centro do processo a criação de um ambiente propício e capaz de gerar empregos suficientes para transformar o aparelho estatal em algo única e exclusivamente voltado à administração de grandes projetos de cunho social e inclusivo.
Por fim, aqui pelas bandas cariocas, estarei torcendo pelo êxito absoluto deste novo governo. O Brasil nunca precisou de tanta luz, de ideias novas, inovações e certa contundência. A novidade sempre vem do Nordeste. E é nesta espetacular e dinâmica região do Brasil que cá estou a apostar todas as minhas fichas. “A certeza é certa”. Acredito piamente que as coisas devem se arranjar. Não partindo de uma “rebelião do desejo”. Mas, de uma ciência. Força a Flávio Dino e ao povo do Maranhão, a quem subscrevo este prefácio pela coragem e ousadia que vocês demonstraram no dia 5 de outubro último.



* Doutor e Mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP. Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado de Rio de Janeiro (FCE-UERJ) e membro do Comitê Central do PCdoB.


Prefácio do livro "A alternância do poder no Maranhão: temas de um projeto político pós-Sarney". Este livro pode ser adquirido nas seguintes livrarias virtuais:

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sábado, 15 de novembro de 2014

INTRODUÇÃO A PALAVRA DE JACKSON OU OS PROBLEMAS RECORRENTES DE SÃO LUÍS

Jhonatan Almada[2]
Organizador

O ano de 2014 está marcado por datas fundamentais para o Instituto Jackson Lago. Dia 4 de abril, 3 anos atrás, nosso patrono falecia. Dia 17 de abril, completaram-se 5 anos da cassação de seu mandato de governador em decisão que ficou registrada para a história como “golpe pela via judicial”. Dia 29 de outubro, comemoramos os 8 anos da vitória da Frente de Liberação do Maranhão no segundo turno das eleições de 2006. Dia 1º de novembro, Dr. Jackson faria 80 anos de vida.
O presente livro, por ocasião dos 80 anos de seu nascimento, dá continuidade ao nosso plano editorial, cujo primeiro livro foi “Governo Jackson: o legado”. O livro “Palavra de Jackson” é o primeiro volume de uma série que irá veicular artigos, discursos, palestras e entrevistas de nosso patrono ao longo de sua vida pública.
Os artigos deste volume explicitam o trabalho de Jackson Lago como prefeito de São Luís, cujo governo se concentrou em ações na área de saúde, educação, habitação, infraestrutura e produção. Destaca-se a oposição sistemática que enfrentou durante seus mandatos de prefeito. O grupo político dominante liderado pelo senador José Sarney e a então governadora Roseana Sarney, sua filha, atacaram-no diariamente por intermédio de seu sistema de comunicação.
Apesar do contexto de crise econômica e restrições financeiras vividas por todos os governos naquele momento, Jackson Lago conseguiu implementar louvável programa de realizações, sem qualquer apoio do Governo do Estado e respaldado amplamente no orçamento participativo. Essa perseverança e suas realizações o colocam como melhor prefeito da história de São Luís, sem dúvida.
Jackson pertencia a uma geração de homens públicos que praticamente deixou de existir. Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Abdias do Nascimento, Neiva Moreira, João Francisco dos Santos, Padre Victor Asselin, todos eles, passaram. Com o tempo e frente ao atual quadro de políticos, mais crescem suas estaturas, a fazer-nos confirmar o poeta Álvares de Azevedo e considerá-los águias nunca vencidas.
Os artigos de Jackson nos levam a questionar o que mudou e o que permaneceu como problemático em  São Luís no que tange às suas administrações na Prefeitura.
Em relação ao que mudou, identificamos os problemas relativos à infraestrutura urbana, os quais se agravaram sobremaneira. Não se trata mais de asfaltar ruas e avenidas, ainda que essa demanda continue gritante. O crescimento desordenado da cidade, o aumento significativo do número de carros e o inchaço das áreas periféricas impõem desafio difícil de ser superado. Ainda mais se considerarmos a extensão desses problemas à Região Metropolitana, cuja institucionalização nunca foi efetivada. A mobilidade urbana passou a ser o principal óbice para que a população possa usufruir o direito de ir e vir na cidade de forma confortável, rápida e segura.
Outro aspecto relevante é a carência de espaços de convivência e cultura na cidade. Essa carência tem tornado os shoppings centers em algo além de lugares de consumo e sobrecarregado as parcas áreas culturais existentes. O Centro Histórico está estagnado, sem política norteadora ou dinâmica na preservação e ocupação dos prédios, padece da falta de programa permanente de revitalização.
Mais do que um lugar de órgãos públicos, o Centro Histórico deveria abrigar um conjunto de livrarias, padarias, cafés, ateliês e oficinas de arte instaladas por intermédio de um programa de subsídios da Prefeitura e do Governo Estadual. O programa cobriria os custos de locação e adaptação dos prédios tombados, transferindo aos empreendedores locais sua utilização. Esses empreendedores pagariam alugueis subsidiados (preços inferiores aos praticados no mercado imobiliário local) com um prazo razoável de carência para o início do pagamento e acesso a outras linhas de financiamento[1].
O que permanece como problemática é a relação entre a Prefeitura e o Governo do Estado, conflitante e descoordenada. As ações estaduais privilegiam as áreas centrais ou “nobres” da cidade, onde se concentram os maiores níveis de renda e educação,
de abastecimento, saneamento, condições de moradia e de transportes, além dos equipamentos de esporte e lazer.
Se recuarmos mais ainda no tempo, mergulhando no livro “Coisa Pública: serviços públicos e cidadania” (1988), contribuição do economista e educador Raimundo Palhano, verificaremos que isso ocorre há muito.
Na capital, as camadas populares não tem acesso aos serviços públicos, privilégio do consumo privado de sua elite, desde o século XIX. A água não aplacava a sede, eram águas sórdidas; alguns eram limpos e muitos sujos, o lixo era destinado ao mar (áreas civilizadas) ou aos terrenos vazios e ruas (áreas periféricas); a rua nunca foi o salão nobre do povo, apenas as grandes vias e as da área nobre recebiam melhorias; a cidade era escura, vivia noites de breu; os burros venceram o progresso, só deixaram de puxar os bondes em meados dos anos 1920. Logo depois, os bondes foram substituídos pelos ônibus, daí por diante um grupo imovível se aboletou do transporte público municipal.
Os principais investimentos realizados pelo Governo do Estado na capital continuam atendendo a minorias. Não enfrentam os nós da mobilidade urbana, as péssimas condições de abastecimento de água da população, a urgência do tratamento de esgotos ou a precariedade da segurança pública.
O fato do mesmo grupo político ter exercido o poder no âmbito do Governo do Estado e a oposição ter governado a Prefeitura de São Luís é o pano de fundo maior que justifica, por um lado, a ampla cobertura midiática dedicada a criticar todas as iniciativas ou ausências da Prefeitura, e por outro, a explícita omissão quanto aos problemas de competência do Governo do Estado na capital.
Jackson governou São Luís por três mandatos sem contar com o apoio estadual, cada ação da Prefeitura era correspondida por um boicote estadual, inúmeras vezes solicitou audiência com a governadora e nunca foi atendido. O exemplo clássico desse boicote e embate era o asfaltamento de ruas. Logo que a Prefeitura concluía esse trabalho, o Governo do Estado por intermédio da Caema abria o asfalto com a justificativa de sanar vazamentos.
A alternância do poder político no âmbito estadual, materializado com a vitória da oposição nas eleições de 2014, pela primeira vez nos últimos 7 anos, oportunizará à Prefeitura de São Luís, relação de parceria com o Governo do Estado. A expectativa é que o desenvolvimento de ações conjuntas e coordenadas, potencializando e complementando os escassos recursos municipais, possam contribuir para o enfrentamento e a superação dos problemas recorrentes da capital.
O Instituto Jackson Lago ao publicar os escritos de nosso patrono propicia o resgate e a valorização do legado de Jackson pela permanente atualização de suas ideias, ideais e ações frente ao tempo presente.


[1] A Prefeitura de Paris (França) tem um programa similar que revitalizou áreas centrais que estavam sendo ocupadas por lojas de consumo de luxo.
[2] Primeiro Secretário do Instituto Jackson Lago. Graduado em História pela Universidade Estadual do Maranhão (Uema). Mestre em Educação pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Especialista em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).                E-mail: jhonatanalmada@gmail.com

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