quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A dualidade educacional no Maranhão, São Luís

A distância entre as escolas públicas e as escolas privadas de elite no Maranhão, sobretudo em São Luís, irão aumentar mais ainda. É o fortalecimento da velha e nunca superada dualidade educacional que separa uma escola para os ricos e uma escola para os pobres; tão conhecida por educadoras e educadores críticos.
Isso está ocorrendo em dois sentidos conexos: 1) internacionalização, com a assinatura de convênios com colleges estadunidenses e 2) ampliação do currículo, incluindo disciplinas como economia, política e oratória. E alguns "intelectuais" como Gustavo Ioschpe, da VEJA, ainda querem enxugar o currículo do ensino médio público. É pau e pedra, o fim do caminho para os oprimidos e o paraíso tropical, abençoado por Deus para as subelites maranhenses.
Enquanto isso, a SEDUC se perde nos problemas internos, acreditando com o PNUD que tudo isso é um problema de gestão, resolvível pela melhoria da gestão.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A volta dos russos

A volta dos russos no cinema americano

O cinema americano holywoodiano parece que está resgatando o principal adversário americano ao longo do século XX - o socialismo. O socialismo resgatado foi o soviético, apresentado em filmes como X-Men - Primeira Classe.

Os soviéticos não são apresentados como adversários fundamentais, como nos filmes de James Bond. As diferenças entre o sistema capitalismo (a pretensa democracia e o falso mercado livre) e o socialista (sem esquecer o stalinismo) são relembradas de forma muito sutil, apenas o pano de fundo para as peripécias mutantes.

O essencial é que em determinado momento da história o "mundo livre" esteve sob ameaça de outro sistema. Em tempos de crescente mobilização social (países árabes, Espanha e Grécia), algumas delas com bandeiras claramente socialistas, outras perdidas nas pataquadas pós-modernas, é fundamental lembrar que "apesar de tudo" o capitalismo é o melhor sistema e mesmo sob ameaça sobreviveu ao projeto de socialismo real.

A filmografia americana recente (sobretudo a dos heróis da Marvel) se esforça por rejuvenescer a imagem de sociedade ideal e exemplar pela reapresentação do passado como algo tenebroso, a ser lembrado e rejeitado. Até quando vamos engolir a hegemonia cultural norte-americana em nosso país e continente? O questionamento político até agora alimentado pelos governos progressistas latino-americanos (Venezuela, Equador, Bolívia, principalmente) não conseguiu ainda nem arranhar tal hegemonia cultural.

No Brasil ela permanece incólume.

Jhonatan Almada, historiador

domingo, 10 de julho de 2011

A farsa continua no planejamento público

A farsa continua no planejamento público

Como temos insistido em artigos anteriores, o planejamento público sob a oligarquia, no turno de Roseana Sarney, é uma farsa.
Acabo de ler em coluna do jornal oficial que os Seminários de Lideranças (é programa Seminário de Lideranças ou é Seminários Regionais de Lideranças? Creio que nem eles sabem!) a cada edição resultam em um relatório (não perguntem onde estão!) e que os secretários de Estado responsáveis pela organização estão "debruçados" sobre os tais relatórios para subsidiar a elaboração do PPA 2012-2015.

Não creio que algum Secretário realmente faça isso que a coluna descreveu, porém, vamos "dar o braço a torcer". Suponhamos que o façam. Logo depois, a coluna informa esse "projeto" (não era programa?) é "inédito". Bem, lamentavelmente não se pode esperar muito da baixa "intelectualidade" que serve a oligarquia, o máximo que conhecem de planejamento público é o que a própria progadanda informa. O trabalho de ler os últimos 70 anos de planejamento público do Estado do Maranhão seria incômodo e poderia "queimar" os parcos neurônios dos colunistas.

Esse projeto é uma cópia farsesca e trágica da experiência de planejamento público desenvolvida no Governo Jackson Lago e interrompida pela oligarquia. Não conseguem nem criar algo original, mas apenas copiar de forma deturpada.

Mesmo a informação sobre o Plano de Cargos, Carreiras e Salários, como iniciativa do Governo Roseana Sarney é falsa. Primeiro que a denominação correta é Plano de Carreira (pressupõe cargos) e Remuneração (pressupõe salários, que é apenas uma parte da remuneração). Segundo, a comissão responsável por esse trabalho foi nomeada no início de 2009 no Governo Jackson Lago e destituida pela "nova" governadora. Terceiro, não se pode elaborar um plano para os servidores públicos estaduais como um todo, sem a extinção e incorporação de todos os planos existentes. Caso não saibam, existem mais de uma dezena de planos de várias carreiras e um plano geral para as carreiras de baixa escolaridade e remuneração.

Acredito que os sindicatos dos servidores serão chamados - para serem informados das decisões, claro!. E o Estatuto do Educador? Quando irão encaminhar? Agora a desculpa talvez seja, vamos esperar a elaboração do novo plano dos servidores públicos estaduais.
Atenção servidores públicos efetivos e concursados!

Por Jhonatan Almada, historiador

A Via Expressa

A Via Expressa ou Governa-se para o centro ("bairros nobres") da capital

Vale a pena dar uma conferida nos mapas produzidos pelo Instituto de Planejamento da Cidade de São Luís.
Este trabalho apresenta um retrato muito atualizado da situação econômica, infraestrutural e social de São Luís.
O norte da capital (entorno do Calhau), algumas áreas no entorno do Centro, concentram os maiores níveis de renda e educação,
de abastecimento, saneamento, condições de moradia e de transportes. Além dos equipamentos de esporte e lazer.

Não é a toa que nessa área estão os principais órgãos do Governo Estadual. Justamente por que os ocupantes dos principais cargos do primeiro e segundo escalão residem próximo a este local. Os demais funcionários públicos de nível médio e inferior residem nos bairros mais distantes e se deslocam por intermédio do péssimo sistema público de transportes.

Se no Maranhão registra-se a concentração econômica e governamental em São Luís, em São Luís atenta-se para a concentração econômica e governamental nos bairros do entorno do Calhau e Centro.

Nenhuma ação do governo estadual toca nem de perto essa problemática. Pelo contrário, em todos os mandatos anteriores, neste não poderia ser diferente, tanto Roseana Sarney, quanto os ex-governadores sarneisistas ( como Fiquene, João Alberto, Lobão, Cafeteira), apresentam como suas principais obras, melhorias nas áreas "nobres" da capital, Projeto Reviver, Av. Litorânea, Elevados, Lagoa da Jansen, dentre outros.

Governa-se para o centro e "bairros nobres" da capital. O que não livra essas áreas da buraqueira. No entanto, comparando-se os problemas aí observados com os das regiões "periféricas", onde residem a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras dessa cidade, isso é nada.

Mais uma obra comprova essa constatação. A propagandeada Via Expressa atende exclusivamente a esses bairros "nobres". Claro, onde residem esse funcionalismo médio e superior, o "empresariado" ludovicense e a "classe média" local, os quais possuem praticamente 2 carros por moradia e formam um protoelite.

A "periferia" da capital, que estaria bem servida com corredores exclusivos para ônibus, um projeto de VLT que a ligasse as áreas onde esses trabalhadores e trabalhadoras são explorados, fica relegada. É preciso lembrar que os donos das empresas de ônibus são políticos das esferas municipal e estadual, esses, juntamente com a oligarquia, impedem qualquer progresso real e concreto.

O meio mais efetivo de resolver as dificuldades de engarrafamento e transporte da "periferia" para o centro, ou seja, o Trem de Superficie, não foi sequer cogitada. Gastarão milhões de reais para uma obra que atende ao quintal de suas casas. A propaganda da obra publicada no jornal oficial da oligarquia afirma "A Via Expressa vai melhorar a vida das pessoas", esqueceram de dizer que as pessoas são eles mesmos.

Por Jhonatan Almada, historiador

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A farsa dos Seminários de Lideranças

A farsa dos Seminários de Lideranças (remake do planejamento autoritário)

Durante o Governo Jackson Lago (2007-2009) o planejamento público no Maranhão foi democratizado, porém esse processo de democratização não foi concluído, devido ao golpe judicial perpetrado pela oligarquia Sarney, prestes a completar meio século de hegemonia por estas bandas do Brasil.

A matéria da revista Veja, sobre o Sarneyquistão não é novidade, pelo menos para os que participaram do governo referido. Tínhamos clareza a partir dos estudos técnicos de regionalização e do ciclo de estudos do Imesc da situação problemática e vínhamos implementando as estratégias de superação, entre elas e a principal, a democratização do Estado. No entanto, para os Sarney e seus asseclas errado é o IBGE! (isso é cômico e trágico)


O planejamento público foi construído por intermédio de quatro consultas populares. A primeira reuniu mais de 1.200 participantes na forma de 19 oficinas regionais adotando a metodologia do planejamento estratégico. Os participantes foram lideranças comunitárias, membros da sociedade civil, dos movimentos sociais, sendo que os representantes governamentais eram minoria. A segunda reuniu público similar na forma de 32 oficinas regionais, aperfeiçoando e redirecionando as discussões das primeiras. A terceira foram os fóruns da Sociedade Civil com o Governador, foram quatro fóruns regionais, reunindo mais de 5 mil participantes. A quarta foi a consulta com mais de 80 especialistas, intelectuais, técnicos, que construíram o planejamento de longo prazo.


Todos esses trabalhos foram publicados na forma de livros e disponibilizados na internet para acesso público e irrestrito. Eles serviram de base para a elaboração do Plano Plurianual 2008-2011, cuja vigência finda no ano em curso. Os trabalhos foram publicados nos sites institucionais do Imesc e da Seplan. Não se sabe por quanto tempo ficarão on-line para registro e memória.


O Governo Roseana Sarney (2010-2014) vem realizando algo chamado de "Seminários de Lideranças", nos quais consultam somente os prefeitos e prefeitas de cada região sobre suas demandas. A denominação já é complicada. Seminário não é, a rigor, um espaço de debates, mas sim de exposição e apresentação de palestrantes. E pelo que tem sido publicado no jornal oficial da oligarquia, alguns secretários vão palestrar para um auditório de prefeitos, e só.


As diferenças desse processo em relação ao realizado no Governo Jackson Lago são flagrantes. Primeiro, o público foi restringindo ao máximo. Só falam (se é que falam), os prefeitos e prefeitas. Ninguém dos movimentos sociais, da sociedade civil organizada, das lideranças comunitárias locais. Segundo, não possuem nenhuma metodologia de planejamento. O próprio nome do evento já diz muita coisa. Os representantes da oligarquia vão dizer aos prefeitos o que irão fazer e estes emprestam alguma legitimidade para a questionável "consulta popular" que servirá de base para a elaboração do Plano Plurianual 2012-2015. Terceiro, as estratégias e as ações já estão definidas antecipadamente (antes da consulta!) pelos iluminados da oligarquia Sarney, pretensa "elite técnica" (no máximo uma sub-elite!). Leia-se o site da Secretaria de Planejamento.


Por tudo isso, os Seminários de Lideranças são uma farsa. Não possuem participação autêntica e popular. Não possuem metodologia, no máximo slides esteticamente bem construídos no Power Point. E buscam legitimar um planejamento construído sem ouvir os sujeitos sociais envolvidos.


Como dissemos em artigos anteriores, o planejamento autoritário está de volta e agora com força total. Nunca haverá participação de fato e concreta no planejamento da oligarquia Sarney. Onde está o chamado Plano de Desenvolvimento Estrutural que propagandearam em 2009? E para que essas consultas se já lançaram no documento "O Maranhão e a nova década" tudo que irão fazer nos próximos dez anos? A história não se repete. O governo Roseana Sarney, como nos mandatos anteriores, vive em uma realidade virtual, escondendo a todo custo a realidade farsesca e trágica que lhe sustenta.

Por Jhonatan Almada, historiador.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Os equívocos do "Programa Saúde é Vida" do Maranhão

Os equívocos do "Programa Saúde é Vida" do Maranhão

A "resposta" do sr. Ricardo Murad sobre a nota publicada pela Veja quanto ao Programa Saúde é Vida não pode ser levada à sério. A nota da Veja denuncia a licitação dos hospitais, o descumprimento do prometido quando do lançamento do programa, a doação das construtoras "ganhadoras" à campanha eleitoral de Roseana Sarney e a paralisia atual das obras. O sr. Ricardo se esquiva de responder a todas essas questões e publica, juntamente com a governadora, um panfleto com fotos dos hospitais e novas promessas de prazos e entrega (http://www.youblisher.com/files/publications/23/135707/pdf.pdf).

Um ponto importante a ser destacado é que a decisão de construir os hospitais não partiu de nenhum estudo preciso das necessidades da população, das possibilidades de financiamento público e da disponibilidade de pessoal para atuar nas futuras estruturas quando entrarem em funcionamento. O conhecido "trator" passou por cima do Conselho Estadual de Saúde.

Outro ponto importante é que esse programa não tem nada de original ou único na história é apenas uma iniciativa caroneira do programa de construção de UPAs implementado pelo Governo Federal.

O terceiro ponto importante é que esse "programa" nem pode ser considerado como tal, pois não faz parte de nenhum plano global do Governo Estadual, não está articulado a um projeto estadual de desenvolvimento, aqui entendido em suas múltiplas dimensões. É tão somente uma iniciativa voluntarista, por que despreparada; oportunista, por que se apropria de uma bandeira história da oposição e a desfigura, pois não se pode pensar em saúde pública no Brasil e em boa parte dos países do mundo, ignorando a necessária regionalização dos serviços e a complexidade em termos de custos e pessoal.

Por fim, não pensemos que esse "programa" irá resolver os problemas da saúde pública do Estado do Maranhão, os quais são muito mais complexos que a mera construção de estruturas "hospitalares", como se unidade de saúde, posto de saúde e hospital fossem tudo a mesma coisa. É impressionante que o amadorismo e o voluntarismo da atual gestão da Secretaria de Saúde e do Governo Estadual ignore a existência de um Programa de Pós-graduação em Saúde Pública e outro em Políticas Públicas, na UFMA, com razoável acúmulo de estudos e pesquisas relevantes para se pensar em uma política de saúde mais concreta.

No Maranhão ainda vivemos a menoridade e não sejamos ingênuos ao acreditar que da dinastia Sarney sairá algo razoável. Os fatos comprovam cada vez mais isso. Estamos urgentemente necessitando de uma Primavera Árabe, de uma Puerta del Sol aqui.

Por Jhonatan Almada, historiador e membro da Associação Internacional para Investigação e Desenvolvimento sócio-cultural-AGIR (sede em Portugal).

terça-feira, 10 de maio de 2011

A piada da qualificação profissional no Maranhão

A piada da qualificação profissional no Maranhão


E ainda dizem que o Brasil não é mais o país da piada pronta, depois da onda de potência emergente. No entanto, parece que o Maranhão assumiu esse lugar, especialmente nesse quarto mandato da governadora Roseana Sarney. Ontem, dia 9/maio, ocorreu a aula inaugural do Plano Setorial de Qualificação Profissional (Planseq), claro que como tudo no governo estadual, especialmente próximas as eleições municipais de 2012, o evento e o programa devem se restringir a capital.

O gozado não é o fato da aula ter sido no Teatro ou o nome pomposo do plano, que se de fato existir, pelo menos enquanto documento, merece uma análise profunda. O gozado é que segundo o Secretário do Trabalho, José Antônio Heluy, esse programa irá qualificar mão-de-obra para os grandes investimentos que estão sendo implementados no Maranhão. O problema são os cursos oferecidos e, claro, para a periferia da capital: i. cuidador de idosos (talvez para cuidar dos trabalhadores com idade avançada nos canteiros das obras), ii. operador de caixa (para os supermercados que talvez sejam abertos), iii. mecânico de moto (afinal as pessoas tem que ter algum transporte para chegar ao trabalho e como carro não está ajudando), iv. borracheiro (para consertar os pneus das motos certamente), v. recepcionista (talvez atender a mão-de-obra importada que se hospedará em futuras pousadas e hotéis) e vi. empreendedor individual (um futuro Eike Batista em potencial).

Salvo engano, entre esses investimentos estão a Refinaria Premium da Petrobrás, um estaleiro, uma siderúrgica, um complexo agro-industrial, uma fábrica de celulose etc. Porém o programa não qualifica ninguém para os prováveis empregos diretos que esses investimentos irão gerar, qualifica para os improváveis empregos indiretos ou empreendimentos indiretos que poderão surgir.

É inacreditável como esse governo julga que todos nós somos idiotas ou incapazes de perceber falácias por trás de eventos teatralizados como sempre gostam de fazer. O problema é que por trás da teatralização não existe um único fundamento sólido o suficiente que possa amparar os delírios, as ilusões, as autoilusões e as promessas desse governo. Realmente estão preparando mão-de-obra para o mercado de trabalho, nunca esperemos um plano construído democraticamente que irá formar cada um e todos integralmente para o mundo da vida e do trabalho. Apesar de possuir uma Universidade Estadual razoavelmente espraiada não se menciona a expansão das vagas na educação superior nos cursos de engenharia por exemplo. Pelo visto, o maranhense pode no máximo ser um trabalhador precarizado no setor de serviços, nunca um trabalhador com alta qualificação.

Essa é a concepção de educação e de trabalho do Governo Roseana Sarney. E o mandato só termina em 2014. A greve dos educadores e educadoras continua.


Por Jhonatan Almada, historiador e membro da Associação Nacional de Política e Administração da Educação-Anpae

Confiram a notícia na integra da aula inagural clicando aqui

sexta-feira, 6 de maio de 2011

*Ainda sobre a parceria PNUD e SEDUC*

*Ainda sobre a parceria PNUD e SEDUC*

Em notícia recente divulgada no site da SEDUC, soubemos de inúmeros "avanços" na parceria com o PNUD.

Os eixos "definidos" pela consultora do "MEC/PNUD" para a educação do Maranhão, foram: gestão educacional, formação inicial e continuada de professores e profissionais de serviços educacionais, práticas pedagógicas e avaliação e infraestrutura educacional. É estranho que na revisão do PPA 2008-2011 (MARANHÃO, 2010) a SEDUC após "estudo" detalhado dos programas tenha definido como áreas prioritárias: a gestão escolar; a avaliação; a formação; a inclusão digital; e a infraestrura física das escolas. Ora , uma leitura rápida permite concluir que a consultoria não serviu para nada, apenas para nomear melhor o que já havia sido nomeado. Os técnicos fizeram novamente o que já tinham feito e para não ficar muito explícito mudaram a nomenclatura do mesmo. Aumenta o indício de que essa consultoria é apenas mais uma jogada de publicidade ao velho estilo do governo Roseana Sarney.

Outra novidade é o fato do PNUD/MEC ser uma entidade de respeito na área da educação. Primeiro o PNUD não é uma entidade e sim um programa da Organização das Nações Unidas-ONU voltado para o desenvolvimento em geral e não para a educação especificamente. Portanto, não existe a entidade PNUD/MEC. Segundo, o MEC apenas contrata por intermédio de consultoria os serviços do PNUD, sobretudo pela facilidade que essa contratação representa ao dispensar o cumprimento da Lei de Licitações e a disponibilização de consultores por indicação do próprio MEC, sem precisar de todo o demorado (e democrático) processo de concurso público.

Por fim, a visão da consultora do PNUD é que a educação pode ser conduzida pelos "técnicos" da SEDUC. Como se não existissem professores e professoras e todos os outros trabalhadores na educação, estudantes e famílias, bem como a comunidade educacional em geral. Vemos duas conclusões importantes que se depreendem dessa visão: 1) a educação é assunto exclusivo dos técnicos, os educadores no máximo podem participar da execução do que foi decidido. É a reedicação do bom e velho planejamento tecnocrático característico dessas "consultorias" e 2) as decisões em educação no Maranhão são definidas por um organismo internacional, que acredita que em três dias conseguirá não só definir "o que" tem que ser feito, mas também "como" tem que ser feito em uma realidade complexa e historicamente relegada. É claro que o "por que" é omitido.

Onde está o Plano Estadual de Educação do Maranhão?

*Por Jhonatan Almada*, historiador e membro da Associação Nacional de Política e Administração da Educação-Anpae.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A greve dos professores segundo Roseana Sarney

*A greve dos professores segundo Roseana Sarney*

"- Essa greve não tem sentido, pois já foi decretada ilegal pelo Tribunal de Justiça do Maranhão e pelo Supremo Tribunal Federal. O piso dos professores na hora que tiver decretado, estabelecido pelo Supremo, nós não temos dúvidas, somos a favor do piso e iremos implantá-lo imediatamente. Agora, queremos uma contrapartida por parte dos professores. Nós damos os melhores salários e queremos as melhores notas. O que adianta oferecermos os melhores salários se nós temos os piores indicadores sociais na área de educação no Maranhão, de acordo com dados testes do Ministério da Educação. Então, acho que temos que nos preocupar com as duas coisas e é o que estamos fazendo. Estamos mantendo a parceria com a consultoria do PNUD, que já esteve conosco por três meses e com certeza vai nos ajudar a melhorar essa área de educação
. Agora, tem que haver o empenho dos professores e do governo. Tem que ter prioridade e é o que nós estamos dando. Eu faço um apelo para os professores para que retornem às salas de aulas, pois estão prejudicando os alunos. Vamos conversar. Ninguém deixou de conversar. Agora, [eles] fazendo greve não tem conversa, porque foi decretada a ilegalidade. Voltando à escola, a gente conversa, pois o governo é democrático, que sempre esteve aberto ao diálogo, sempre conversou com a população e quer continuar conversando. O que se quer é o bem do povo do Maranhão. O governo não está nem de um lado e nem de outro - *esclareceu.*" Disponível em:
http://imirante.globo.com/noticias/2011/04/28/pagina272615.shtml.

Essa fala confusa e estarrecedora é da governadora do Estado do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB-MA), reeleita em 2010, após o golpe judicial de 2009 que depôs o governador Jackson Lago (recentemente falecido). Essa fala apresenta três equívocos centrais quanto a greve dos professores e professoras do Estado.

O primeiro é atribuir a validade do Piso Salarial Profissional Nacional a publicação da decisão do Supremo Tribunal Federal-STF. Ora a Lei N. 11.738<http://www.planalto.gov.br/ccivil/_ato2007-2010/2008/lei/l11738.htm>, de 16 de junho de 2008, que instituiu o piso estabeleceu a data de 1º de janeiro de 2009 para a implantação de 2/3 do piso e 1º de janeiro de 2010 para integralização do valor. Justamente, os meses cruciais em que o Governo Jackson Lago foi deposto. Quando Roseana Sarney assumiu, juntamente com os três secretários que já passaram pela SEDUC, ignoraram o cumprimento da lei e jogaram a culpa para o STF, sendo que o Estado do Maranhão não fazia parte dos Estados que questionaram a referida lei (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Ceará).

O segundo é relacionar melhoria salarial (sempre incapaz de repor as perdas com a inflação e nunca acima dela) com melhoria dos indicadores educacionais. Se salário estivesse relacionado com desempenho, os juízes, ministros e desembargadores dos Tribunais Superiores prestariam o melhor serviço público no Brasil e no mundo, Todos nós sabemos que isso não ocorre, nem por isso seus salários são majorados. Essa opinião se justifica pelo fato da governadora não entender nada de educação, muito menos a Secretária de Educação que lhe assessora, tanto que precisa do PNUD para lhe ensinar a acessar o site do Inep/MEC e lhe mostrar o que dizem as estatísticas sobre a realidade educacional estadual. O "melhor salário do Brasil" não significa que o professor e a professora do Maranhão ganham melhor, mas que os professores em geral ganham muito mal. Todas as pesquisas PNAD do IBGE comprovam que entre os profissionais com nível superior o professor é o que tem a menor remuneração, mesmo os professores universitários. Ora, mas de quem não consegue acessar o site do Inep não é possível exigir que conheça ou compreenda estudos e pesquisas sobre remuneração.

Vale a pena que os educadores e educadoras do Estado do Maranhão façam uma "vaquinha" e comprem os livros básicos sobre fundamentos da educação, geralmente lidos nos primeiros períodos das licenciaturas e enviem para a governadora e sua secretária. Talvez a partir dessa leitura entendam (a capacidade de aprender é inerente ao ser humano) que a educação é um fenômeno complexo que exige não só salários, mas fundamentalmente condições de trabalho, estrutura física e material nas escolas, alimentação dos alunos, condições dignas de permanência e continuidade dos estudos, dentre inúmeros outros fatores.

O último equívoco é confuntir legalidade com justiça. A greve está para além do direito e da lei, ambos construções humanas e que devem estar a serviço da humanização. No momento em que o direito e a lei servem para justificar a perseguição dos trabalhadores e trabalhadoras ela perde a sua máscara de igualação de todos, de que estaria a serviço de todos e se revela límpida e claramente a serviço de quem está no poder, nunca ao lado do povo.

*Por Jhonatan Almada*, historiador e membro da Associação Nacional de Política e Administração da Educação-Anpae.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sobre a parceria PNUD e SEDUC

Sobre a parceria PNUD e SEDUC no Maranhão


Não causa surpresa que a SEDUC e o governo do Estado do Maranhão, reconhecendo sua incompetência, mais uma vez busque auxílio fora do Estado para resolver os problemas educacionais históricos de nossa realidade. Ao firmar parceria com o PNUD-Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, ligado a ONU-Organização das Nações Unidas, a incompetência da atual gestão frente a SEDUC é formal e explicitamente reconhecida.

É sabido que temos mais de vinte anos de estatísticas educacionais produzidas pelo Ministério da Educação, por intermédio do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais-Inep e pelo IBGE, formando considerável série histórica sucetível de análises por qualquer um que possa se dedicar um pouco a coligir os dados, constituir as séries e analisá-las. É surpreendente que a SEDUC não consiga fazer uma operação tão simplória tendo centenas de funcionários, entre técnicos e professores. Importante dizer que a maioria deles é comissionado e sem vínculo orgânico com as políticas educacionais, boa parte nomeados pela governadora Roseana Sarney na sua já longa gestão (2 anos, contando de abril de 2009, quando ocorreu o golpe judicial contra o Dr. Jackson Lago).

Além da incompetência reconhecida publicamente, observamos também a ignorância do Governo quanto a duas temáticas fundamentais na educação pública contemporânea. A primeira é a necessidade de constituir uma carreira efetiva para os trabalhadores na educação (técnicos e professores). O Governo do Estado não admite a aprovação do Estatuto do Educador. Excluiu tanto do PPA 2008-2011 quanto da lei orçamentária quaisquer referências sobre o assunto. A segunda é o Plano Estadual de Educação-PEE. Os educadores e educadoras do Maranhão já se reuniram e discutiram amplamente os principais problemas da educação maranhense na Conferência Estadual de Educação, realizada em 2008. O documento final dessa Conferência deveria ter sido encaminhado pela SEDUC como projeto de lei à ser apreciado, discutido e votado pela Assembléia Legislativa do Estado.

A ignorância, no sentido do desconhecimento, fica patente quando o Governo do Estado e sua SEDUC ignoram essas duas questões fundantes para se repensar a educação no Maranhão. No seu lugar temos a reafirmação do paternalismo (ou seria maternalismo?) da governadora em relação a um diagnóstico risível, cuja única preocupação é a melhoria dos indicadores educacionais. Como nem a governadora, nem a secretária, entendem de educação, somos obrigados a assistir o escamoteamento e redução dos problemas educacionais aos indicadores existentes, os quais não dão conta da totalidade da realidade. Fica claro que a SEDUC, ao não possuir um quadro técnico-profissional concursado, pois só realiza concurso para professores (sempre abaixo da demanda existente), é incapaz de assumir a coordenação de uma política educacional estadual, se houvesse uma.

Todos nós que estudamos as estratégias da oligarquia (ou seria dinastia?) Sarney, sabemos que uma das mais cansadas é a do eterno presente fundacional. Eles estão sempre reiniciando a história, fundando a história, o "novo", o "marco". Incapazes de tratar a história como totalidade, se fixam no eterno presente que está sempre sujeito aos seus reiterados "atos fundadores" e "marcos zeros". São incapazes de pensar políticas de Estado, estão sempre expressando "políticas" de Governo, quando muito, pois o que prevalece é a improvisação midiática. Um exemplo cômico da atual gestão da SEDUC é seu conceito de planejamento educacional, reduzido a fixação do calendário escolar, vide a propaganda no site da Secretaria - "o governo planejou a educação, para que todos possam se planejar melhor". O planejamento educacional é o instrumento de mediação entre a política e a administração da educação, portanto implica numa articulação entre essas três dimensões. Lamentavelmente, observamos que a educação no Maranhão não possui nem política, nem planejamento e muito menos administração.


Por Jhonatan Almada, historiador e membro da Associação Nacional de Política e Administração da Educação-ANPAE.

Para ver a notícia click aqui

sábado, 23 de abril de 2011

Elogio de Marx

Elogio de Marx

Posted by Anaclet Pons en abril 15, 2011

Por Terry Eagleton (The Chronicle Review, 10/04/2011):

Alabar a Karl Marx puede parecer tan perverso como dedicarle una   palabra amable al estrangulador de Boston. ¿No eran las ideas de Marx responsables de despotismo,  asesinato en masa, campos de trabajo, catástrofe económica y pérdida de libertad para millones de hombres y mujeres? ¿No fue uno de sus devotos discípulos un campesino georgiano paranoide de nombre Stalin, y no hubo otro que fue un brutal dictador chino que bien puede haber teñido sus manos con la sangre de unos 30 millones de personas?

La verdad es que Marx no fue más responsable de la opresión monstruosa del mundo comunista de lo que lo fue Jesús de la Inquisición. Por un lado, Marx habría despreciado la idea de que el socialismo pudiera echar raíces en sociedades atrasadas, de una pobreza desesperada y crónica, como Rusia y China. Si así fuera, entonces el resultado sería simplemente lo que él llamó "la escasez generalizada", lo que quiere decir que todo el mundo estaría privado, no sólo los pobres. Esto significaría volver a "toda la porquería anterior" -o, con una traducción menos fina, a "la mierda de siempre".  El marxismo es una teoría de cómo las adineradas naciones capitalistas podrían utilizar sus inmensos recursos para lograr la justicia y la prosperidad para sus pueblos. No es un programa por el cual naciones carentes de recursos materiales, de una cultura cívica floreciente, de un patrimonio democrático, de una tecnología bien desarrollada, de  tradiciones liberales ilustradas y de una mano de obra educada y cualificada puedan catapultarse a sí mismas a la era moderna.

["de otra parte, este desarrollo de las fuerzas productivas (que entraña ya, al misma tiempo, una existencia empírica dada en un plano histórico-universal, y no en la existencia puramente local de los hombres) constituye también una premisa práctica absolutamente necesaria, porque sin ella sólo se generalizaría la escasez y, por tanto, con la pobreza, comenzaría de nuevo, a la par, la lucha por lo indispensable y se recaería necesariamente en toda la porquería anterior". La ideología alemana]

Marx sin duda quería ver prosperar la justicia y la prosperidad en tales lugares. Escribió con rabia y con elocuencia acerca de varias de las oprimidas colonias de Gran Bretaña, y no menos de Irlanda y de la India. Y el movimiento político que su trabajo puso en marcha ha hecho más para ayudar a las naciones pequeñas a deshacerse de sus amos imperialistas que cualquier otra corriente política. Sin embargo, Marx no era tan incauto como para imaginar que el socialismo se pudiera construir en esos países sin que las naciones más avanzadas les prestaran su ayuda. Y eso significaba que la gente común de los países avanzados tenían que arrancar los medios de producción de manos de sus gobernantes y ponerlos al servicio de los condenados de la tierra. Si esto hubiera sucedido en la Irlanda del siglo XIX, no habría habido el hambre que envió a un millón de hombres y mujeres a la tumba y a otros dos o tres millones hasta los confines de la tierra.

Hay un sentido en el que el conjunto de los escritos de Marx se pueden resumir en varias preguntas embarazosas: ¿Por qué el Occidente capitalista ha acumulado más recursos de los que jamás hemos visto en la historia humana y, sin embargo, parece incapaz de superar la pobreza, el hambre, la explotación y la desigualdad? ¿Cuáles son los mecanismos por los cuales la riqueza de una minoría parece engendrar miseria e indignidad para la mayoría? ¿Por qué la riqueza privada parecen ir de la mano con la miseria pública? ¿Es, como sugieren los reformistas liberales de buen corazón, que no hemos conseguido eliminar estas bolsas de miseria humana, pero que lo haremos con el paso del tiempo? ¿O es más plausible sostener que hay algo en la naturaleza del capitalismo que genera  privación y desigualdad, tan cierto como que Charlie Sheen genera chismes?

Marx fue el primer pensador en hablar en esos términos. Este desarrapado exiliado judio, un hombre que una vez comentó que nadie había escrito tanto sobre el dinero y tenía tan poco, nos legó el lenguaje con el que el sistema en que vivimos puede ser entendido como un todo. Sus contradicciones fueron analizadas, su dinámica interior dejada al descubierto, sus orígenes históricos examinados  y su potencial caída anunciada. Esto no quiere decir que Marx considerara al capitalismo simplemente como una Mala Cosa, como admirar a Sarah Palin o echar el humo del tabaco a la cara de los niños. Por el contrario, era extravagante en su alabanza de la clase que lo creó, un hecho que tanto sus críticos como sus discípulos han disimulado convenientemente. No hay sistema social en la historia, escribió, que haya demostrado ser tan revolucionario. En un puñado de siglos, las burguesías (middle classes) capitalistas habían borrado de la faz de la tierra casi todo el rastro de sus enemigos feudales. Habían acumulado tesoros materiales y culturales, inventado los derechos humanos, emancipado a los esclavos, derrocado a los autócratas, desmantelado los imperios, lucharon y murieron por la libertad humana, y sentaron las bases de una civilización verdaderamente global. Ningún documento prodiga elogios tales como ese histórico y poderoso logro que es El Manifiesto Comunista , ni siquiera el Wall Street Journal.

Eso, sin embargo, fue sólo una parte de la historia. Hay quienes ven la historia moderna como un relato apasionante de progreso, y quienes lo ven como una larga pesadilla. Marx, con su perversidad habitual, pensó que era ambas cosas. Cada avance de la civilización ha traído consigo nuevas posibilidades de  barbarie. Los lemas de la gran revolución burguesa (middle-class), "Libertad, Igualdad, Fraternidad", fueron también sus consignas. Él simplemente se preguntó por qué esas ideas no podrían ponerse en práctica sin violencia, pobreza y explotación. El capitalismo había desarrollado energías y capacidades humanas más allá de toda medida anterior. Sin embargo, no había utilizado esas capacidades para hacer que los hombres y mujeres se  liberaran de la fatiga inútil. Por el contrario, se los había forzado a trabajar más duro que nunca. En las civilizaciones más ricas de la tierra se padecía tanto como en sus antepasadas ​​del Neolítico.

Esto, consideraba Marx, no era debido a la escasez natural. Se debía a la forma peculiarmente contradictoria en la que el sistema capitalista genera sus fabulosas riquezas. Igualdad para algunos significa desigualdad de los demás, y libertad para algunos supone opresión e infelicidad para muchos. La voracidad del sistema a la búsqueda de poder y beneficio había convertido las naciones extranjeras en colonias esclavizadas, y a los seres humanos en juguetes de las fuerzas económicas más allá de su control. Había asolado el planeta con la contaminación y la hambruna masiva, y cicatrizado con guerras atroces. Algunos críticos de de Marx señalan con razón la atrocidad de los asesinatos en masa en la Rusia y la China comunistas. No suelen recordar con idéntica indignación los crímenes genocidas del capitalismo: las hambrunas de finales del siglo XIX en Asia y África en los que murieron muchos millones de personas; la carnicería de la Primera Guerra Mundial, en la que las naciones imperialistas masacraron a sus propios trabajadores en la lucha por los recursos mundiales; y los horrores del fascismo, un régimen al que el capitalismo tiende a recurrir cuando su espalda está contra la pared. Sin el sacrificio de la Unión Soviética, entre otras naciones, el régimen nazi aún podría estar incólume.

Los marxistas alertaron de los peligros del fascismo mientras los políticos del llamado mundo libre seguían preguntándose en voz alta si Hitler era un tipo tan desagradable como lo pintaban. Casi todos los seguidores actuales de Marx rechazan las villanías de Stalin y de Mao, mientras que muchos no-marxistas seguirían defendiendo enérgicamente la destrucción de Dresde o Hiroshima. Las modernas naciones capitalistas son en su mayor parte fruto de una historia de genocidio, violencia y exterminio igual de detestables que los crímenes del comunismo. El capitalismo también fue forjado con sangre y lágrimas, y Marx estuvo allí para presenciarlo. Es sólo que el sistema ha estado funcionando  el tiempo suficiente para que la mayoría de nosotros olvidemos ese hecho.

La selectividad de la memoria política tiene algunas curiosas formas. Tomemos, por ejemplo, el 11/S. Me refiero al primer 11/S, no al segundo. Me refiero al 11/S que tuvo lugar exactamente 30 años antes de la caída del World Trade Center, cuando los Estados Unidos ayudaron a derrocar al gobierno democráticamente elegido de Salvador Allende en Chile,  instalando en su lugar a un dictador odioso que asesinó muchas más personas de las que murieron en ese terrible día en Nueva York y Washington. ¿Cuántos estadounidenses son conscientes de ello? ¿Cuántas veces ha sido mencionado en Fox News?

Marx no era un soñador utópico. Por el contrario, comenzó su carrera política peleando ferozmente con los utópicos soñadores que le rodeaban. Tenía tanto interés en una sociedad humana perfecta como lo pueda tener un personaje de Clint Eastwood, y nunca habló de forrma tan absurda. No creía que hombres y  mujeres pudieran superar al Arcángel Gabriel en santidad. Por el contrario, creía factible que el mundo pudiera convertirse en un lugar considerablemente mejor. En eso fue un realista, no un idealista. Quienes de verdad esconden la cabeza -la moral de avestruz de este mundo-  son aquellos que niegan que no puede haber ningún cambio radical. Se comportan como si Padre de familia y la pasta dentífrica multicolor fuera a seguir existiendo en el año 4000. Toda la historia de la humanidad refuta este punto de vista.

El cambio radical, sin duda, puede no ser para mejor. Tal vez el único socialismo que veamos  sea uno impuesto a un puñado de seres humanos que puedan escabullirse de algún holocausto nuclear o de un desastre ecológico. Marx habla incluso agriamente de la posible "mutua ruina de todos los pardidos". Un hombre que fue testigo de los horrores de la Inglaterra industrial-capitalista era poco probable que albergara presunciones idealistas acerca de sus congéneres. Todo lo que quería decir es que hay recursos más que suficientes en el planeta para resolver la mayoría de nuestros problemas materiales, así como que había comida más que suficiente en Gran Bretaña en la década de 1840 para alimentar a la hambrienta población irlandesa varias veces. Es la manera en que organizamos  la producción lo que es crucial. Notoriamente, Marx no nos proporcionó un plan sobre cómo hacer las cosas de forma diferente. Es bien sabido que  tiene poco que decir sobre el futuro. La única imagen del futuro es el fracaso del presente. No es un profeta en el sentido de mirar en una bola de cristal. Es un profeta en el sentido bíblico de alguien que nos advierte de que, a menos que cambiemos nuestras injustas maneras, es probable que el futuro sea muy desagradable. O que no haya futuro en absoluto.

El socialismo, pues, no depende de un cambio milagroso en la naturaleza humana. Algunos de los que defiendieron el feudalismo contra los valores capitalistas en la Baja Edad Media predicaban que el capitalismo nunca funcionaría, ya que era contrario a la naturaleza humana. Algunos capitalistas ahora dicen lo mismo sobre el socialismo. Sin duda hay una tribu en algún lugar de la cuenca del Amazonas que cree que no puede sobrevivir un orden social donde un hombre puede casarse con la mujer de su hermano fallecido. Todos tendemos a absolutizar nuestras propias condiciones. El socialismo no ahuyentaría la rivalidad, la envidia, la agresión, la posesividad, la dominación y la competencia. El mundo todavía mantendría su ración de matones, tramposos, vividores, oportunistas y psicópatas ocasionales. Es sólo que la rivalidad, la agresión y la competencia ya no adquirirían la forma de ciertos banqueros quejándose de que sus bonos se han reducido a un unos miserables 5 millones de dólares, mientras que millones de personas en todo el mundo luchan por sobrevivir con menos de 2 dólares al día.

Marx fue un pensador profundamente moral. Habla en El Manifiesto Comunista de un mundo en el que "el libre desarrollo de cada uno condicione el libre desarrollo de todos".  Este es un ideal para guiarnos, no una condición que podamos alcanzar nunca del todo. Pero su lenguaje es sin embargo significativo. Como buen humanista romántico, Marx creía en la singularidad del individuo. La idea impregna sus escritos de principio a fin. Tenía pasión por lo sensualmete específico y aversión a las ideas abstractas, a pesar de lo ocasionalmente necesarias que pensaba que podrían ser. Su llamado materialismo está enla raíz  del cuerpo humano. Una y otra vez, habla de la sociedad justa como aquella en la que hombres y mujeres sean capaces de realizar sus poderes y capacidades distintivos en sus propias formas distintivas. Su objetivo moral es la autorrealización placentera. En esto se une a su gran mentor Aristóteles, que entiende que la moralidad trata de cómo florecer más rica y agradablemente, y no ante todo (como la edad moderna desastrosamente imagina) sobre las leyes, derechos, obligaciones y responsabilidades.

¿Cómo este objetivo moral difiere del individualismo liberal? La diferencia es que, para lograr la verdadera realización personal, Marx cree que los seres humanos deben encontrarla en los otros,  los unos a través de los otros. No es sólo una cuestión de que cada uno haga sus propias cosas aislado de los demás. Lo que ni siquiera sería posible. El otro debe ser el terreno de nuestra propia realización, al mismo tiempo que él o ella nos proporcionan nuestra misma condición. A nivel interpersonal, es lo que se conoce como amor. En el plano político, se lo conoce como socialismo. El socialismo para Marx sería simplemente cualquier conjunto de instituciones que permitieran que esta reciprocidad ocurriera en la mayor medida posible. Piénsese en la diferencia entre una empresa capitalista, en la que la mayoría trabaja para el beneficio de unos pocos, y una cooperativa socialista, en la que mi propia participación en el proyecto aumenta el bienestar de todos los demás, y viceversa. No se trata de que haya un santo autosacrificio. El proceso está integrado en la estructura de la institución.

El objetivo de Marx es el ocio, no el trabajo. La mejor razón para ser un socialista, excepto para los pesados a los que sucede que no les gusta, es que detestas tener que trabajar. Marx pensaba que el capitalismo había desarrollado las fuerzas productivas hasta el punto de que, bajo relaciones sociales diferentes, podrían ser utilizadas para emancipar a la mayoría de hombres y mujeres de las formas más degradantes de trabajo. ¿Qué pensaba que íbamos a hacer entonces? Lo que quisiéramos. Si, como el gran socialista irlandés Oscar Wilde, optamos simplemente por estar todo el día echados, con vaporosas prendas carmesí, bebiendo absenta y leyéndonos las páginas impares de Homero uno a otro, entonces que así sea. La cuestión, sin embargo, era que este tipo de actividad libre tenía que estar disponible para todos. Nosotros ya no toleraríamos una situación en la que la minoría tuviera tiempo de ocio porque la mayoría tuviera que trabajar.

Lo que interesaba a Marx, en otras palabras, era lo que un poco engañosamente se podría llamar lo espiritual, no lo material. Si las condiciones materiales tuvieran que ser cambiadas, que lo fueran para liberarnos de la tiranía de lo económico. Él mismo era asombrosamente muy leído en literatura mundial, le encantaba el arte, la cultura y la conversación civilizada, se deleitaba con el ingenio, las comicidad y el buen humor, y una vez fue perseguido por un policía por romper una farola en el transcurso de una juerga. Era, por supuesto, ateo, pero no hay que ser religioso para ser espiritual. Fue uno de los muchos y grandes herejes judíos, y su obra está saturada de los grandes temas del judaísmo, como la justicia, la emancipación, el Día del Juicio, el reinado de paz y abundancia, la redención de los pobres.

¿Qué hay, pues, del pavoroso Día del Juicio final? ¿No preveía Marx que la humanidad requeriría una revolución sangrienta? No necesariamente. Pensaba que algunos países, como Gran Bretaña, Holanda y los Estados Unidos, podrían alcanzar el socialismo en paz. Si bien era un revolucionario, era también un vigoroso campeón de la reforma. En cualquier caso, cuando las personas dicen que se oponen a la revolución por lo general eso significa que les disgustan ciertas revoluciones, y otras no. ¿Son los estadounidenses antirrevolucionarios hostiles a la Revolución Americana como lo son a la cubana? ¿Se frotan las manos con las insurrecciones recientes de Egipto y Libia, o con las que derribaron las potencias coloniales en Asia y África? Nosotros mismos somos productos de levantamientos revolucionarios ocurridos en el pasado. Algunos procesos de reforma han sido mucho más sangrientos que algunos actos revolucionarios. Hay tantas revoluciones de terciopelo como violentas. La Revolución Bolchevique se llevó a cabo con escasas pérdidas humanas.  La Unión Soviética que engendró cayó unos 70 años más tarde, sin apenas derramamiento de sangre.

Algunos críticos de Marx rechazan una sociedad dominada por el Estado. Y así lo pensaba él. Detestaba la política de Estado tanto como le disgusta al Tea Party, aunque por razones bastante menos chuscas. ¿Fue, podrían preguntar las feministas, un patriarca victoriano? Por supuesto. Pero como algunos comentaristas (no marxistas) modernos han señalado,  fueron los hombres del mundo socialista y comunista, hasta el resurgimiento del movimiento de las mujeres en la década de 1960, los que consideraron que la cuestión de la igualdad de la mujer era vital para otras formas de liberación política. La palabra "proletariado"  se refiere a los que en la sociedad antigua eran demasiado pobres para servir al Estado con otra cosa que no fuera el fruto de su vientre. "Proletarios" significa "descendientes". Hoy en día, en los talleres y en las pequeñas granjas del tercer mundo, el típico proletario sigue siendo una mujer.

Lo mismo ocurre con las cuestiones étnicas. En las década de 1920 y 1930, prácticamente los únicos hombres y mujeres que predicaban la igualdad racial eran comunistas. La mayoría de los movimientos anticoloniales fueron inspirados por el marxismo. El pensador antisocialista Ludwig von Mises describe el socialismo como "el movimiento de reforma más potente que la historia haya conocido jamás, la primera tendencia ideológica no limitada a una parte de la humanidad, sino respaldada por gente de todas las razas, naciones, religiones y civilizaciones". Marx, que conocía su historia un poco mejor, podría haberle recordado a von Mises el cristianismo, pero la cuestión sigue siendo contundente. En cuanto al medio ambiente, Marx prefigura asombrosamente nuestra propia política verde. La naturaleza, y la necesidad de considerarla como aliada en lugar de antagonista, era una de sus preocupaciones constantes.

¿Por qué podría Marx volver a estar en nuestras preocupaciones? Irónicamente, la respuesta es:  por el capitalismo. Cada vez que uno oye hablar a los capitalistas sobre el capitalismo, uno sabe que el sistema tiene problemas. Por lo general, prefieren un término más anodino, como el de "libre empresa". Las crisis financieras recientes nos han obligado una vez más a pensar la organización en la que vivimos como un todo, y fue Marx quien primero lo hizo posible. Fue El Manifiesto Comunista el que predijo que el capitalismo se convertiría en mundial, y que sus desigualdades se agudizarían gravemente. ¿Tiene su trabajo algún defecto? Cientos. Pero es un pensador demasiado creativo y original para ser reducido a los vulgares estereotipos de sus enemigos.

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terça-feira, 19 de abril de 2011

O desenvolvimento segundo Roseana

O desenvolvimento segundo Roseana


Foi lançado recentemente no site do Governo do Estado do Maranhão, o documento "Maranhão e a nova década", que representa o fim da possibilidade de outro modelo de desenvolvimento mais sustentável para nosso Estado, aberta no governo Jackson Lago (2007-2009).


"Maranhão e a nova década", acessível no link http://www.ma.gov.br/servicos/index.php?Id=15139


"Maranhão e a nova década" é uma cópia mal feita e incompleta do documento "Planejamento Estratégico Governamental", do Governo Jackson Lago. Mal feita por que excluiu o contexto social e manteve apenas o contexto econômico. Abstraiu dos problemas maranhenses a questão social tão conhecida e colocou em seu lugar uma carteira de investimentos privados que chegarão ou estão em andamento no Estado. Também é uma cópia mal feita por que se apropria da trabalhosa articulação desses investimentos, feito no governo anterior, e a apresenta como sua – um exemplo inédito de apropriação pública do privado. Outro elemento curioso é que ninguém assume a autoria do documento, não aparece o nome do elaborador, podemos dizer que foi o Governo do Estado, por estar disponibilizado no site institucional e pelas inúmeras menções a este no seu conteúdo.


O documento é incompleto por que se sabe que qualquer planejamento estratégico parte do enfrentamento dos problemas, os quais devem abranger o maior número possível de dimensões da realidade e considera os opositores. De fato, a realidade é apresentada apenas pelo aspecto econômico e como algo estático, parece que ela está congelada e que não existem opositores ou mesmo a possibilidade do planejado não ser cumprido. Somente a confiança na força do Pai pode explicar tal coisa.

Além da visão empobrecida da realidade social, também possui uma visão limitadora do desenvolvimento, este é entendido como mero crescimento econômico, complementado pelo combate a pobreza e pela qualificação de mão-de-obra. Algo que nem mesmo os neoliberais mais ranzinzas defendem atualmente. De fato parece que o Governo Roseana Sarney ainda pensa que o presidente do Brasil é Fernando Henrique Cardoso e que estamos sob a égide do neoliberalismo dos anos 1990.


A ação do Estado, toda ela (e as políticas públicas, sobretudo as educacionais) aparece vinculada ou posta em função dos investimentos privados que provavelmente virão ou estão em andamento, limitando as possibilidades educacionais dos maranhenses ao preparo de mão-de-obra. É sintomático que quando menciona a agricultura familiar, propõe tudo, menos formação, crédito e assistência técnica, justamente no setor que possui a maior faixa da população econômica ativa.


Por fim, o documento repete estratégias pretéritas de divulgação do Estado (O Maranhão e suas riquezas, de Eurico Teles de Macedo), concebendo seu desenvolvimento como a capacidade de atrair investimentos e não como capacidade de gerar seu desenvolvimento, o tom ufanista prevalece sobre a dinâmica de crises permanentes do sistema capitalista, quadro em que o Maranhão tem uma inserção periférica e precária. Tal como os grandes projetos dos anos 1980, novamente, a velha e repetitiva oligarquia atribui a resolução de nossos problemas em curto prazo ao grande capital.


Nesse contexto, poderia ser risível, mas é trágico, que o Secretário de Indústria e Comércio, comemore que São Luís terá "o maior crescimento econômico do mundo", ora esse crescimento já ocorre desde a década de 1960 e as conseqüências dele estão na violência, na exploração sexual, na favelização, no trânsito infernal, no analfabetismo, no êxodo rural, na concentração econômica e na centralização da administração e dos recursos públicos na capital. Não sei se o Secretário faltou as aulas de economia política e de história, mas esse modelo de desenvolvimento nos quadros do sistema capitalismo nunca gerou, nem gerará, sustentabilidade, igualdade, liberdade e fraternidade.


Pelo menos uma coisa é digna de comemoração. Ninguém no Governo Roseana Sarney teve a coragem de nominar o "Maranhão e a nova década" como planejamento. Na verdade é mais uma peça de marketing para inglês ver, uma peça que expressa bem o desenvolvimento segundo Roseana.

Por Jhonatan Almada

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O desgaste da política e o viés oligárquico

O desgaste da política e o viés oligárquico

Edson Sardinha e Renata Camargo, no Congresso em Foco

O elevado número de parlamentares com parentes na política revela o quanto o poder se concentra, cada vez mais, nas mãos de poucas famílias e o quanto o país, apesar do crescimento econômico, ainda precisa avançar na consolidação da democracia. A avaliação é feita por dois cientistas políticos e um historiador ouvidos pelo Congresso em Foco. Os três professores afirmam ver com preocupação o fato de 328 dos 649 congressistas brasileiros combinarem laços políticos e familiares, como revelou levantamento exclusivo feito por este site. Segundo eles, esse controle pode ser mais visível no Legislativo, mas também se reproduz no Executivo, no Judiciário e até no Ministério Público.

Para o cientista político Ricardo Costa de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o poderio das famílias políticas é crescente, impede a circulação de poder, favorece grupos que combinam poder político e econômico e está associado ao encarecimento das campanhas e ao controle dos partidos por núcleos familiares.

"Há uma oligarquização da política. A política cada vez mais passa a ser um negócio de família no Brasil. Passa, muitas vezes, de pai para filho. As eleições estão cada vez mais caras, você tem de ter como condições de elegibilidade estrutura de dinheiro e estrutura familiar política. Isso é um fenômeno também de reprodução do poder político", considera.

Redes de favores

O atual sistema eleitoral, o modelo de financiamento de campanha e a estrutura das legendas favorecem a perpetuação das famílias na política, de acordo com o professor. "A política é feita através de redes de favores, práticas como clientelismo e patronagem. É exatamente aí que as famílias têm muitas vantagens. Uma família com uma organização consegue ao mesmo tempo estar inserida no campo político, ter capital e contatos políticos. Por isso, cada vez é maior o número de jovens parlamentares filhos, netos e parentes de políticos. A cada legislatura vai aumentando a proporção de políticos que têm conexão de parentescos", explica.

Na atual legislatura, apenas oito dos 40 deputados com menos de 35 anos não vêm de família com tradição política. "Só se elege quem é profissional, quem tem muito dinheiro, quem tem muita estrutura. Quem é amador, político novo, só com suas ideias, não consegue se eleger de primeira. Para se eleger, você tem de ter dinheiro e estrutura política,  e quem tem mais dinheiro e estrutura política são famílias que já estão no poder político. Um jovem de 20, 30 anos, só se elege se for de uma família política, com raras exceções. Os próprios partidos passam a ser controlados por famílias", afirma o professor da UFPR.

Democracia pela metade

O cientista político Moisés Augusto Gonçalves, da PUC-MG, diz que o controle político por famílias prejudica a ascensão de setores organizados da sociedade civil. "Sobretudo no interior, há uma dependência de boa parte da população em relação a essas famílias. O poder econômico nesses lugares passa como um trator. A situação é muito  grave. Tem de distinguir o discurso de democracia e sua garantia efetiva. No plano legal, avançamos, mas na realidade efetiva e ocupação, estamos muito atrasados", considera o professor.

Para o professor da PUC-MG, o poderio político familiar mostra o quanto ainda falta para a democracia brasileira se concretizar. Na avaliação dele, o atual modelo político-eleitoral é excludente e tende a conservar as elites no poder. Isso ocorre, em parte, porque as rupturas políticas no Brasil sempre foram resultado de acordos feitos por cima, deixando sempre a maior parte da sociedade fora das decisões, segundo Moisés.

"Nossa democracia é incipiente, embrionária, não consolidada e com verniz liberal. Há apenas um verniz liberal. Isso denota dificuldade de implantar uma democracia autêntica, onde haja alternância de poder no Legislativo", diz. "É algo extremamente preocupante e revelador. Aquela ideia de democracia enquanto espaço aberto para a ocupação de poderes acaba sendo limitado à ocupação por uma pequena parcela da sociedade", acrescenta.

"Neocoronel"

O historiador José Octávio de Arruda Mello, professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), afirma que a concentração de poder nas mãos de poucas famílias revela que o país ainda não conseguiu se livrar dos resquícios do velho coronelismo. "Não tem mais o bico de pena, do voto de cabresto, mas tem o sistema de aliança, que é mais fluido. As alianças vão desde a base até em cima. É urbano. O coronel tradicional tinha cartucheira atravessada no peito. O neocoronel é um homem de cidade. São bacharéis, pessoas ilustradas, mas que sabem onde está o peso da máquina, onde está a força do poder. Eles costumam penetrar nas universidades. É um coronelismo ilustrado, mas é um coronelismo", considera.

O "coronel ilustrado", segundo o professor, exerce seu poder não mais pela terra, como seus ancestrais, mas por meio da burocracia. A dependência em relação a essas famílias é mais comum, na avaliação dele, em estados mais pobres. "As famílias rateiam o poder, colocando seus representantes nas posições decisórias. Elas estão também no Judiciário. É o estamento, a comunidade de poder que não se renova. No Legislativo, isso é mais visível", diz o professor da UFPB.

Tudo dominado

O professor da Universidade Federal do Paraná Ricardo Costa de Oliveira também vê essa "contaminação" dos poderes pelas famílias. Mas ele ressalta, porém, que esse controle não é exclusividade das regiões mais pobres do país. "O Paraná, mesmo com a imagem de que é um estado moderno, de migração, tem famílias políticas e conexões de parentescos muito antigas. Então, o Paraná não é diferente do Maranhão, de Alagoas e outros estados", afirma.

Autor do livro a Teia do Nepotismo, que descreve e analisa a contratação de parentes nas instituições públicas por parte de políticos no Paraná, ele avalia que as estruturas públicas estão sendo, cada vez mais, ocupadas por famílias. "No Brasil, para entender o Tribunal da Contas, têm que entendê-lo pela dimensão do parentesco. Em qualquer estado do Brasil, tribunal de contas só é entendido pelas suas conexões de parentesco e poder político familiar", diz. "A estrutura do Ministério Público é também 'colonizada' por famílias. Cartórios, a mesma coisa. A gente vê que é um fenômeno pelo qual a classe dominante se organiza no Brasil e empiricamente você realiza aquilo que chamo de cartografia do poder político pelas estruturas de parentesco", observa.

Além de dificultar a renovação, a "familiarização" na política brasileira acarreta outros problemas, como a busca crescente de privilégios por parte dos detentores de mandato, segundo o professor da UFPR. "Há um controle arcaico do sistema político, com parlamentares querendo cada vez mais vantagens coorporativas, cada vez mais ampliar seu orçamento, vislumbrando o benefício da reeleição. Querem mais verbas indenizatórias, mais recursos para si, para assessores. Isso faz do poder Legislativo mais inchado, menos eficiente e mais propenso à corrupção", analisa Ricardo.

Político profissional

Para Moisés Augusto, da PUC-MG, a política no Brasil tem sido abraçada cada vez mais como uma profissão, e não como uma atividade. "Há uma indistinção entre o público e o privado. A política se torna um meio de perpetuação do poder em que o bem público cede a interesses particulares. Não é apenas a esfera da representação da política que se torna meio de sobrevivência. Se torna um meio de defesa de interesses familiares e privados. As pessoas também são representantes de interesses familiares. Não há ruptura entre o imperialismo e o estado democrático de direito. É uma linha de continuidade", afirma.

"A esfera política é uma extensão da usina, da fábrica, da fazenda, do banco. Morei muito tempo no Nordeste. Era muito comum ouvir discurso político em que o sujeito dizia: 'Vou administrar a cidade como se fosse minha fazenda'. Ou algo do tipo: 'Como sou uma boa dona-de-casa e sei gerir a economia doméstica, serei uma ótima prefeita'. Esse discurso também existe no Sudeste, mas ele fica no pano de fundo. Mas para quem tem um olhar mais reflexivo, ele está presente", observa Moisés Augusto.

Para Ricardo Costa, da UFPR, é preciso institucionalizar a política e cortar vantagens e benefícios decorrentes do mandato usufruídos por parlamentares e outras autoridades. Só assim, avalia ele, seria possível inibir o interesse de famílias por tantos cargos públicos. "Precisamos ter um poder Legislativo sem vantagens e privilégios para o parlamentar. Na Suécia, por exemplo, o parlamentar não tem assessores, carro, verba indenizatória. Com isso, ele vale pelo que ele é, em termos de ideias e propostas. No Brasil, o parlamentar vale pelo dinheiro que ele consegue capturar e distribuir", diz.

Esta é a última reportagem de uma série iniciada no último dia 4 pelo Congresso em Foco que pretendeu mostrar como a política vem se tornando, cada vez mais, um "negócio de família" no Brasil, as razões e as implicações desse  modelo. As matérias se basearam em levantamento exclusivo feito pelo site sobre os elos de parentesco entre os 649 congressistas que assumiram mandato este ano, entre titulares, licenciados e suplentes em exercício.


Fonte: http://ponto.outraspalavras.net/2011/04/12/desgaste-da-politica-vies-oligarquico/

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Livro Coletanea Sabor & Identidade

Campus Alcântara: jovens pesquisadores lançam coletânea sobre sabores e identidades da região

Por Romulo Gomes Qui, 07 de Abril de 2011 12:45

Atenção, abrir em uma nova janela. PDFImprimirE-mail

capa_sabor_identidadeEstudantes do curso superior em Gestão de Turismo, do Campus Alcântara, sairam em busca dos hábitos alimentares das pessoas do município. Entre comidas e bebidas mais apreciadas na região, encontraram elementos que constituem a identidade cultural dos alcantarenses. O resultado da pesquisa foi reunido na coletânea "Sabor e Identidade: o lugar, o prato, sua poesia", lançada na última terça-feira (05), no Núcleo Profissionalizante em Turismo e Hotelaria.

Coordenada pelos professores Augusto Ângelo Nascimento (Língua Portuguesa), Luísa Belo Cutrim Marques (Alimentos e Bebidas), em colaboração da professora Liziane Mesquita (Gestão e Empreendedorismo), a pesquisa enfocou desde os ingredientes escolhidos, os modos de preparo até a meneira de servir. Os alunos puderam associar a identidade culinária ao Turismo Gastronômico.

 

O historiador e mestrando em Educação, Jhonatan Uelson, em parafrase da coletânea, disse que essa publicação representa um trabalho artesanal, cuidadoso e artístico, cuja materialização preserva o conhecimento popular da culinária maranhense, com olhos e paladares.

 

A coletânea é indicada também por Rossini Corrêa, Membro da Academia Brasiliense de Letras (ABRL) e Pesquisador visitante do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e cartográficos (IMESC). Segundo ele, o livro-prato "trata-se de um diálogo com os sentidos, repleto de cheiro e de sabores, composto de memórias e de convites, sempre perpassando pela dimensão escultural e pictórica, constituindo um testemunho substancioso da cultura maranhense, naquilo que possui de vitória do particular e do universal ofício humano de sobreviver, ao conquistar a capacidade de transformar a satisfação da necessidade em obra de arte a transbordar deslumbrantes contentamentos estéticos".

 

Na literatura maranhense, Graça Aranha descreveu as comilanças nas férias na Maioba; Arthur Azevedo cantou em seus versos o arroz de cuxá; Gonçalves Dias exaltou sonhos e banquetes implicados em cada receita maranhense. "Os alunos do Curso Superior em Gestão de Turismo nos deixam com água na boca e com o ancestral gosto de quero mais ao apresentarem a poesia da culinária maranhense, nessa deliciosa coletânea", ressaltou Augusto Nascimento.

http://www.ifma.edu.br/index.php/reitoria/noticais/75-noticias-estaticas/2450-campus-alcantara-jovens-pesquisadores-lancam-coletanea-sobre-sabores-e-identidades-da-regiao

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Adeus Dr. Jackson

Nos chega a notícia do falecimento do ex-governador do Estado do Maranhão, derrubado por golpe judicial que lhe cassou o mandato e devolveu o poder a oligarquia de sempre.
Não conheci pessoalmente ao Dr. Jackson Lago, mas empenhei toda minha energia no seu governo, como tantos muitos que se somaram na sua luta.

Parte um grande ser humano que lutou bravamente até o último instante na esperança de construir um Maranhão melhor.
Parte um grande político que lutou pela democratização durante 2 anos, 4 meses e 17 dias de mandato legitimamente conquistado.
Parte o amigo, palavra que lhe é característica, pois assim tratava a todos e todas sempre respeitando o amigo e amiga maranhenses.

Fica a esperança, a política e a amizade dos que assumem e assumirão o dever ético e histórico de continuar sua luta por um Maranhão livre e justo. Mais do que lágrimas e tristeza nos deixa a força, a jovialidade e o carinho que nunca perdeu mesmo nos momentos mais difíceis.

Adeus Dr. Jackson, que Deus lhe acolha na sua paz!

Jhonatan Almada

sábado, 26 de março de 2011

A realidade e a ilusão no Maranhão dos Sarney

A realidade é mais forte que a ilusão do poder no Maranhão dos Sarney

A REALIDADE
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/03/ma-apos-denuncia-do-jn-casas-rachadas-comecam-ser-demolidas.html


A ILUSÃO DO PODER

http://www.ssp.ma.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=793:conselho-de-governo-define-diretrizes-de-combate-a-efeitos-das-enchentes&catid=1:noticias&Itemid=53


Meus amigos e amigas enquanto nós aceitarmos passivamente os desmandos desse desgoverno sarneisista essas coisas se repetirão de velhas. Como é possível que nós maranhenses não tomemos em armas e não colocamos pra correr essa corja do Palácio dos Leões? Estamos precisando urgentemente da ousadia árabe?
Na primeira notícia do link acima vemos como o dinheiro para a construção de casas aos desabrigados pela enchente foi parcialmente aplicado, desviado e resultou em construções mais precárias do que as casas dos moradores antes da enchente. Na segunda notícia do link temos uma reunião de secretários estaduais preparando um plano de combate aos efeitos das enchentes, pasmem a reunião ocorreu em 28 de janeiro de 2011! Enquanto que a denúncia veiculada no Jornal Nacional foi feita dia 24 de março de 2011! Colocando em bons termos as ilusões de um governo dentro do Palácio e distante da realidade.

Observem que a matéria do Jornal Nacional não menciona quem é a Governadora do Estado do Maranhão e de que Governo do Estado estamos falando. Certamente nada tem a ver com o fato da TV Mirante, retransmissora da Globo aqui no Maranhão ser de propriedade da família Sarney, nem como o fato da governadora Roseana Sarney, no quarto mandato, ser filha de José Sarney, presidente do Senado pela quarta vez.

É inacreditável, mas parece que nem oposição existe mais no Maranhão. O exemplo do mundo árabe deveria servir de incentivo para mostrar que as coisas só mudam com o povo na rua. Não iremos mudar esperando os ritos eleitorais a cada quatro anos, provavelmente iremos assistir uma nova vitória por 4 mil votos de diferença.

por Jhonatan Almada

sábado, 26 de fevereiro de 2011

entrevista com Eric Hobsbawm

Hobsbawm: "Marx fue un profeta sin armas"

Con la crisis global, el pensamiento De Eric Hobsbawm ha vuelto a estar en boga. Aquí, habla sobre el interés de los financistas por las ideas de Marx, opina sobre el comunismo en China y afirma Que en América Latina se siente "como En casa" porque todavía se habla el lenguaje del socialismo. Su libro "Cómo cambiar El mundo" será publicado próximamente.

POR Tristram Hunt

Hampstead Heath, en la zona arbolada del norte de Londres, se enorgullece del papel destacado que tuvo en la historia del marxismo. Es aquí donde los domingos Karl Marx llevaba a su familia hasta Parliament Hill, recitando en el camino a Shakespeare y a Schiller, para pasar una tarde de picnic y poesía. Los días de semana, se reunía con su amigo Friedrich Engels, que vivía cerca, para hacer una caminata a paso ligero por el monte, donde los "viejos londinenses", como se los conocía, reflexionaban sobre la Comuna de París, la Segunda Internacional y la naturaleza del capitalismo.

Hoy, sobre una calle lateral que sale del monte, la ambición marxista sigue viva en la casa de Eric Hobsbawm. Nacido en 1917 (en Alejandría, bajo el protectorado británico de Egipto) a más de 20 años de la muerte de Marx y Engels, no conoció personalmente a ninguno de esos dos filósofos, por supuesto. Pero al hablar con Eric en la espaciosa sala de estar, llena de fotos familiares, honores académicos y toda una vida de objetos culturales, se percibe una sensación casi tangible de conexión con estos hombres y su memoria.

La última vez que entrevisté a Eric, en 2002, su brillante autobiografía Años interesantes –la crónica de un joven en la Alemania de Weimar, el amor de toda su vida por el jazz y la forma en que realizó la transformación del estudio de la historia en Gran Bretaña– acababa de salir y había recibido críticas elogiosas. También coincidió con otro ataque cíclico de los medios a la pertenencia de Eric al Partido Comunista, tras la publicación del libro de Martin Amis contra Stalin, Koba el temible. En ese entonces, el "profesor marxista" explicó que no buscaba, tal como escribió, "acuerdo, aprobación o simpatía" sino más bien, comprensión histórica para una vida en el siglo XX moldeada por la lucha contra el fascismo.


La crisis neoliberal

Las cosas cambiaron desde entonces. La crisis global del capitalismo, que causa estragos en la economía mundial desde 2007, transformó los términos del debate.

De pronto, resurgió la crítica que hace Marx acerca de la inestabilidad del capitalismo. "Ha vuelto", proclamó el London Times en el otoño de 2008 cuando las bolsas se desplomaban, los bancos eran nacionalizados en forma sumaria y Sarkozy, el presidente de Francia, era fotografiado hojeando Das Kapital (cuyas ventas aumentaron al punto de llegar a las listas alemanas de libros más vendidos). Hasta el papa Benedicto XVI se vio obligado a elogiar la "gran habilidad analítica" de Marx. Karl Marx, el gran ogro del siglo XX, había sido resucitado en las universidades, los encuentros de debate y las oficinas editoriales.

Parecería ser, pues, el momento ideal para que Eric Hobsbawm reúna sus ensayos más celebrados sobre Marx en un solo volumen, junto con material nuevo sobre el marxismo a la luz del colapso económico. Para Hobsbawm, el deber continuo de abordar a Marx y sus múltiples legados –entre otras cosas, en este libro, algunos nuevos capítulos excelentes sobre el significado de Gramsci– sigue siendo fuerte.

El propio Eric, empero, cambió. Sufrió una fea caída en Navidad y ya no puede eludir las limitaciones físicas de sus 93 años. El humor y la hospitalidad tanto suyos como de su esposa, Marlene, así como su intelecto, su agudeza política y su amplitud de visión, continúan no obstante maravillosamente intactos. Con un Financial Times sobre la mesa de café, Eric pasó sin contratiempos de los sondeos sobre Lula, el presidente saliente de Brasil, a las dificultades ideológicas que afronta el Partido Comunista en Bengala Occidental o las convulsiones en Indonesia que siguieron a la caída económica global de 1857.

La sensibilidad global y la ausencia total de provincianismo, siempre tan sólidas en su obra, siguen configurando su política y su historia.

Y después de una hora hablando sobre Marx, el materialismo y la lucha continua por la dignidad humana frente a los chubascos del libre mercado, uno se va de la terraza de Hobsbawm en Hampstead –cerca de los senderos por los que solían caminar Karl y Friedrich– con el sentimiento de haber pasado por un seminario vertiginoso con una de las grandes mentes del siglo XX. Una mente resuelta, además, a mantener una mirada crítica sobre el XXI.

¿En el núcleo de este libro hay una idea de reivindicación? ¿De que aun cuando las ideas propuestas en su momento por Karl Marx no sean ya relevantes, él hacía las preguntas correctas sobre la naturaleza del capitalismo y que el capitalismo que surgió en los últimos 20 años se parecía mucho a lo que Marx pensaba allá por el año 1840?

Sí, sin duda. El redescubrimiento de Marx en esta época de crisis capitalista se debe a que en 1848 predijo más que ningún otro el mundo moderno. Es, creo, lo que ha atraído hacia su obra la atención de una serie de nuevos observadores, paradójicamente, en primer lugar gente de negocios y comentaristas de negocios más que de la izquierda. Recuerdo haberlo observado justamente en la época del 150° aniversario de la publicación de El manifiesto comunista, cuando en la izquierda no se estaban haciendo muchos planes para celebrar. Descubrí para mi gran asombro que los editores de la revista que daban en el avión de United Airlines decían que querían publicar algo sobre El Manifiesto . Al poco tiempo, estuve almorzando con el financista George Soros que me preguntó: "¿Qué piensa usted de Marx?" Aunque no coincidíamos en muchas cosas, me dijo: "Ese tipo definitivamente algo tenía".

¿Tiene la sensación de que lo que le gusta, en parte, de Marx a gente como Soros es cómo describe de manera brillante la energía, el carácter iconoclasta y el potencial del capitalismo? ¿Era esa la parte que atraía a los altos ejecutivos que volaban por United Airlines?

Creo que es la globalización, los impresionaba el hecho de que predijera la globalización, como quien dice, una globalización universal, que incluye la globalización de los gustos y todo lo que trae aparejado. Pero pienso que los más inteligentes también veían una teoría que permitía una especie de desarrollo recortado de la crisis. Porque la teoría oficial en esa época (fines de los años 1990) teóricamente rechazaba la posibilidad de una crisis.

¿Y ese discurso de "un fin de la expansión y contracción" y salir del ciclo económico?

Exactamente. Lo que pasó a partir de los años 1970, primero en las universidades, en Chicago y el resto, y finalmente, desde 1980 con Thatcher y Reagan fue, supongo, una deformación patológica del principio de libre mercado que propicia el capitalismo: la economía de mercado pura y el rechazo del Estado y de la acción pública que no creo que ninguna economía del siglo XIX haya puesto en práctica realmente, ni siquiera los Estados Unidos. Y estaba en conflicto, entre otras cosas, con la forma en que el capitalismo había funcionado en su época más exitosa, entre 1945 y comienzos de los 70.

Cuando dice "exitosa", ¿es en cuanto a elevar los niveles de vida en los años de la posguerra?

Exitosa porque dio ganancias y aseguró algo como una población políticamente estable y relativamente satisfecha a nivel social. No era ideal pero era, digamos, un capitalismo con rostro humano.

Y usted considera que el renovado interés por Marx también se debió al fin de los Estados marxistas/leninistas. ¿La sombra leninista desapareció y usted pudo volver a la naturaleza original de la escritura de Marx?

Con la caída de la Unión Soviética, los capitalistas dejaron de tener miedo y en ese sentido tanto ellos como nosotros pudimos analizar el problema de una manera mucho más equilibrada, menos distorsionada por la pasión que antes. No obstante, yo creo que fue más la inestabilidad de esta economía neoliberal globalizada la que empezó a ser muy notable al final del siglo. Mire, en cierto modo, la economía globalizada fue dirigida en forma efectiva por lo que podríamos llamar el Noroeste [Europa occidental y Norteamérica] global y ellos impulsaron ese fundamentalismo de mercado ultra-extremo. Al principio, pareció funcionar muy bien –al menos en el viejo noroeste– aunque desde el comienzo se podía ver en la periferia de la economía global que creaba terremotos, grandes terremotos. En América Latina hubo una enorme crisis financiera a comienzos de los 80. A comienzos de los 90, en Rusia hubo una catástrofe económica. Y después hacia finales del siglo, se produjo ese colapso enorme, casi global, que fue de Rusia a Corea (del Sur), Indonesia y Argentina. Esto hizo que la gente empezara a pensar, me parece, que había en el sistema una inestabilidad de base que antes se había pasado por alto.

Se ha llegado a sugerir que la crisis que vemos desde 2008 en relación con Estados Unidos, Europa y Gran Bretaña no es tanto una crisis del capitalismo en sí, sino del capitalismo financiero moderno de Occidente. Mientras tanto, Brasil, Rusia, India y China –BRIC– están desarrollando sus economías al mismo tiempo sobre modelos cada vez más capitalistas. ¿O es simplemente que ahora nos toca sufrir a nosotros las crisis que ellos tuvieron hace 10 años?

El verdadero avance de los países BRIC es algo que se produjo en los últimos 10 años, 15 como máximo. O sea que en ese sentido se puede decir que fue una crisis del capitalismo. Por otro lado, creo que es riesgoso asumir, como hacen los neoliberales y los defensores del libre mercado, que hay un solo tipo de capitalismo. El capitalismo es, si se quiere, una familia, con una variedad de posibilidades, desde el capitalismo dirigido por el Estado de Francia hasta el libre mercado de Estados Unidos. Por lo tanto es un error creer que el avance de los países BRIC es simplemente lo mismo, como la generalización del capitalismo occidental. No lo es: la única vez que se intentó importar el fundamentalismo del libre mercado al por mayor fue en Rusia y resultó un fracaso absolutamente trágico.

Usted planteó el tema de las consecuencias políticas del colapso. En su libro, habla de una insistencia en analizar los textos clásicos de Marx como si aportaran un programa político coherente para hoy, pero ¿adónde cree que va en la actualidad el marxismo como proyecto político?

No creo que Marx haya tenido nunca un proyecto político, por así decirlo. Políticamente hablando, el programa específico de Marx era que la clase trabajadora se formara como un cuerpo consciente de clase y actuara políticamente para adquirir poder. Fuera de eso, Marx de manera muy deliberada fue vago en razón de su aversión hacia las cosas utópicas. Paradójicamente, yo diría incluso que a los nuevos partidos se les permitía improvisar, hacer lo que pudieran sin instrucciones efectivas. Lo que Marx había escrito equivalía apenas un poco más que a las ideas estilo Cláusula IV sobre la propiedad privada, en ninguna parte cercano siquiera a brindar una orientación a los partidos o ministerios. Mi opinión es que el principal modelo que los socialistas y los comunistas del siglo XX tuvieron en mente fueron las economías de guerra dirigidas por el Estado de la Primera Guerra Mundial, que no eran particularmente socialistas pero que sí aportaban alguna suerte de orientación acerca de cómo podía llegar a funcionar la socialización.

¿No le sorprende la incapacidad, ya sea de la izquierda marxista o socialdemócrata, de aprovechar la crisis de estos últimos años políticamente? Aquí estamos sentados a 20 años de la muerte de uno de los partidos que usted más admira, el Partido Comunista de Italia. ¿Lo deprime el estado de la izquierda en este momento en Europa y en otras partes?

Sí, por supuesto. De hecho, una de las cosas que estoy tratando de mostrar en el libro es que la crisis del marxismo no es sólo la crisis de la rama revolucionaria del marxismo sino de la rama social demócrata también. La nueva situación en la nueva economía globalizada finalmente aniquiló no sólo al leninismo marxista sino también al reformismo social demócrata, que fue esencialmente la clase trabajadora ejerciendo presión sobre sus Estados-nación. Con la globalización, no obstante, la capacidad de los Estados para responder a esta presión disminuyó efectivamente. Y entonces la izquierda retrocedió dando a entender: "Miren, los capitalistas están haciendo las cosas bien, lo único que debemos hacer es dejarlos ganar y asegurarnos de recibir nuestra parte". Eso funcionó mientras esa parte se tradujo en crear Estados de bienestar, pero a partir de los años 1970, dejó de funcionar y entonces hubo que hacer, efectivamente, lo que hicieron Blair y Brown: dejarlos ganar todo el dinero posible y tener la esperanza de que se derramara la cantidad suficiente como para que nuestro pueblo estuviera mejor.

Entonces, ¿hubo un pacto faustiano para que en los buenos tiempos, en tanto las ganancias fueran saludables y se pudiera garantizar la inversión en educación y salud, no hiciéramos demasiadas preguntas?

Sí, mientras mejoró el nivel de vida.

Y ahora al caer las ganancias ¿luchamos por encontrar respuestas?

Ahora que con los países occidentales estamos yendo para el otro lado, con el crecimiento económico relativamente estático, declinando incluso, la cuestión de las reformas vuelve a tornarse urgente una vez más.

¿Usted ve como parte del problema, en lo que a la izquierda se refiere, el final de una clase trabajadora masiva consciente e identificable, algo que fue tradicionalmente esencial para la política socialdemócrata?

Históricamente es cierto. Los gobiernos socialdemócratas y las reformas cristalizaron en torno de partidos de clase obrera. Estos partidos nunca fueron, o sólo rara vez, totalmente de clase trabajadora. Siempre fueron hasta cierto punto alianzas: alianzas con ciertos tipos de intelectuales progresistas y de izquierda, con minorías, minorías religiosas y culturales, posiblemente muchos países con distintos tipos de pobres trabajadores, obreros. Con la excepción de los Estados Unidos, la clase trabajadora fue un bloque masivo reconocible durante mucho tiempo, ciertamente hasta bien entrada la década de 1970. Creo que la rapidez de la desindustrialización en este país alteró muchísimo no sólo la magnitud sino también, si se quiere, la conciencia de la clase trabajadora. Y no hay ningún país en la actualidad donde la clase trabajadora industrial pura en sí sea suficientemente fuerte. Lo que todavía es posible es que la clase trabajadora forme, por así decirlo, el esqueleto de movimientos más amplios de cambio social. Un buen ejemplo de esto, en la izquierda, es Brasil, que presenta un caso clásico de partido laborista de fines del siglo XIX basado en una alianza de sindicatos, trabajadores, los pobres en general, intelectuales, ideólogos y distintos tipos de izquierdistas, que ha producido una coalición gobernante asombrosa. Y no se puede decir que no sea exitosa después de ocho años de gobierno con un presidente saliente que cuenta con niveles de aprobación del 80%. En este momento, ideológicamente, me siento más en casa en América Latina porque sigue siendo el lugar en el mundo donde la gente todavía habla y dirige la política con el viejo lenguaje, el lenguaje del siglo XIX y el XX de socialismo, comunismo y marxismo.

En términos de partidos marxistas, algo que se desprende con mucha fuerza de su trabajo es el rol de los intelectuales. Hoy, vemos un entusiasmo enorme en universidades como la suya en Birkbeck, con reuniones y actos. Y si miramos los trabajos de Naomi Klein o David Harvey o las presentaciones de Slavoj Zizek, hay un verdadero entusiasmo. ¿Lo entusiasman estos intelectuales públicos del marxismo en este momento?

No sé si ha habido un gran cambio pero es indudable: con los actuales recortes del Gobierno habrá una radicalización de los estudiantes. Eso es algo del lado positivo. Del lado negativo... si analizamos la última oportunidad de una radicalización masiva de estudiantes en el 68, no significó demasiado. No obstante, como pensaba entonces y sigo pensando aún hoy, es preferible que los jóvenes, hombres y mujeres, piensen que están en la izquierda a que los jóvenes, hombres y mujeres, sientan que lo único por hacer es conseguir un trabajo en la bolsa.

¿Y cree que hombres como Harvey y Zizek desempeñan un papel útil en eso?

Supongo que la descripción de presentador se ajusta a Zizek. Tiene ese elemento de provocación que es muy característico y que ayuda a generar el interés de la gente, pero no estoy seguro de que quienes leen a Zizek se sientan mucho más cerca de repensar los problemas de la izquierda.

Permítame pasar de Occidente a Oriente. Uno de los interrogantes más urgentes que usted se plantea en el libro es si el Partido Comunista chino puede desarrollar su nuevo lugar en la escena global y responder a ésta.

Es un gran misterio. El comunismo desapareció pero subsiste un elemento importante del comunismo, ciertamente en Asia, que es el Partido Comunista estatal que dirige a la sociedad. ¿Cómo trabaja? En China me parece que hay un grado más alto de conciencia de la inestabilidad potencial de la situación. Probablemente haya una tendencia a crear más espacio de maniobra para una clase media intelectual creciente y para sectores educados de la población, que, después de todo, se medirán en decenas, posiblemente cientos de millones. También es cierto que el Partido Comunista en China parece estar reclutando un liderazgo tecnocrático. Cómo se une todo eso, no lo sé. Lo que sí me parece posible con esta rápida industrialización es el crecimiento de movimientos laboristas, y no queda claro hasta qué punto el Partido Comunista chino puede encontrar lugar para las organizaciones del trabajo o si las consideraría inaceptables, a la manera en que [consideró inaceptables] las protestas de la Plaza Tianannmen.

Permítame hacerle algunas preguntas sobre la política aquí en Gran Bretaña, para conocer su idea sobre la coalición. Me parece que tiene cierto aire de 1930 en lo relacionado con su ortodoxia fiscal, recortes del gasto, desigualdades del ingreso, con David Cameron como una figura muy similar a Stanley Baldwin. ¿Cuál es la lectura que usted hace?

Detrás de los distintos recortes que se sugieren en este momento, y que tienen la justificación de librarse del déficit, claramente parece haber una demanda ideológica sistemática de deconstruir, semiprivatizar, los viejos acuerdos, ya se trate del sistema de pensiones, la asistencia social, el sistema escolar o incluso el de salud. Estas cosas en la mayoría de los casos no se tuvieron en cuenta ni en el manifiesto conservador ni en el liberal y sin embargo, viéndolo desde afuera, éste es un gobierno mucho más radicalmente derechista de lo que parecía a primera vista.

¿Y cuál le parece que debería ser la respuesta del Partido Laborista?

El partido Laborista en líneas generales no ha sido una oposición muy eficaz desde la elección, en parte porque pasó meses y meses eligiendo a su nuevo líder. Pienso que el Partido Laborista debería, en primer lugar, hacer mucho más hincapié en que para la mayoría de la gente en los últimos 13 años, la época no fue del colapso al caos sino en realidad una época en que la situación mejoró, y particularmente en áreas como las escuelas, los hospitales y toda una serie de otros logros culturales – o sea que la idea de que de alguna manera todo debe ser desmantelado y sepultado no es válida. Creo que debemos defender lo que la mayoría de la gente cree que debe básicamente ser defendido y que es la provisión de alguna forma de bienestar desde la cuna hasta la tumba.

Usted conoció a Ralph Miliband, puesto que los Miliband son viejos amigos. ¿Qué cree que habría pensado Ralph de la contienda entre sus hijos y el desenlace con Ed dirigiendo el Partido?

Bueno, como padre obviamente no podría dejar de estar bastante orgulloso. Ciertamente estaría mucho más a la izquierda de sus dos hijos. Creo que Ralph se identificó realmente durante la mayor parte de su vida con el rechazo del Partido Laborista y de la ruta parlamentaria, y la esperanza de que, de alguna manera, fuera posible que naciera un partido socialista como corresponde. Cuando Ralph finalmente se reconcilió con el Partido Laborista, fue en el período menos útil, a saber la época de Bennite cuando no hizo mucho. De todos modos, creo que Ralph ciertamente habría esperado algo mucho más radical de lo que hasta ahora parecieron hacer sus hijos.

El título de su nuevo libro es Cómo cambiar el mundo . Usted escribe, en el último párrafo, "todavía sigue pareciéndome plausible el reemplazo del capitalismo". ¿Es una esperanza intacta y es lo que lo mantiene trabajando, escribiendo y pensando en este momento?

No existe ninguna esperanza intacta en esta época.

Cómo cambiar el mundo es un relato de lo que hizo fundamentalmente el marxismo en el siglo XX, en parte a través de los partidos socialdemócratas que no derivaron directamente de Marx y de otros partidos –los partidos laboristas, los partidos de los trabajadores, etc.– que subsisten como gobierno y como partidos potenciales en el gobierno en todas partes. Y segundo, a través de la Revolución rusa y todas sus consecuencias. El precedente de Karl Marx, un profeta sin armas, inspirador de grandes cambios, es innegable. De manera muy deliberada, no digo que haya perspectivas equivalentes en este momento. Lo que digo ahora es que los problemas básicos del siglo XXI requerirían soluciones que ni el mercado puro, ni la democracia progresista pura pueden resolver adecuadamente. Y en ese sentido, habría que pensar una combinación diferente, una mezcla diferente de público y privado, de acción y control del Estado y libertad. Cómo se llamará eso, no lo sé. Pero podría perfectamente no ser capitalismo, ciertamente no en el sentido en el que lo hemos conocido en este país y en los Estados Unidos.

Traduccion: Cristina Sardoy.

(c) The Guardian, 2011

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